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Correio Braziliense

MoMA descobre Tarsila do Amaral em exposição

A artista é tema de exposição no museu de Nova York


postado em 22/03/2018 07:30 / atualizado em 21/03/2018 18:21


O Abaporu faz parte da mostra no MoMA(foto: TIMOTHY A. CLARY)
O Abaporu faz parte da mostra no MoMA (foto: TIMOTHY A. CLARY)
 
Nova York — O Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) abriga, até 3 de junho, a exposição Tarsila do Amaral: Inventing modern art in Brazil. Trata-se da primeira mostra da artista nos Estados Unidos. Nascida no fim do século 19, filha de proprietários de plantações de café em Capivari (SP), coube a ela inaugurar um dos estilos mais representativos da arte brasileira. Fruto de colaboração entre o Museu de Arte Moderna (MoMA) e o Instituto de Arte de Chicago, a exposição relembra uma frase visionária de Tarsila em 1923: “Eu quero ser a pintora do meu país”.

Com mais de 100 obras oriundas de vários acervos, dentre desenhos de variadas fases, cadernos pessoais, fotografias, documentos históricos e pinturas, a mostra corrobora com as aspirações da artista. É motivo de orgulho que a exposição esteja instalada em uma galeria logo ao lado de onde se encontra o famoso quadro Gold Marilyn Monroe, de Andy Warhol, um verdadeiro ícone americano da cena artística de Nova York no século 20.

O visitante tem a oportunidade de conhecer não só o extenso e complexo trabalho de Tarsila, mas também a biografia da artista, e pode compreender por que seu trabalho foi impactante para o modernismo brasileiro. Com muito esmero, a exposição conta a trajetória de Tarsila desde seus estudos de escultura, piano e pintura até sua mudança para Paris, em 1920, onde estudou na Academia Julian, renomada instituição que serviu como polo para vários talentos internacionais, como Henri Matisse.

Fauna, flora e gente brasileira inspiraram Tarsila do Amaral(foto: TIMOTHY A. CLARY)
Fauna, flora e gente brasileira inspiraram Tarsila do Amaral (foto: TIMOTHY A. CLARY)


Tarsila conviveu com figuras como Fernand Léger e Pablo Picasso, foi iniciada no cubismo (corrente artística de raiz europeia conhecida pelo uso de formas geométricas para retratar a natureza) e, ao regressar para o Brasil, assimilou ideias modernistas. Mais tarde, coube a ela criar um estilo próprio,que teve como marco o Abaporu, inspiração para o Manifesto Antropófago e que também integra a exposição do MoMA.

O processo de “digestão simbólica” ou de um “canibalismo artístico” das influências externas é, aliás, evidenciado pelo Abaporu, que pertence ao acervo do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba). O quadro, de 1928, foi uma homenagem ao seu então marido, o poeta Oswald de Andrade, e retrata uma figura humana alongada e isolada próxima a um cacto e com o sol ao fundo.

Outros trabalhos presentes permitem conhecer o estilo da artista, caracterizado por paisagens vibrantes, sobretudo tropicais, representações humanas simbólicas e traços marcantes com uma frequente preocupação com a geometria e o alinhamento.

A curadoria cuidadosa permite acessar em um só lugar obras pertencentes a diversas coleções do Brasil e do mundo, o que evidencia a importância e abrangência do trabalho da artista. Um notável exemplo é Calmaria II (1929), do acervo artístico-cultural do Palácio do Governo de São Paulo, que retrata um experimento único e demonstra a amplitude da produção de Tarsila. A obra, que consiste em figuras geométricas em uma superfície líquida, alude diretamente ao estado de espírito do título do quadro. A Cuca (1924), pertencente ao Centro de Artes Plásticas de Paris, é uma das inúmeras obras que atesta o uso do folclore brasileiro como inspiração, tema caro à artista.


Está presente também uma série de gravuras, documentos sobre a Semana de Arte Moderna de São Paulo (1922), fotos e um diário de viagem que permite vislumbrar o caráter cosmopolita e ao mesmo tempo conectado às origens do pensamento e da produção de Tarsila.

É curioso presenciar visitantes do MoMA tentando “colar” suas imagens virtualmente por meio do uso de aplicativos aos variados tipos presentes no quadro Operários (1933). Produzida após a crise de 1929, em uma fase de maior engajamento social de Tarsila, a obra é um marco da atemporalidade de uma das grandes artistas do século 20.
 
Operários é uma das obras da fase social da pintora(foto: TIMOTHY A. CLARY)
Operários é uma das obras da fase social da pintora (foto: TIMOTHY A. CLARY)

 
Redescoberta do Brasil 
 
A exposição realizada no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) é a primeira inteiramente dedicada a Tarsila do Amaral nos Estados Unidos. Com curadoria do venezuelano Luiz Pérez-Oramas, que já esteve à frente da Bienal do Mercosul, e das americanas Stephanie d’Alessandro e Karen Grimson, do próprio MoMA, a exposição demonstra um interesse recorrente da instituição pelas vanguardas brasileiras. Já ganharam exposição no MoMA a neoconcretista Lygia Clark e a arquitetura modernista de Oscar Niemeyer.

Tarsila estudou na França, conheceu de perto os protagonistas das vanguardas europeias, frequentou os ateliês de Fernand Léger e André Lothe e, deste último, foi aluna. Dos modernos de lá, trouxe algumas das ideias que a nortearam para construir o que acreditava ser uma arte moderna brasileira. Foi aqui, em solo brasileiro, que ela colocou em prática o que viria a ser uma das produções mais significativas do  modernismo brasileiro.

A exuberância amazônica e tropical e os mitos brasileiros faziam parte de seu repertório da fase pau-brasil. Foi um momento em que a artista redescobriu o país, após voltar da Europa, durante uma viagem ao lado do poeta suíço Blaise Cendrars e dos modernistas brasileiros.

Mais tarde, Tarsila realizaria uma viagem à então União Soviética (URSS), de onde voltaria com a cabeça cheia de urgências que a fariam mergulhar na crítica social. O olhar questionador para um país ainda um tanto rural, em vias de urbanização e industrialização, especialmente na região de São Paulo, se fez notar em quadros como Operários e Segunda classe. A artista chegou, inclusive, a realizar exposição em Moscou e a participar de reuniões do Partido Comunista.

Os anos 1920 e 1930 viram o auge da produção da artista, que na década seguinte passaria a copiar o próprio estilo. Tarsila do Amaral foi símbolo do modernismo brasileiro, mas nunca chegou a participar da Semana de Arte Moderna de 1922. Foi Anita Malfati a estrela da pintura apresentada durante o evento capitaneado por Mario de Andrade e que ocupou o Teatro Municipal de São Paulo. Tarsila, na verdade, só viria a expor no Brasil pela primeira vez em 1929, um ano fatídico para sua família, que perdeu tudo após a crise que derrubou a bolsa de Nova York. 

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