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Correio Braziliense

Diretora Isabel Coixet inflama o poder transformador da prosa literária

O longa premiado A livraria foi adaptado de livro assinado por Penelope Fitzgerald,


postado em 26/03/2018 07:30 / atualizado em 26/03/2018 09:19

Longa A livraria revive a literatura de Penelope Fitzgerald(foto: Reprodução/Internet.)
Longa A livraria revive a literatura de Penelope Fitzgerald (foto: Reprodução/Internet.)
 
Numa passada de olho pelos filmes em cartaz na cidade é muito fácil constatar a influência direta da literatura em títulos de sucesso como Operação Red Sparrow, Cinquenta tons de cinza, O touro Ferdinando, o recém-lançado A odisseia e o premiado A livraria.

Famoso pela autoria de ficções científicas como Farenheit 451 e Crônicas marcianas, o autor Ray Bradbury, junto com a incendiária literatura de Vladimir Nabokov (Lolita), se espalha pela trama de A livraria. Algo do mundo surreal narrado por ele habita o enredo de A livraria, o filme de Isabel Coixet que traz enorme visibilidade para o reconhecimento de expoentes femininos. Além de ter sido considerada a melhor diretora no Goya (mais importante prêmio do cinema espanhol), Isabel faturou o troféu de melhor filme e ainda fez ressurgir a atenção em cima da escritora inglesa Penelope Fitzgerald, morta há 18 anos. 

Uma das primeiras estudantes da prestigiosa Oxford, Penelope Fitzgerald conquistou, com A livraria, o Man Booker Prize, quase aos 60 anos. Alinhada no grupo de “maiores escritores do pós-guerra”, pelo jornal The Times, Fitzgerald ingressava apenas no terceiro ano de publicações quando gestou a trama. Apr.esentado, mês passado, no Festival de Berlim, A livraria integra, com entusiasmo, artes dos livros e dos filmes. Chamativa, a direção de fotografia de Jean-Claude Larrieu (que trabalhou com Almodóvar, em Julieta), é impecável e traz imagens que nos transportam para outra era.

O filme de Isabel Coixet projeta uma pequena cidade inglesa rudimentar, quase nos anos de 1960. Entre a umidade das paredes porosas da abandonada edificação conhecida como Old House, a protagonista Florence Green (Emily Mortimer) suplanta a viuvez, com as qualidades da doçura e do idealismo. Traços que combinam com Isabel Coixet, pelo que ela mesma assume. No enredo, o teor da transformação, por meio da leitura, se prova perene, mesmo que, para se estabelecer, em meio à sociedade pequena e de valores baratos, Florence tenha que espernear.
 
No livro de Penelope Fitzgerald, estão patentes elementos como o status imperioso na era dos nossos bisavôs, o uso das galochas e a existência de pessoas reclusas e amarguradas. Numa rotina que trazia à porta de casa, leiteiros, carteiros e afins — ao lado de usos antiquados, como o chá em bule de prata —, o senhor Brundish (Bill Nighy) será um agente de conforto para a árdua tentativa de Florence Green implementar maior cultura para os moradores de Hardborough.
 
 
 
De Fitzgerald a Bishop

“Um bom livro é a preciosa destilação do espírito de seu mestre, embalsamado e preservado pelo propósito de atingir a vida além da vida.” Assim a personagem Florence argumenta, em A livraria, em favor de Lolita, respondendo aos que queriam vetar a venda do “livro banal e sensacionalista de Nabokov”. Essa não foi a única — nem a última — batalha da protagonista do filme de Isabel Coixet, em cartaz, cuja ousadia foi querer montar o seu próprio negócio de venda de livros na cidadezinha inglesa de Hardborough.

“Acho que Nabokov era um enorme escritor e acho que, como autores, temos que falar de tudo que diz respeito à natureza humana. Temos a obrigação de tocar em todos os temas e oferecer um reflexo da natureza humana, na qual há coisas horríveis e também ambíguas. Muitas vezes, no meio desse debate, nos vemos sem saber o que de fato pensamos”, afirma a diretora, que adaptou a obra homônima de Penelope Fitzgerald. Aos 57 anos, Isabel Coixet é muito conhecida por obras anteriores, como A vida secreta das palavras e Minha vida sem mim, títulos literários recriados para a telona.

Que aspecto do livro de Penelope Fitzgerald fez com que você tivesse vontade de filmá-lo?
Eu gostava especialmente do fato de ser uma livraria o ponto central da trama porque sempre sonhei em ter uma livraria. Outra coisa que gostei no romance foi a simplicidade, esse sentido de coragem que tem a personagem de Florence Green. Isso me atraiu muito.

Embora a coragem seja um tema de destaque em seu filme e haja clareza da base no romance A livraria, há tratamento que nos remete ao poema 
A arte de perder... 
“A arte de perder não é nenhum mistério/Tantas coisas contêm em si o acidente/De perdê-las, que perder não é nada sério.” Conheço muito esse poema de Elizabeth Bishop e pensei muito nele antes das filmagens. Para mim, esse poema tem muito significado. Vivemos nessa cultura do sucesso, mas, na realidade, o sucesso não é nada. O sucesso, no final, é ter um sonho no qual você acredita. O fato de ter um sonho que possa ser realizado, para mim, já é um sucesso, independentemente do que ocorra. Questiono muito a maneira como se define o sucesso e o fracasso.

Você afirmou que “atingir a simplicidade é algo muito complexo, assim como retratar boas pessoas”. Como fez para conseguir isso?
No cinema, estamos acostumados aos papéis dos vilões. De alguma forma, o retrato dos maus se tornou muito mais vistoso e mais fácil. Para mim, esse personagem (a dona da livraria, Florence Green) é também uma forma de reivindicar o valor das autênticas boas pessoas. Porque as autênticas boas pessoas não são as que se dizem boas, mas sim as que, com suas atitudes, nos mostram o que é a bondade e o que é a maldade. É preciso julgar as pessoas pelo que elas fazem, não pelo que dizem. 

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