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Correio Braziliense

Entrevista: Diogo Nogueira conta detalhes do seu novo disco 'Munduê'

Mais de dez anos depois de abandonar a carreira de jogador de futebol, Diogo Nogueira marca um gol de placa com o disco Munduê


postado em 19/03/2018 10:00

Diogo Nogueira se firmou como um dos melhores cantores de samba da geração dele(foto: Guto Costa/Divulgação)
Diogo Nogueira se firmou como um dos melhores cantores de samba da geração dele (foto: Guto Costa/Divulgação)
 
Intelectual e ativista militante, criador do Clube do Samba, mestre João Nogueira certamente estaria orgulhoso do filho que, depois de tentar ser jogador de futebol, tornou-se um dos expoentes da nova geração do gênero musical mais representativo do país.

Dez anos após dar início à carreira de cantor e compositor, Diogo Nogueira brilha nos palcos e em discos. Para comemorar a primeira década nesse ofício, ele acaba de lançar Munduê, 11º disco, o primeiro em que todas as músicas têm a sua assinatura.

No CD foram registrados 14 sambas e, na grande maioria, Diogo tem como parceiros sambistas da própria geração: Inácio Rios (Dança do tempo e No pé que está), Leandro Fregonesi (Tempos difíceis e Mercado popular) e Fred Camacho (Coragem e Em nome do amor). A eles se juntam Leandro Fab, Mosquito, Raphael Richaid, Raul de Caprio e Felipe Donguinha. Esse grupo é responsável por um repertório de forte apelo popular.

Há ainda nesse projeto a presença de dois brasilienses. O bandolinista Hamilton de Holanda fez com Diogo e Bruno Barreto a música que dá nome ao álbum. O violonista Rafael dos Anjos se juntou ao cavaquinista Alessandro Cardoso na produção do disco. Eles são também parceiros de Diogo na faixa Me chama.

Criação conjunta de Dona Ivone Lara, Bruno Castro, Ciraninho e Diogo, Império e Portela surge como um dos melhores momentos desse projeto. Com conhecimento de causa e muita afetividade, os quatro tecem loas às tradicionais escolas de Madureira, que poderiam ser rivais, mas são vistas como coirmãs.

Reverente, em Munduê Diogo presta tributo a outro bamba, o saudoso baterista e compositor Wilson das Neves, morto ano passado. Na concepção gráfica, o cantor, com humanidade e delicadeza, buscou mostrar aspectos da comunidade quilombola São José da Serra, em Conservatória, a mais antiga do Rio de Janeiro. Fez isso por meio das fotos de Rafaê Silva que ilustram a capa, a contra-capa e o encarte.

Munduê
CD de Diogo Nogueira com 14 faixas, produzido por Rafael dos Anjos e Alessandro Cardoso. Lançamento Universal Music. Preço sugerido: R$ 24,90.

“O Chico (Buarque) me ligou do nada para dizer que tinha feito uma música com o Ivan Lins e que queria que eu gravasse. Quer presente maior que esse?”

“A arte precisa sempre fazer a parte dela de forma natural, mas trazendo mais amor para a vida das pessoas, mais humanidade, menos intolerância.”

“Quanto mais a humanidade regride em diversos aspectos, mais sinto força e necessidade de falar de amor, de generosidade e amizade entre 
as pessoas.”
 
Como você avalia a trajetória do ex-futebolista que se transformou num dos maiores nomes do samba?
Parafraseando o Zeca Pagodinho, deixei a vida me levar. Desde os primeiros shows, a cada projeto, cada turnê, cada disco, sempre busquei fazer aquilo que eu acreditava, que tinha a ver comigo. Aos poucos o trabalho foi se consolidando e o público passou a me acompanhar cada vez mais. Eu me sinto um privilegiado por ter conquistado tantas coisas nesses 10 anos de carreira. Ganhei dois Grammy Latinos, já fiz mais de 40 shows no exterior e tenho um público muito fiel em todos os estados do Brasil. Só tenho a agradecer por isso e ter a certeza que estamos no caminho certo. Tudo que tenho devo ao samba.

Que momentos classifica como os mais importantes nesta primeira década de música?
Pensando de forma cronológica, posso citar o meu primeiro DVD, gravado no tradicional Teatro João Caetano, que me lançou para todo o Brasil. Depois recebo uma música inédita do Chico Buarque e do Ivan Lins, que gravei no meu segundo CD, que me deu o meu primeiro Grammy. Os quatro sambas-enredos que ganhei seguidamente na Portela também foram muito importantes para as pessoas me verem também como compositor. Minha ida a Cuba, onde gravei um DVD, foi outro momento muito especial. Fora isso, ter topado apresentar o programa Samba na Gamboa, na TV Brasil, e o musical Sambra, do qual participei como ator e cantor, foram ações que me projetaram de uma outra forma.

Ter o aval de artistas como Chico Buarque, Ivan Lins, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho representa o que para você?
Uma responsabilidade ainda maior. Tive a sorte de conviver com todos esses gênios desde pequeno, mas passei a ter uma relação profissional, nos palcos, após eu já ter iniciado a minha carreira e foram encontros naturais. O Chico me ligou do nada para dizer que tinha feito uma música com o Ivan Lins e que queria que eu gravasse. Quer presente maior que esse?

Ser parceiro de novos sambistas —  alguns da sua geração e ainda sem tanta visibilidade —  é uma maneira de apresentá-los ao grande público?
Com certeza. E isso foi um dos objetivos desse novo trabalho. Mas foi um processo natural, porque eles são os meus principais parceiros, os meus contemporâneos. Já tem tempo que venho fazendo músicas com o Inácio Rios, filho do grande Zé Catimba, além de gente da melhor qualidade como o Rodrigo Leite, Fred Camacho, Leandro Fab, Leandro Fregonesi, Bruno Barreto e Hamilton de Holanda.

Até que ponto o Samba na Gamboa contribuiu para a sua popularidade?
Hoje vejo como foi importante ter topado esse desafio de apresentar o Samba na Gamboa. O programa vai ao ar em rede nacional e até no exterior. Estar aparecendo semanalmente em uma tevê, em todo o Brasil, é algo sensacional, que só fez meu trabalho ficar ainda mais conhecido. Já tive situações de viajar para lugares distintos como o Piauí ou o Rio Grande do Sul e encontrar gente na rua que vem me dizer que toda semana me vê no Samba na Gamboa. Até o (Nicolás) Maduro, presidente da Venezuela, em um evento que esteve com a Beth Carvalho, falou para ele que assiste ao Samba na Gamboa. A tevê tem uma penetração que a gente nem imagina aonde chega, no interior, nas periferias, no povo.

Munduê, um disco totalmente autoral, que reúne músicas suas com parceiros diversos, pode ser visto como um marco na sua carreira?
Sim. E tive essa certeza quando ainda estava criando o disco. Aos poucos, escolhendo as músicas e depois gravando, entendi que esse disco seria um divisor de águas. Sempre tive meu lado de intérprete como uma marca principal e com esse disco pude ver o quanto devo deixar o meu lado compositor ter mais força na minha carreira. Fiquei muito feliz com o resultado do CD e com todas as críticas positivas que temos recebido.

Que falta faz Wilson das Neves, a quem dedica o CD, à música brasileira?
Wilson das Neves era um mestre não só do samba, mas da vida. Ele era um gentleman, um cara leve que trazia essa leveza por onde passava. Nos deixa este legado: de como podemos ser leves, bem-humorados e, ao mesmo tempo, fazer da arte algo muito sério, pois tudo que ele fazia tinha muita qualidade, seja como músico, cantor ou compositor. Vai fazer muita falta, e infelizmente, não consegui que ele gravasse no CD. Ele já tinha topado, mas a doença avançou muito rápido e ele faleceu antes de gravar. Por isso resolvi dedicar o Munduê a ele. Salve Wilson das Neves!

Como se situa no Brasil de hoje, em que à humanidade e à delicadeza, virtudes destacadas no Munduê, se sobrepõem a malquerença, o preconceito e a intolerância?
A arte precisa sempre fazer a parte dela de forma natural, mas trazendo mais amor para a vida das pessoas, mais humanidade, menos intolerância. Esse novo CD, que terá show de lançamento em breve em Brasília, traz isso de forma espontânea, mas intencional. Venho falando disso em meus trabalhos e parece que quanto mais a humanidade regride em diversos aspectos, mais sinto força e necessidade de falar de amor, de generosidade e amizade entre as pessoas. É preciso refletir, mas é preciso agir, e tenho tentado fazer isso do meu jeito, a cada trabalho.
 
 

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