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Correio Braziliense

Cresce circuito de produção artística em Brasília fora do Plano Piloto

Trabalhar em rede e com propostas compartilhadas é uma forma de artistas e ativistas criarem um público e um espaço de voz em cidades longe do plano piloto


postado em 18/03/2018 07:30 / atualizado em 16/03/2018 18:23

Espaços como o pilastra encontraram na reunião de esforços entre artistas uma maneira de produzir e gerar conhecimento(foto: Pilastra/Divulgação)
Espaços como o pilastra encontraram na reunião de esforços entre artistas uma maneira de produzir e gerar conhecimento (foto: Pilastra/Divulgação)

 
Eles não moram no Plano Piloto e decidiram que não dependeriam do circuito central da arte para criar uma cena e um mercado. Elaboraram, então, alternativas — espaços híbridos e colaborativos em alguns casos; iniciativas particulares em outros, a maioria sem participação alguma de dinheiro público como modo de absorver e fomentar a produção local.

São formas de suprir a ausência de políticas públicas de cultura, mas também são novas formas de organização, baseadas em rede, na coletividade e na colaboração, uma realidade cada vez mais comum no mundo da cultura. Esses locais não são destinados apenas a exposições de arte e raramente são apenas galerias. Eles vão além na otimização dos espaços e das possibilidades da colaboração.
 

Neles há um pouco de tudo, da produção de bens culturais a encontros que geram conhecimento. Na Casa Ipê, as rodas de conversa têm o feminismo como perspectiva. No Pilastra, a necessidade fez uma dupla de artistas montar um espaço que os ajude a viver de arte. As meninas da Casa Monstro tem postura ideológica de promover cultura em Samambaia. O Manoobra é uma iniciativa solitária e guerreira de um professor de artes da rede pública.

Realizado no primeiro final de semana de março, o circuito BSB Plano das Artes colocou no mapa alguns desses espaços, como o Manoobra e o Pilastra. O Diversão & Arte foi em busca de outros.  Veja como funcionam esses locais.

Manoobra é um galpão de três andares que serve de galeria, estúdio e moradia (foto: Diego Bresani/Divulgação)
Manoobra é um galpão de três andares que serve de galeria, estúdio e moradia (foto: Diego Bresani/Divulgação)


Manoobra
José Ivacy foi professor de arte da rede pública de ensino por 31 anos. Durante esse tempo,  colecionou arte e ganhou muita coisa de amigos. A vontade de movimentar esse acervo e de dar aulas o motivou a criar o Manoobra, um galpão de três andares que serve de galeria, estúdio e moradia na Vila Rosada, condomínio à beira do Km 5 da estrada que leva a Sobradinho.

No estúdio, Ivacy passou a realizar oficinas de arte para jovens da região e, nos 200m² do térreo, ele expõe parte do acervo particular formado por mais de 30 peças. A intenção é fazer uma exposição a cada seis meses e atender ao público por agendamento.

Atualmente, está em cartaz Arteafeto, com curadoria de Bené Fonteles e obras de Glênio Lima, do próprio Bené, de Rubem Valentim e de Renato Mattos. “Senti necessidade de organizar essas obras”, explica o artista. “Espaços de cultura na periferia existem em qualquer lugar do mundo, é uma forma de resistir. Minha permanência aqui, mesmo com a cidade formando um círculo, invadindo, é uma forma de tentar fazer algo diferente.” O Manoobra fica em um condomínio cada vez mais cercado de casas e invasões. Ivacy já foi até aconselhado por delegado a sair de lá, mas ele tem um propósito e faz questão de manter o espaço aberto à visitação.


A Pilastra
Nada em torno do A Pilastra leva os passantes a desconfiarem de um espaço híbrido de arte na QR 40 do Guará. Cercado de oficinas, o misto de ateliê, estúdio e galeria é fruto da iniciativa dos estudantes Mateus Lucena e Lana Chadwick.

Inaugurado há quatro meses, o local foi pensado para acolher artistas e público em busca de uma alternativa à produção do Plano Piloto. Entre duas oficinas, uma portinha  leva à sobreloja reformada para receber duas galerias, um estúdio de fotografia com anexo para tratamento das imagens e duas salas para oficinas, cursos e ateliê.

A pilastra reúne artistas provenientes, principalmente, das cidades do DF. “A maior parte do nosso público tem entre 15 e 30 anos e é, majoritariamente, de fora do Plano”, repara Mateus. A movimentação da periferia para o centro, ele lembra, sempre foi a regra, porque boa parte da cena ocupava os espaços do Plano Piloto. No entanto, isso tem mudado, embora o fluxo em sentido contrário nunca tenha sido uma realidade.

“A gente não sabe se é por desconhecimento mesmo, mas as pessoas não têm o hábito de vir do Plano”, aponta Mateus. Aos 21 anos e cursando teoria crítica e história da arte, o morador do Gama acredita que a forma colaborativa é a única maneira de viver de arte. É com serviços de fotografia e a renda do aluguel do estúdio que ele e Lana mantêm A Pilastra.


Casa Monstro
A comerciante Gabi Ferreira e a designer Lorena Costa queriam sair do Plano Piloto e montar um espaço colaborativo que agregasse artistas e empreendedores. Escolheram Samambaia para fundar a Casa Monstro, em novembro de 2016.

“É uma cidade em expansão frenética e tem para onde crescer. As pessoas têm um preconceito arquitetônico porque não sabem como é e se surpreendem com Samambaia”, explica Gabi. “Esse lance de sair do circuito do Plano Piloto foi uma questão ideológica mesmo. Estar no contrafluxo, para nós, era importante.” Gabi explica que há abundância de todo tipo de serviço de alta qualidade em Samambaia, mas isso fica escasso quando se trata de cultura.

“E a gente achava isso inadmissível, porque tem público para consumir. Não tem (iniciativas culturais) porque as pessoas não querem estar aqui, não querem investir”, lamenta. A Casa Monstro funciona como um espaço de coworking, tem brechó colaborativo e oficina de marcenaria. 

A partir de maio, o espaço se torna um misto de ateliê colaborativo no qual será possível alugar cômodos, como a oficina e a cozinha. A Casa Monstro também tem uma galeria de arte reservada para artistas locais do Distrito Federal.


Villavelha Zen Squat
Misto de estúdio de tatuagem, casa de produção musical para bandas independentes, galeria de arte e oficina, o Villavelha nasceu porque a artista Jacqueline Bittencourt e o músico Ênio Villavelha queriam um espaço no qual pudessem trabalhar em conjunto com outros artistas.

Eles alugaram o prédio no Mercado Sul, em Taguatinga, há seis meses e deram início ao projeto cujo pilar é a economia solidária. “É muito interessante conhecer esses movimentos fora do Plano Piloto, porque são espaços nos quais a gente consegue perceber de fato a arte acontecendo pela arte. Especialmente a cultura popular, que sempre está necessariamente fora do centro”, explica Jacque, que é arte-educadora, professora da rede de ensino público e tatuadora.

No espaço, funcionam o “ateliê de tatoo” da artista, uma pequena produtora de música e a galeria que, no momento, abriga exposição de registros de intervenções do artista Fernando Franciosi. No Villavelha, há também parcerias com outros artistas do Mercado Sul, sobretudo quando se trata de realizar feiras e oficinas. Nos próximos dias 24 e 25 de março, por exemplo, o espaço oferece, em parceria com o Ateliê Coletivo, uma oficina de vitrais. O resultado será usado para substituir os vidros dos prédios das ocupações.

Casa Ipê
 
 
 
Criada em 2016 para ser um lugar de voz dedicado às mulheres, a Casa Ipê, em Ceilândia, é um centro de atividades realizadas com a perspectiva feminista que movimenta a cultura local. A psicóloga Fernanda Fontoura, uma das fundadoras, explica que a intenção não é oferecer lazer e entretenimento, e sim um espaço de ativismo no qual a arte é local de passagem para tratar de questões como machismo, racismo, homofobia e violência contra a mulher e contra pessoas LBGTQI.

Inclusão, escuta e protagonismo são ideias que norteiam as atividades da casa. Por lá passam artistas, mas também quaisquer mulheres em busca de espaço para se expressar. “Não queremos ser um estereótipo de ser uma comunidade periférica. O que fazemos é menos entretenimento e mais intervenção cultural”, avisa Fernanda, que trabalhou com psicologia clínica junto a homens encaminhados pela Justiça por violência contra a mulher e, em 2016, decidiu trabalhar junto ao público feminino.

“Tem muita cultura acontecendo nessas cidades periféricas, mas o investimento, é verdade, é bem menor”, explica a psicóloga, que hoje se classifica como uma artivista. Entre as atividades da Casa Ipê estão saraus com  palco aberto exclusivamente para o público feminino, rodas de prosa com mulheres inspiradoras, residências com artistas, encontros para debater questões feministas e exposições de arte. Hoje, fazem parte da casa Daniela Vieira, Fernanda Fontoura, Fabrício Hundou, Suelen Vieira, Béa, Kika Sena, Thiago e Néliton. “São todas mulheres (cis ou trans), lésbicas ou bissexuais e homens em exercício de masculinidade não hegemônica, gays, viados”, explica Fernanda, que mora no local.
 
 
 
 


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