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Correio Braziliense

Brasileiro André Diniz adapta O idiota, clássico de Dostoiévski

O clássico do escritor russo será adaptado para os quadrinhos


postado em 21/03/2018 07:30

(foto: Fotos: André Diniz/Divulgação)
(foto: Fotos: André Diniz/Divulgação)



“Acho que uma adaptação só tem sentido se ela for uma obra com vida própria, que traga de fato uma experiência diferente da leitura da obra original”, afirma o quadrinista brasileiro André Diniz. E é exatamente isso que ele faz em O idiota, adaptação do clássico de Dostoiévski, que sai no início de abril pela Companhia das Letras.

“A história já foi contada por Dostoiévski e está acessível a todos, então, ler a HQ O idiota teria que ser uma outra leitura, pensando no que a linguagem dos quadrinhos tem a oferecer”, justifica André.

Por isso, o verborrágico texto do autor russo foi transformado em quadrinhos quase sem diálogos e textos, em que os desenhos são responsáveis por contar a história. “Com todos os desafios na mão, decidi radicalizar pelo caminho oposto do livro: uma HQ contada por imagens, com um mínimo de texto possível.”

Para André, simplesmente o fato de o livro se tratar de um romance escrito por um russo no século 19 e a HQ de uma história em quadrinhos feita por um brasileiro no século 21 já seria suficiente para não se considerar as duas versões uma mesma obra. “Parece óbvio quando dito assim, mas, até para o autor, é importante ter isso sempre às claras. A minha adaptação não é uma outra forma de ler o romance de Dostoiévski, seria até uma blasfêmia e um desrespeito com a obra original vê-la desta forma”, explica.

André decidiu adaptar o romance depois de uma série de leituras de Dostoiévski. Ele percebeu na história do príncipe humanista e epilético uma abordagem diferente de outros livros do autor russo. “Dostoiévski tratava em geral de personagens que mostram a sua sombra ao leitor e daí vem a nossa identificação, por mais duro que seja admitir. Quando li O idiota, deparei-me com um personagem oposto: um protagonista ingênuo e luminoso, mas ainda num mundo de personagens sombrios, e esse choque me arrebatou”, lembra.

Depois da leitura, André ficou decidido a adaptá-lo de alguma maneira, até porque não tinha conhecimento de outras releituras do clássico. “Crime e castigo já teve mil e uma adaptações, mas pesquisei por adaptações de O idiota pelo mundo e, até onde foi a minha pesquisa, não soube de nenhuma jamais feita, o que me estimulou ainda mais, mas também me mostrou o vespeiro em que eu estava me metendo.”

O processo

O trabalho com O idiota começou com o roteiro entre 2010 e 2011. Nos anos seguintes (entre 2012 e 2013), André desenhou mais de 100 páginas de uma versão inicial. “Mas a produção foi interrompida por conta de questões de saúde. Tive uma depressão crônica, mais caracterizada pela apatia e estafa do que propriamente pela melancolia, ironicamente num ótimo momento pessoal e profissional”, conta.

André só voltou ao livro em 2016, mas descartou tudo o que tinha feito. “Com três anos de distanciamento, as páginas que eu já tinha prontas não me agradavam mais. Decidi recomeçar quase do zero: reescrevi boa parte da história, joguei fora as mais de 100 páginas prontas e comecei tudo de novo, num outro estilo, e aí levei mais um ano até ter a HQ toda pronta.”

No processo de construir a HQ, André conta que precisou se desapegar do texto original e abrir espaço para a nova criação. “Eu precisava ignorar o fato de que a ideia original veio de outro autor. Até porque, para contar com imagens o que foi dito com palavras, as cenas tinham que ser repensadas por completo”, aponta.

“O mais importante foi ler e reler o livro, e, depois, esquecer do que eu li. Esquecer no sentido de me desapegar a ponto de poder recontar a história da minha forma”, completa. Só assim, explica, seria possível acreditar (mesmo que momentaneamente) que a história e os personagens eram realmente dele.

O idiota
André Diniz. Companhia das Letras. 424 páginas. R$ 59,90.
 
 
 
 
 
 
 


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