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Correio Braziliense

Steven Spielberg volta ao estilo, com Jogador número 1, recheado de ação

Nostalgia e referências pop estão na ordem do dia da ficção Jogador número 1, a mais recente aventura de Spielberg


postado em 29/03/2018 07:52 / atualizado em 28/03/2018 19:51

 
Um futuro decadente coloca os humanos em profundo contato com a realidade virtual(foto: Warner / Divulgação)
Um futuro decadente coloca os humanos em profundo contato com a realidade virtual (foto: Warner / Divulgação)
 

O primeiro dos contatos entre um futuro criador dos blockbusters, Steven Spielberg, e os jogos de videogame parece dos mais modestos: em 1974, enquanto geria a mega aventura Tubarão, aos 28 anos, o promissor norte-americano se divertia com o incipiente Pong, um jogo instalado em locais públicos, movido à base de moedas. Mais de 40 anos depois daquelas investidas, o mundo é outro: com quatro prêmios Oscar na mão (dois deles, como melhor diretor), o cineasta contribui com um novo salto para o futuro da sétima arte, na adaptação de livro criado por Ernest Cline, e que mostra um mundo futurista movido na base da graça virtual.

Dono da comunicação universal com a plateia, Spielberg não segreda que coloca a nova produção como a terceira mais difícil da carreira, atrás apenas de O resgate do soldado Ryan (1999) e de Tubarão (1975). Elementares na vida de todo e qualquer consumidor de cultura nos anos 1970 e 1980, objetos como a Millennium Falcon e cubos mágicos e personagens da estatura de Chucky e Alien se alastram na trama de Jogador nº 1.

A capital Columbus, do estado natal de Spielberg e de Cline, Ohio, sedia parte pequena do enredo. Isso porque a maior parte dos personagens de Jogador nº 1 interage num plano fictício — plataforma dos jogos nos quais literalmente vivem. Nessa perspectiva, personagens reais, com vidas bem mais ou menos, ganham uma visibilidade incrível, ditando futuro mais glorioso, ao comandarem avatares de si, em atmosfera que não é palpável.
 
 

Verdadeiro guru para a nova era da humanidade, em que muitos vivem em aglomerados pobres de recursos, mas dominados por comodidades virtuais (não há quem não tenha seu jogo como forma de escapar da realidade), Halliday, como todo e qualquer ser humano, morre. Antes, porém, ele lança um desafio para os viventes da era cinza cravada em ambiente marginalizado: ao melhor estilo Quem quer ser um milionário?, Halliday dará sua herança — nada menos do que o comando do poderio virtual — a quem decifrar três elaborados enigmas que ele propõe.

Em um universo em que o corpo real e o rosto de cada ser humano podem ser modificados e artefatos falsos estão à disposição, a interação das pessoas parece deslocada. “Você vive dentro de uma ilusão”, aliás, é uma das frases ouvidas pelo protagonista, o garotão Wade (interpretado por Tye Sheridan, de Amor bandido). Num campo de abstração completa, ele é um dos mais fortes candidatos à fortuna de Halliday. No mundo de 2045, em que “pessoas não resolvem problemas, mas aprendem a sobreviver a eles” (como destaca enunciado do longa), o personagem de Tye terá como companheiros os tipos criados por Olivia Cooke (Eu, você e a garota que vai morrer), Lena Waithe (corroteirista de Master of none), o estreante Philip Zhao e Win Morisaki, ator nascido na Birmânia, entre outros.


Multifacetados

Todos os personagens complicam o meio de campo, já que podem escolher quem querem ser, no plano virtual — ambiente intercalado com a realidade, ao longo da história. Daí, assumirem novos nomes e personalidades moldadas a serviço da disputa ou mesmo para mera distração. Entre trapaças, beijos roubados, regras de controle contra “violações no ambiente de trabalho” e a ameaça de uma corporação comandada pelo magnata Sorrento, o empoderamento feminino também está patente, em Jogador nº 1, habitado por personagens batalhadores como Samantha (Olivia Cooke) e F´nale (Hannah John-Kamen), uma vilã de ocasião.

Traços de rebeldia e caçada a easter egg (algo escondido, a ser pescado, na cultura pop) estão no centro de Jogador nº 1, com roteiro adaptado por Ernest Cline e Zak Penn (de O incrível Hulk e muitos X-Men). Contudo, na nova aventura de Spielberg, que, passada quase uma década, retoma o gênero, as citações e as referências fazem a festa. De Duran Duran ao mundo de zumbis, passando pelos cinematográficos Cidadão Kane, De volta para o futuro e criações de Stanley Kubrick, nada escapa à prodigiosa memorabilia de Spielberg. Um bálsamo ver tanta deferência a Lex Luthor, George Michael, Mechagodzilla e afins.
 
Decidido a comunicar  
 
Foram três anos de pesados investimentos, e, dado o esforço para a produção de Jogador nº 1, o diretor Steven Spielberg assume que, agora sim, pode estar em pé de igualdade dos colegas Peter Jackson (O senhor dos anéis) e James Cameron (Avatar). A modéstia do homem que (contabilizadas apenas cinco de suas produções) rendeu lucros da ordem dos US$ 3,5 bilhões fica ainda mais divertida quando ele enfatiza que seu filme trata do embate entre o “bem e a ganância”. Na fita que adapta a literatura de Ernest Cline, um conglomerado comandado por Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn, de Reino animal) ameaça a tranquilidade dos prazeres de uma civilização entregue aos estímulos da realidade virtual.

Ao jornal USA Today, recentemente, o diretor que andou dando uma passeada na seriedade, à frente do longa The Post — A guerra secreta, assume que se diverte com o escapismo da realidade virtual. Spielberg até conversa com o universo de Rita Lee, no plano do faz de conta: gosta mesmo, textualmente, é de estar “entre os anéis de Saturno”, quando usa os óculos de alteração da realidade, explorando planetas e estrelas. A criação de Jogador nº 1 trouxe ao mestre do entretenimento a ambição de realmente “encher a tela”, como destacou para a imprensa internacional.


Recriar “um universo virtual completo” para tratar das aventuras do quinteto de jovens protagonistas de Jogador nº 1 foi algo pretendido para o cineasta que, com um amontoado de celebrações cinematográficas, sabe agradar à velha guarda, alimentada pelos sucessos do mesmo produtor de Os goonies e De volta para o futuro, ambos de 1985.

Spielberg diz que fez o novo filme para que os cinéfilos de sentissem bem. “Me senti como parte da plateia; dirigindo com a colaboração do público que (imaginariamente) deu diretrizes quanto ao conteúdo e às necessidades”, declarou para os jornalistas estrangeiros. Na viagem proposta pelo diretor, a visão periférica é fundamental: o mestre assume ter recheado “janelas laterais” da jornada com referências culturais. Mas, mesmo que passem despercebidas, ele alerta que, sim, é possível escolher uma reta (sem as distrações) como meta. Afinal, o objetivo supremo é o da diversão — sem maiores compromissos.

Outras estreias 
 
Zama
• De Lucrecia Martel. Com Daniel Giménez Cacho e Matheus Nachtergaele.
 
 
 
Deixe a luz do sol entrar
• De Clair Denis. Com Juliette Binoche e Gérard Depardieu. 

Górgona
• Documentário de Pedro Jezler e Fábio Furtado. Com Maria Alice Vergueiro. 

Árvores vermelhas
• Documentário de Marina Willer
 
 

Uma dobra no tempo
• De Ava DuVernay. Com Oprah Winfrey e Resee Witherspoon. 

Nada a perder — Contra tudo. Por todos
• De Alexandre Avancini. Com Petrônio Gontijo e Beth Goulart. 
 
Madame
• De Amanda Sthers. Com Rossy De Palma e Toni Colette. 

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