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Correio Braziliense

Em novo trabalho, Marina Lima aborda política e igualdade de gênero

Vigésimo primeiro álbum da cantora, Novas famílias traz em oito faixas samba, funk, balada, pop, guarânia techno-brega e batidas eletrônicas


postado em 21/03/2018 07:30 / atualizado em 20/03/2018 18:48

(foto: Rogério Cavalcanti/Divulgação)
(foto: Rogério Cavalcanti/Divulgação)

Na capa de Novas famílias, disco que Marina Lima acaba de lançar, há uma foto em que ela usa um lenço como máscara. A cantora e compositora carioca, porém, não quer esconder nada. Ao contrário, escancara tudo na letra de músicas como Juntas, É sexy é gostoso, Só os coxinhas e na canção que dá título ao trabalho. Mas é em Mãe gentil  que se mostra mais explícita e enfática, ao afirmar num dos versos: “Quebrar pau/ Tudo errado nesse paisinho/ Pá de cal/ Numa gente escrota e mesquinha/ Que nos faz de bobo/ Pra que enganar o povo...?”.

Em contrapartida, vê algo de positivo, nos campos das relações interpessoais e das mudanças de costume, que faz despertar seu interesse pelo Brasil. E isso é destacado em Novas famílias, que abre o repertório. “...Céus, e essas novas famílias/ Com terras molhadas de amor/ Minando qualquer ditador”. E vai além ao escrever no encarte: “Nunca me senti tão envolvida com o Brasil. A força e o engajamento que tenho visto por aí não são brincadeira, e têm me dado um orgulho danado”.

Vigésimo primeiro álbum da cantora, Novas famílias traz em oito faixas samba, funk, balada, pop, guarânia techno-brega e batidas eletrônicas. A produção é de Marina e de três músicos da nova cena do pop nacional: Dustan Gallas, multi-instrumentista da banda cearense Cidadão Instigado, e Arthur Kunz, do Duo Strobo.

O sentimento agregador da cantora a fez trazer para esse projeto artistas de diferentes gerações e estilos. Se reaproximou do irmão e poeta Antônio Cícero de quem, até por razão geográfica, estava afastada. Com o agora imortal da Academia Brasileira de Letras, compôs o funk Só os coxinhas e Juntas — esta, uma ode ao entardecer de São Paulo, em contraponto ao pôr do sol do Rio de Janeiro, sua cidade natal. Da parceria com Dustan Gallas e o jovem compositor capixaba Silva, surgiu Do Mercosul; e com Arthur Kunz e Dustan Gallas fez É sexy, é gostoso, um autêntico techno-brega paraense.

Somente dela são Novas famílias e Árvores alheias, inspirada pelo poema Segue seu destino, de Ricardo Reis. Climática, de Klébi Nori e Gian Correa, é a única música que não tem a assinatura de Marina. Por sugestão de Renato Gonçalves, pesquisador ligado à Escola de Comunicação de Arte da Universidade de São Paulo e autor do texto de apresentação do CD, gravou pela primeira vez em estúdio o clássico Pra começar (outra parceria com Antônio Cícero), do LP Todas ao vivo, de 1986.
 
Entrevista Marina Lima
 
Quando o Outras famílias começou a ser concebido?
Comecei a trabalhar nesse projeto em 2015. Fui criando as coisas lentamente, até porque não tinha compromisso com data, nem com gravadora, pois se tratava de uma produção independente. À época, estava fazendo O osso, um show de voz e violão, que depois foi registrado em disco, aí já com a participação dos meninos do Duo Strobo, com quem me apresentei, em novembro último, em Brasília, naquele show pelo projeto Noite Cultural T-Bone. Aliás, fiquei emocionada pela acolhida que tive naquela apresentação, com milhares de pessoas fazendo coro para minhas músicas.


Você assina a produção desse novo álbum com o multi-instrumentista Dustan Gallas, da banda cearense Cidadão Instigado. Como o conheceu?
Foi uma indicação do Marcelo Jeneci, um querido amigo que conquistei em São Paulo. O Dustan é um músico talentosíssimo, que domina vários instrumentos e também é cantor. Além disso, ele nasceu em Paranaíba (PI), a terra natal do meu pai. Contei ainda com o Arthur Kunz, baterista do Strobo, que também é produtor.


O disco tem oito faixas, sendo sete inéditas. O repertório é complementado por duas regravações, sendo que uma delas entrou como bônus. A pluralidade de estilos que esse trabalho traz foi algo pensado desde o começo ou surgiu no decorrer do processo?
Não foi pré-determinado. As canções foram surgindo e tomando forma. Delas, oito têm a minha assinatura e foram compostas com parceiros diversos. Vai da balada ao technobrega, do funk ao samba, da guarânia à música eletrônica. Esse disco traz o registro do meu momento atual e é fruto da minha visão do Brasil de agora.


Título da faixa de abertura, Novas famílias dá nome ao CD. A ideia foi, mesmo subjetivamente, falar das novas famílias que vêm sendo constituídas?
Na letra dessa canção não falo disso de forma explícita, mas, ao escrevê-la, tinha em mente as novas famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, que conquistaram o direito à união estável e a tudo o que decorre disso. Novas famílias é uma guarânia que fiz pensando no Daniel, cantor de voz extraordinária e intérprete com sentimento.


O Novas famílias promove a retomada da parceria com o irmão e poeta Antônio Cícero. O que representa esse reencontro?
Com a morte dos nossos pais e do nosso outro irmão, da família Lima, só restaram o Cícero e eu. Como estou morando em São Paulo há oito anos, fisicamente nos distanciamos um pouco, até porque não tenho ido muito ao Rio. Quando tivemos um tempo para nos reencontrar, a parceria foi reativada e fizemos o samba Juntas e Só os coxinhas, nosso primeiro funk. Quis ridicularizar essa gente que só pensa em dinheiro a todo custo. É o primeiro single do disco e ganhou videoclipe, dirigido e concebido por Rogério Cavalcanti, Fujocka e School.


Nesse projeto você está cercada de novos nomes da cena pop nacional. Como se deu esse encontro?
Arthur Kuns e Leo Chermon, do duo Do Strobo, estão comigo desde o CD No Osso e são meus fieis escudeiros. Eles e o Duston Gallas vão me acompanhar na turnê do Novas famílias. O Silva, cantor e compositor capixaba, eu conhecia da versão dele para Marina no ar, uma música que Guilherme Arantes e Nelson Motta fizeram para mim. A gravação é linda. Fui apresentada ao Silva pelo jornalista Marcus Preto. Quando nos encontramos, ele fez um rascunho do que seriam o piano e as cordas de Mercosul, que levei inacabada para o Uruguai, onde passei um mês. A Letícia Novaes (do Letrux) veio ao meu convite para criarmos com o Arthur Kunz Mãe gentil. Quando ouvi o disco de Klébi Nori, logo me lembrei de Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e Zimbro Trio, no LP do show gravado ao vivo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que o meu pai adorava. Ao chegar à faixa Climática, fiquei louca com a brejeirice dela. Guardei a música e esperei o momento certo para gravá-la.
 
Qual é a sua avaliação sobre as eleições deste ano?
O que mais me incomoda no país é a desigualdade social. As pessoas estão sem educação, sem saúde, sem esperança. A política reacionária fomenta a miséria. Essa situação não pode perpetuar. Ainda quero acreditar em mudanças.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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