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Correio Braziliense

Confira entrevista com Milton Nascimento, que se apresenta hoje na cidade

Ao Correio, cantor e compositor fala sobre a carreira e o show 'Semente da Terra', em que apresenta um repertório cheio de clássicos como 'Milagre dos peixes', 'Cio da terra' e 'Caçador de mim'


postado em 25/03/2018 06:10

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 
 
Numa cerimônia realizada há sete anos, em Campo Grande (MS), que reuniu 37 lideranças espirituais da nação guarani kaiowá, Milton Nascimento recebeu o nome de Ava Nhey Pyru Yvy Renhoi, ou Semente da Terra. A homenagem, concedida a pouquíssimas pessoas nascidas fora da tribo, surgiu a partir da percepção que os caciques e pajés tiveram ao olhar uma foto do cantor.

Nenhuma das lideranças jamais tinha ouvido falar dele antes do evento. Depois de uma reunião fechada de duas horas, eles subiram ao palco e fizeram o batismo, durante apresentação de Milton para sul-mato-grossenses, comunidades locais e várias etnias indígenas.

Em 2017, ao retomar o encontro direto com o público, após um ano de período sabático, Bituca —  como o artista carioca é chamado pelos amigos — escolheu Semente da Terra para dar nome ao espetáculo, que estreou no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Depois de sair em turnê pelo país, o show chega finalmente a Brasília e ocupa o palco do auditório máster do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, hoje, às 19h.

O encontro com os representantes das nações indígenas é um dos muitos ligados às causas sociais que têm ocorrido ao longo dos mais de 50 anos de carreira do artista. Milton ganhou fama nacional quando se classificou em segundo lugar do Festival Internacional da Canção, em 1968. Desde então, ele militou ao lado de grupos ambientais, e chamou a atenção para a situação dos índios (Txai), dos negros (Missa do Quilombo), trabalhadores sem-terra (Levantados do chão), mulheres (Pietá) e crianças (Ser Minas tão Gerais).

No decorrer de sua festejada trajetória, Bituca tem sido agraciado com diversos prêmios e condecorações. Entre os quais, cinco estatuetas do Grammy (a mais importante foi a Best world music album, em 1997), o Rain Forest (considerado o Nobel da Ecologia) e os títulos de doutor honoris causa, concedida pela Universidade Federal de Minas Gerais e pela Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos.

Semente da Terra, o show, tem direção artística de Danilo Nuha e direção musical do guitarrista e violonista Wilson Lopes — ele está à frente da banda formada por Beto Lopes (violões), Alexandre Ito (baixo), Lincoln Cheib (bateria), Kiko Continentino (piano), Widor Santiago (sopros) e Barbara Barcellos (backing vocal).

As canções
Abrangente, o repertório reúne canções que marcaram diferentes fases da obra do cantor e, na maioria das músicas que Milton Nascimento vai interpretar, ele tem como parceiro Fernando Brant, a exemplo de Coração civil, Milagre dos peixes, San Vicente, Sentinela. Mas há as que ele fez com Ronaldo Bastos, como Cravo e canela e Nada será como antes; com Chico Buarque, Cio da terra e O que será?; com Caetano Veloso, Terceira margem do rio; e com Lô e Márcio Borges, Clube da Esquina 2. A elas se juntam três músicas alheias: Caçador de mim (Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá), Me deixa em paz (Monsueto e AirtonAmorim) e Sueño com serpientes, do cubano Sílvio Rodrigues.

Semente da Terra
Show de Milton Nascimento e banda, dirigido por Danilo Nuha, hoje, às 19h, no auditório master do Centro e Convenções Ulysses Guimarães. Ingressos: R$ 100 (poltrona superior), R$ 140 (poltrona especial B), R$ 170 (poltrona especial A), R$ 180 (poltrona vip lateral), R$ 270 (poltrona vip), R$ 2000 (sofá de quatro lugares e mesa de centro e bebidas) — valores referentes a meia entrada. Assinantes do Correio têm desconto de 50% sobre ingresso de inteira na compra de até quatro ingressos. Pontos de venda: Brasília Shopping (2º subsolo), Conjunto Nacional (2º piso) e Pátio Brasil (3º piso). Não recomendado para menores de 12 anos. Informações: 3248-5221 e 3264-2694



Entrevista
Milton Nascimento

Além do fato de ter recebido da comunidade indígena o codinome de Semente da Terra, o que o levou a utilizá-lo como título deste show?
Achei que fosse o momento certo pra falar disso. A experiência com os índios guarani-kaiowá foi uma coisa muito importante pra minha vida, e eu quis dividir isso com as pessoas.

De que forma sua militância em diversas causas sociais vai poder ser percebida no roteiro do espetáculo?
Desde o começo do projeto, da escolha de repertório, da produção e etc, nós queríamos um pouco de tudo, mas sempre nesse sentido. Até que, depois de ouvir sugestões de toda a equipe, chegamos nesse formato atual. E quem for ao nosso show vai poder sentir isso da primeira até a última música.

A escolha do repertório, no qual predominam canções que são marcantes em sua obra, tem a ver com o conceito desse trabalho?
Pode ser que sim, tanto que estão neste show desde Travessia e Canção do sal, que fazem parte do meu primeiro disco, passando por Milagre dos peixes e Nada será como antes (anos 1970), até coisas do tempo das apresentações em ginásios, das Diretas Já, e por aí vai. São músicas como Encontros e despedidas, Coração de estudante, Caçador de mim e, claro, Maria, Maria.

Na trajetória de mais de 50 anos no universo da música popular brasileira, que momento vê como de maior importância?
Eu costumo dizer que tenho carinho por todas as fases da minha vida. Assim também como eu gosto de todos os meus discos, de todas as gravações e dos vários projetos de que participei. Mas, ao mesmo tempo, eu considero muito importante as coisas que estou vivendo agora, como minha mudança para Juiz de Fora (MG), essa turnê, além de muitas outras coisas que ainda estão por vir.

O que o levou a radicar-se em Juiz de Fora, deixando de lado Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, cidades onde permaneceu por mais tempo?
Meu filho, Augusto Kesrouani Nascimento, foi ele o motivo de eu ter escolhido Juiz de Fora. Ele estudava direito na cidade e tinha que vir várias vezes ao Rio para me visitar, então, a gente decidiu morar junto para facilitar as coisas tanto pra mim quanto pra ele. E foi a melhor escolha que eu fiz. Hoje em dia, ele já está formado e passou a trabalhar como meu empresário. Por causa disso, posso te dizer sem medo nenhum de que eu nunca fui tão feliz numa cidade como estou agora.

Que lembranças guarda do Clube Esquina, mítica entidade que o teve como principal pilar?
Os dois discos do Clube da Esquina são muito lembrados até hoje. E isso me deixa muito feliz. Saber que o pessoal do mundo todo se interessa por eles de uma forma tão forte é um lance que me emociona demais. São tantas lembranças que é impossível descrever.

Sempre disposto a abrir espaço para novos talentos musicais, quem você vê com um grande potencial na cena da MPB atualmente?
O Brasil revela gente boa todo dia. Você liga a tevê, ouve no rádio... E sempre tem alguém surpreendendo... E, enquanto eu estiver cantando, sempre vou abrir espaço pra essa juventude. Mas isso que você falou não acontece somente na música. Hoje tem brasileiro se destacando em áreas que a gente nem imagina. A gente só precisa de mais carinho na formação de nossos jovens, e deixe que eles fazem o resto.

Você que pertence a uma geração de grandes talentos da música  brasileira, que avaliação faz do momento atual da MPB?
Tem tanta gente boa por aí, que o momento do Brasil na música é sempre bom. Toda hora surge alguém. O pessoal que tá vindo agora é uma coisa impressionante, tanto os instrumentistas quanto os cantores, os compositores, e também os produtores... Essa rapaziada tá demais.

Que reflexão você tira da crise por que passa o país nos segmentos político, social e econômico?
Triste. Essa é a única palavra que me vem à cabeça. Só que, ao mesmo tempo, a gente precisa ter esperança, senão, é aí que a coisa desanda de vez.

Que expectativa forma em relação às eleições de 2018, nos diversos níveis?
Gostaria que a coisa toda fosse respeitada para que nós tenhamos uma eleição justa. Bom senso e respeito, é isso o que a gente quer. 



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