Publicidade

Correio Braziliense

Mulher globalizada em primeiro lugar, no novo longa de Tonie Marshall

Tonie Marshall, cineasta que deu largada feminina na premiação francesa do César, constrói novas possibilidades para as mulheres, em A número um, e fala ao Correio


postado em 22/03/2018 07:55

A diretora Tonie Marshall, junto com o estilista Jean-Paul Gaultier(foto: Internet/ Reprodução)
A diretora Tonie Marshall, junto com o estilista Jean-Paul Gaultier (foto: Internet/ Reprodução)


Há quase uma década, a diretora de cinema francesa Tonie Marshall teve a ideia de uma série para televisão que fosse protagonizada por mulheres. “Pensei em criar personagens que atuassem na indústria, na área executiva, nos esportes, no entretenimento. Algo deu errado. Não havia a disposição do investimento num produto como aquele”, relembra, ao Correio, a diretora, conhecida por obras com estrelas do porte de Catherine Deneuve e Nathalie Baye (com quem trabalhou seis vezes). Primeira cineasta a obter o César (considerado o Oscar francês) de melhor diretora e de melhor filme, pelo longa Instituto de Beleza Vênus (1999), aos atuais 66 anos, Tonie Marshall não se deu por vencida, por aquela derrota no programa de tevê e, ajustando a pretensão e o enredo, construiu o longa-metragem A número um, que estreia nos cinemas da cidade.
 
Com nome muitas vezes atribuído a homens (Tonie lembra que é homônima até de um cantor de ópera), a diretora focou a trama de A número um em globalizado universo de conglomerados e de CEOs, predominantemente masculino. “Mulheres são brilhantes e têm a força exigida, mas com palavras menos duras. No filme, conto com a atriz Emmanuelle Devos, na pele da executiva Emmanuelle Blachey. Não queria tê-la como uma protagonista que fosse uma matadora na função. O tom de Devos, na vida real, naturalmente é bem sereno. Mas, ela treinou boxe e, por três meses, foneticamente, decorou falas em chinês — algo extremamente difícil”, conta a diretora. O reconhecimento veio com uma indicação ao César de melhor atriz.
 
A cada roteiro, na França, Tonie Marshall conta que há luta para colocar produção em andamento. “A presença feminina na indústria de cinema, ainda que distante da realidade do meio a meio, traz algo na casa dos 28% reservados a mulheres. Mas o hiato de salários ainda persiste — é um fator global. Para o “recomeço” demarcado pelo drama A número um, em que mulheres influentes formam um pool com a finalidade de a protagonista alcançar sucesso profissional maior, a cineasta conta que entrevistou as grandes empresárias francesas de inúmeros ramos de atividade. “Elas nos deram dados para que o roteiro fosse incrementado”, observa.
 
Autora de filmes como Pouco católica (tradução livre para o longa de 1994), que competiu em Berlim, tratando do sucesso para uma detetive divorciada, e Sexo, amor e terapia (2014), em torno de casal dependente de sexo, Tonie Marshall celebra o incremento na visibilidade das mulheres. “Na França, estamos num período de teste, com um presidente algo desconhecido. Emmanuel Macron é jovem, tem construído uma plataforma positiva para as mulheres, encorajando atos feministas. Por enquanto ele, positivamente, parece se dedicar à arrumação da casa”, avalia a diretora.
 
Na esfera das artes, a cineasta admite ter sempre tido como inspiração a linha do cinema do icônico François Truffaut. “Desde Beijos roubados (1968), O homem que amava as mulheres (1977) e A sereia do Mississipi (1969) dava para notar que ele se importava com as personagens femininas. Acho, aliás, que se Truffaut estivesse entre nós, ele estaria se ocupando da força do empoderamento e se preparando para um novo filme”, arrisca. Atualmente, Tonie crê que muito escapa, na alçada das referências, mesmo entre os cinéfilos. Ela conta que, de foram “absolutamente inconsciente” trouxe cacoetes como o de trazer a sonoridade clássica de Gustav Mahler, antes aproveitada no eterno Morte em Veneza (1971). “Pesou o poder da música dele, independente do uso em trilha anterior”, argumenta.

Mundo canibal

Do cinema recente que gosta, a cineasta de A número um surpreende, ao apontar talentos como a jovem criadora de Grave, Julia Ducournau, que “ainda vai longe, com filmes como este, sobre canibalismo”. No cenário atual, Marshall observa com regozijo o momento de mudanças ligado à voz feminina. Entretanto, está atenta para erros na tal marcha. “Vi como uma reação equivocada aquela carta-aberta, na qual, entre centenas de mulheres, Catherine Deneuve se meteu. Acho que se buscava oposição ao segmento de mulheres abertamente contra os homens — algo aliás da qual tomaria parte. Mas a carta resultou em algo provocativo e oco, com uma má redação”, comenta.
 
Tratando de direitos trabalhistas com certa ênfase, em A número um, a artista francesa não se exime de estender discussões, num quadro que leva em conta equidade de gêneros. “Há homens que admiro e que, sim, são muito favoráveis às mulheres. Acho que vemos a chegada de uma geração de homens que pretende compartilhar a paternidade: escolhem ter crianças, manter uma organização na família. Mas, a equiparação virá quando, enquanto pais, eles puderem ter acesso a licenças, no trabalho, tão longas quanto as das mulheres”, defende.
 
O didatismo seria, pelo que avalia a diretora, um modo de tornar mulheres mais conscientes de direitos. Tonie conta que, aos 16 anos, não precisou ser feminista, pois, de certa fora, muitas outras já tinham feito algo por ela, ao discutirem coisas como o aborto. “As mulheres têm que entender que não podem ser agredidas, presas e estupradas. O movimento tem sido grande, mas vemos que há problemas em países com background muito arraigado em religião, caso da Índia. Levei tempo para me dar conta da necessidade da equiparação salarial, por exemplo. Havia a naturalidade nas antigas imposições”, conclui.
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade