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Correio Braziliense

Documentário revela múltiplas facetas do maestro Claudio Santoro

Santoro fez história em Brasília e deu nome ao Teatro Nacional da capital


postado em 14/03/2018 07:00

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
 
O primeiro e único encontro foi rápido: nos anos de 1980, durante o Festival de Música Contemporânea, na sala Cecília Meirelles (RJ), o ex-estudante de contrabaixo acústico John Howard Szerman topou com uma das maiores personalidades da música clássica brasileira, o maestro Claudio Santoro. Ao lado da esposa, que ia prestigiar a apresentação de um primo, John foi recepcionado pelo maestro que, ao saber de sua admiração, aconselhou Howard a ouvir mais as peças que compôs. Com a produção do documentário Santoro — O homem e sua música, Szerman se aprimorou no contato com os feitos do músico que, em 1962, foi recrutado para a criação do Departamento de Música da Universidade de Brasília.

“Realmente, foi sempre uma descoberta ouvir composições do Claudio, sempre tão versátil, mas tão presente, em cada peça criada. Ele experimentou de tudo: ópera, sinfonias, música eletroacústica, enveredou pelo nacionalismo, pela música dodecafônica e se arriscou com registros estocásticos, música abstrata e eletrônica”, avalia o cineasta John Howard Szerman. O documentário de Howard, há dois anos, faturou, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, troféus atribuídos pela Câmara Legislativa nas categorias melhor filme, direção e trilha sonora.

Mobilizar um resgate da imagem do maestro amazonense foi um ponto de partida para o filme. Viúva de Claudio, Gisèle Santoro se queixava para John Howard do rareamento nas requisições para que as peças de Claudio fossem tocadas. Com o filme pronto, o diretor buscou o “jogo de cintura” para colocar em cartaz, tornado ele mesmo distribuidor (junto à Ancine). Oito cidades simultaneamente já exibem o filme.

Mesmo com a competição dura dos “filmes do Oscar” atualmente em cartaz, a repercussão tem sido positiva. “O circuito ideal do filme será a televisão, as plataformas on demand. Mas, fiz questão de possibilitar ao público o acesso à força do som das músicas do Claudio Santoro. O som é muito importante, e no cinema, ele vem mixado com a potência do Dolby 5.1”, observa o diretor.

Exibir o filme no Amazonas tem sido um objetivo, já que Santoro era manauara e com seu nome foram batizados liceu de artes, sala e auditórios. Outra maneira de revigorar o nome do músico está em planejamento junto ao Ministério da Cultura, uma vez que o centenário de nascimento será em 2019. “Entre muitas outras coisas, pensamos no lançamento de caixas de CDs e DVDs, até com aproveitamento de material extra do filme. Cada sinfonia gravada para o filme tem 40 minutos, e, com a edição, usamos, no máximo, três minutos de cada obra. A técnica de captação de som foi extrema: usamos o sistema Deca Tree, que traz limpidez para o som, pela disposição e alcance dos microfones”, explica o diretor.

Entre as curiosidades expressas no documentário está o depoimento de um dos filhos de Santoro, o DJ Raffa, que lembra da capacidade múltipla do pai que não escrevia linearmente na pauta, na horizontal. A opção era a escrita e a criação de músicas “na vertical”. Raffa conta que Claudio atendia ao telefone, assistia tevê e criava, tudo ao mesmo tempo.

Muitas músicas de Santoro, que produziu 14 sinfonias, estão no filme, executadas pela Orquestra Sinfônica Brasileira, pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e pelas filarmônicas Amazonas e de Minas Gerais. Preferida por Claudio Santoro, a Orquestra da Rádio Berlim entra na fita, por meio de material de arquivo, cedido por profissionais argentinos. Em pauta, executam a sinfonia Brasília.

Santoro — O homem e sua música discorre ainda sobre o movimento Música Viva, trata dos vinte anos em que Santoro ficou sem criar uma sinfonia, revela o spalla Santoro, já nos anos 1940, integrado à inaugural Orquestra Sinfônica Brasileira, e reitera a comparação feita por John Howard Szewman de Santoro com Igor Stravinsky. “Ele trazia autenticidade incomparável. Trouxe de músicas populares ao trânsito entre clássico e vanguarda. Inquieto, versátil, dado ao experimental, Santoro tocava até no Copacabana Palace, em meio à jornada intensa. Passou um período dormindo duas, três horas ao dia, em favor das criações”, esclarece o diretor.
 
Duas perguntas / John Howard Szerman, diretor
 
Professor, compositor, maestro — nessas tantas áreas, em qual delas Cláudio Santoro mais impressiona?
Como músico, ele foi violinista ao acaso, presenteado aos 11 anos por um tio que lhe deu o instrumento. De pronto, ele pegou o violino e tocou Beethoven. Santoro impressiona ainda pela obra diferenciada. Nas 15 obras que ele compôs para o cinema, todas elogiadas, independentemente da variedade de técnicas e estilos; nas peças, a presença dele é sentida como uma digital de dedo, em 600 obras. Em Poemas de amor (com Vinicius de Moraes), a modulação da harmonia é inconfundível.

O filme foi dos seus maiores desafios, entre mais de 40 experiências com audiovisual?
Não busquei desafios maiores. Queria tão somente apresentá-lo e contribuir para o resgate e a redescoberta dele. Claudio teve problemas financeiros, não pôde tocar, muitas vezes, por pressões de duas ditaduras! Acompanhei as quatro orquestras que integram o filme e, em cada concerto, elas deixavam o público magnetizado com Santoro. Há uma força de comunicação nele que resulta em público sempre mexido, emocionalmente.
 

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