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Correio Braziliense

Literatura nacional ainda sofre com pouca representatividade feminina

Três autoras contemporâneas comentam o baixo índice de presença das mulheres no mercado brasileiro


postado em 25/03/2018 06:15 / atualizado em 24/03/2018 18:59

Giovana Madalosso sentiu preconceito ao lançar o primeiro livro, A teta nacional(foto: Renato Parada/Divulgação)
Giovana Madalosso sentiu preconceito ao lançar o primeiro livro, A teta nacional (foto: Renato Parada/Divulgação)
 
 
A literatura brasileira que chega às grandes editoras é, predominantemente, masculina. Segundo pesquisa realizada pela Universidade de Brasília, nas últimas quatro décadas, 70% do que foi publicado no Brasil estava assinado por homens. É um número que reflete cenário no qual as vozes femininas nem sempre encontram eco.

Em uma pesquisa rápida no site de seis grandes editoras brasileiras, há pouquíssimas autoras contemporâneas brasileiras nas listas de novidades nestes três primeiros meses de 2018. Entre os 16 lançamentos listados na página da Companhia das Letras, apenas três são de brasileiras contemporâneas. Esse número cai para um entre os quatro lançamentos da Todavia, entre os 11 da Intrínseca e entre os 12 da Record. No caso da Rocco e da Alfaguara, o número é zero. Giovana Madalosso, Carol Bensimon e Ana Paula Maia são algumas exceções. Elas têm escritas muito diferentes, acabaram de publicar romances e observam com olhar crítico a desigualdade de gênero na literatura.

Giovana acaba de lançar Tudo pode ser roubado, romance de escrita rápida e muito imagética sobre uma garçonete paulistana que se envolve com clientes para poder roubá-los e revender objetos de grife a uma amiga trans, dona de brechó chique. É uma narrativa sobre as relações nas megalópoles, a solidão e as dificuldades de relacionamento contadas em ritmo cinematográfico, com estilo herdado da redação publicitária e do interesse por uma literatura construída em cima de imagens.

Para a autora, nascida em Curitiba e radicada em São Paulo há 18 anos, a desigualdade de gênero encontra reflexo na literatura por três razões. Uma delas é a pouca divulgação das autoras, especialmente as que publicam em editoras menores, e outra está ligada ao fato de que as mulheres escrevem menos porque têm menos tempo devido à sobrecarga das tarefas domésticas.
 
Carol Bensimon: 'Existe toda uma desigualdade histórica na literatura e isso meio que só começa a ser corrigido agora'(foto: Leve Holthausen/Divulgação)
Carol Bensimon: 'Existe toda uma desigualdade histórica na literatura e isso meio que só começa a ser corrigido agora' (foto: Leve Holthausen/Divulgação)
 
 
Opinião própria

“E o terceiro aspecto, muito relevante e que ninguém fala, é a questão da voz na infância. As meninas são desincentivadas em várias coisas, inclusive no sentido da validação da voz da mulher para ter opinião própria. Essa ‘não validação’ faz com que as meninas não acreditem na opinião delas e não escrevam. E, para ser um escritor, a premissa básica é acreditar que você tem algo significativo para ser dito. Essa validação da voz não acontece muito na infância”, lamenta.

Quando lançou o primeiro livro, A teta racional, uma reunião de contos que exploram a ambiguidade dos papéis femininos e as relações familiares, Giovana sentiu o preconceito. Ela acabava de se tornar mãe e muitos dos contos eram reflexões sobre a experiência. As editoras recusaram com a justificativa de que o tema era chato e não interessava a ninguém. “Para gente que vive isso é superinteressante. E é maravilhoso a gente poder se relacionar com nossos problemas por meio da literatura. Hoje isso está mudando, porque quem pensa assim, pelo menos, está ficando quieto agora”, diz a autora, que percebeu, há alguns anos, ter lido muito mais autores homens que mulheres. “Fiquei assustada, porque minhas referências eram todas de homens. E tive que fazer um esforço: parei para ir atrás de mulheres. Isso acontece porque temos uma maioria de homens e fomos educadas lendo homens”, repara.

Autora de três romances e um livro de novelas, a gaúcha Carol Bensimon acredita que há um ceifamento na origem quando se trata de literatura feminina. As meninas não são incentivadas e o potencial da escrita não é desenvolvido. “Sinceramente, não acredito que as mulheres estejam sendo mais cortadas que os homens quando chega lá o manuscrito numa grande editora. Mas acredito que menos mulheres submetam seus manuscritos, comparadas a homens, porque existe toda uma desigualdade histórica na literatura, e isso meio que só começa a ser corrigido agora”, diz.

Depois de Sinuca embaixo d’água, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e do Jabuti, e de Todos nós adorávamos caubóis (2013), ela está de volta com O clube dos jardineiros da fumaça, romance geracional escrito durante estadia nos Estados Unidos. A narrativa acompanha a trajetória de Artur, professor brasileiro que troca Porto Alegre pela região californiana do Triângulo Esmeralda, conhecida pela enorme produção de maconha e pela alta concentração de ex-hippies.
 
Ana Paula Maia está acostumada a escrever sobre o universo masculino(foto: Rodolfo Buhrer/Divulgação)
Ana Paula Maia está acostumada a escrever sobre o universo masculino (foto: Rodolfo Buhrer/Divulgação)
 
 
Universo masculino

A carioca Ana Paula Maia, cujo sétimo romance acaba de chegar às livrarias, confessa que nunca pensou muito na questão das mulheres na literatura. Acostumada a escrever sobre um universo muito masculino e com um personagem recorrente, o matador Edgar Wilson, ela percebe, no entanto, que há realmente menos vozes femininas nos eventos para os quais é convidada.

“Geralmente, as mulheres são mais mediadoras da mesa”, aponta. “É muito difícil dizer por que as editoras publicam mais homens que mulheres, se é porque há menos interesse, ou porque se as mulheres escrevem menos, ou se o conteúdo produzido por mulheres não interessa tanto aos editores, eu não sei. Acho que tem muitos caminhos e vertentes.”

Em Enterre seus mortos, o novo romance de Ana Paula, Edgar Wilson vive um triturador de corpos de animais encontrados mortos em rodovias e seus arredores. A brutalidade paira sobre as ações do personagem, mas não o define por completo. Sempre há uma certa ética no comportamento de Edgar Wilson, um senso de justiça muito particular, e que impede o leitor de antipatizar com o protagonista. 

A narrativa seca é inevitável nesse universo. Reflexão e verborragia nada têm a ver com os personagens e soariam um tanto falsas caso Ana Paula enveredasse por elas, como fez nos dois primeiros romances. Escrever sobre homens, ela também acredita, às vezes causa problemas. “É um desafio”, explica. “Não escrever sobre o universo masculino, mas a relação com outras escritoras, na maioria dos casos, não é muito positiva, não é muito boa. É velado, ninguém fala, mas eu sinto que há um problema em mesas de bate papo que têm eu e mais duas. E é sempre a questão da temática.” Ela avalia que a ausência de personagens femininas incomoda e provoca questionamentos.
 

Tudo pode ser roubado
De Giovana Madalosso. Todavia, 192 páginas. R$ 49,90
 
 
O clube dos jardineiros da fumaça
De Carol Bensimon. Companhia das Letras, 364 páginas. R$ 49,90
 

 

Enterre seus mortosDe Ana Paula Maia. Companhia das Letras, 132 páginas. R$ 23,90

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