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Correio Braziliense

Confira entrevista com o jornalista e escritor José Trajano

Ele lança Os Beneditinos, que encerra a trilogia em que conta suas memórias de maneira romanceada. Em conversa com o Correio, ele fala, entre outros assuntos, sobre futebol, política e do que sente saudade


postado em 31/03/2018 06:40

José Trajano foi fundador e diretor do canal de esportes ESPN Brasil, onde trabalhou por 21 anos(foto: Pablo Saborido/Divulgação)
José Trajano foi fundador e diretor do canal de esportes ESPN Brasil, onde trabalhou por 21 anos (foto: Pablo Saborido/Divulgação)
 

 

José Trajano é um saudosista assumido. O jornalista e escritor sente saudade especialmente do Rio de Janeiro, da Tijuca, bairro em que viveu durante a infância e a juventude. Os tempos áureos do América, então... Esses fazem Trajano soltar um longo suspiro. É a nostalgia que dá o tom de Os Beneditinos, livro que encerra uma trilogia com suas memórias romanceadas, que incluem Procurando Mônica e Tijucamérica. Nesse lançamento, José Trajano, que atualmente mora em São Paulo, conta a história de um homem que pretende reunir os antigos amigos do time de futebol da escola para uma revanche contra o principal adversário da época em uma partida de walking football — modalidade criada na Inglaterra e que consiste em uma partida de futebol em que só se pode jogar andando. Em entrevista ao Correio, o jornalista fala sobre política, futebol, internet e, claro, das saudades que sente.


No início do livro, você conta como o personagem está triste e deprimido; e alguns amigos chegaram a ficar preocupados e a ligar para você. Como foi isso?
No primeiro capítulo, sou eu e não sou eu, é o personagem. Então eu coloquei o personagem bem pra baixo, mas com muitas pinceladas minhas. Tinha uma coisa minha ali. Que eu estou deprimido, desempregado, saí do apartamento em que eu morava na Mooca, daquele apartamento pequenininho, sozinho. Não acontece nada na vida e o país está uma merda. Então, tem amigo meu que leu só o primeiro capítulo e me ligou, preocupado: “Você tá perdido, tá deprimido, tá precisando de dinheiro, o quê que houve?”. Eu digo: “Não, lê o segundo capítulo que você vai entender melhor”. Encontrei gente que perguntou se eu estou doente ou se eu estou mal.

Então, para deixar bem claro, você está bem de saúde e de dinheiro, está tudo certo.

Não, de dinheiro, eu não estou, mas não estou na merda (risos). Estou me virando com muitas coisas pra poder me sustentar. Eu faço um programa na TVT (TV dos Trabalhadores) de segunda a sexta aqui da minha casa. Tá indo bem. Esse programa entra em cadeia com a Rádio Brasil atual. Fiz um no Canal Brasil, Bonde do Zé, que estreou domingo e são 13 programas. Estou lançando livro, então é aqui e ali.

Nessa trilogia tem muito do sentimento de
nostalgia. O quão nostálgico você é?

Eu sempre fui meio assim. Comecei a trabalhar muito cedo, com 16 anos. Então, se você pegar esses três livros, são coisas que aconteceram quando eu estava começando a trabalhar. Depois minha vida mudou muito quando eu virei aprendiz de jornalista. O primeiro livro fala de uma paixão juvenil. Claro que depois eu falo um pouco dos dias de hoje, mas o mote do livro é uma paixão adolescente. No segundo, eu trouxe o garoto da Tijuca que torce pelo América. O terceiro é esse aí que, na ordem cronológica, poderia ter sido o primeiro, falando do colégio, do tempo de Primário e Ginásio. Realmente tenho um apego grande, sim [pela nostalgia]. Apego de contar a infância, adolescência.

Do que o José Trajano sente saudades?
Do Rio de Janeiro, né? Acabei de voltar do Rio. Fui lançar lá o livro. Fiz dois lançamentos. E eu vivo na Tijuca, eu quase não vou para a Zona Sul. Algum tempo atrás, eu ficava no Rio e ia pra Zona Sul, agora eu retornei à Tijuca. Eu retornei ao meu bairro dos sonhos. Tudo faz parte de uma coisa só, eu acho. Na medida em que eu também retomo à Tijuca, estou retomando um pedaço da minha vida onde eu fui criado, que eu deixei ali. Eu tenho saudade daquele Rio dos anos 1950, 1960, que eu retorno no livro. Era uma capital da República, tudo acontecia ali, nós viramos campeões do mundo de futebol, do basquete, a bossa nova, a televisão começando a surgir em plena democracia...

Você sempre foi muito emotivo. Como foi para escrever esse livro e relembrar desses seus amigos de infância? Você tem contato com algum deles hoje em dia?

Tem uma coisa interessante, porque foi o seguinte: Eu conto no livro que eu fui a um jantar no Iate Clube, um jantar lá que eles fazem todo ano. É verdade, naquela época, já estava pensando em escrever o livro. Depois me encontro só com a turma do futebol, de verdade. E falo pra eles que eu ia escrever o livro, já estava escrevendo um livro, sobre o walking football, os Beneditinos. E voltei para São Paulo e retomei o livro, comecei a escrever. Esse é o período do Eduardo Amaral, o livro é dedicado a ele. Ele era um cara muito organizado, que ajudou a criar o time de futebol, então ele ficava se correspondendo comigo. Eu mandava, às vezes, uns trechos que eu escrevia e ele também mandava dados concretos e eu transformava em ficção alguma coisa ou então aproveitava. E a grande tragédia foi que, no decorrer do livro, ele morreu. Ele morreu faz nove meses. Foi a parte mais tocante.

Você é um jornalista esportivo que sempre gostou de falar sobre política. Qual a importância disso na sua vida e que análise você faz da atual situação?
Eu sempre fui um sujeito que gostei muito, que me envolvi muito, mas o trabalho com o esporte me absorvia tanto que sobrava pouco tempo para discutir, polemizar, essa coisa mais politizada. Eu me manifestava ali. De vez em quando, dava umas pinceladas lá nos comentários da televisão, mas, a partir do momento em que me sobrou mais tempo, que eu deixei de ser chefe e fui vendo as coisas ruins, desagradáveis acontecendo no país, comecei a me envolver muito mais. Já estou com 71 anos, por que vou ficar me omitindo? Por que vou ficar atrás da moita? Se as coisas estão desagradando, se eu ainda tenho uma voz para ser ouvida por alguns poucos, que eu me manifeste. Vai me fazer bem e vou encontrar companheiros, não sou candidato a nada. Sou candidato a falar das coisas que eu acho desagradáveis, como o golpe e outros, como a democracia aviltada, a maracutaia.

Você tem um canal no YouTube e é um usuário ativo da internet. Como é a sua relação com a web?

Eu dei uma parada porque a gente estava sem grana. Estava também esperando a situação política do Brasil dar uma clareada. Estava fazendo uma reforma no site para colocar mais entrevistas exclusivas, também estão entrando mais colunistas. Estamos com uma campanha para o pessoal ouvir os Avisos do Zé por meio do catarse.me/ultrajano, onde as pessoas podem doar dinheiro para que o nosso conteúdo melhore e, em contrapartida, recebem vídeos. Agora elas podem acessar a Sala do Zé e ver blocos e tabelinhas também. Tem as recompensas. Vai entrar agora o terceiro livro. Eu também tenho o Zé no Rádio, que é um podcast toda segunda que entra no Ultrajano. Ou eu me diversificava e começava a fazer outra coisa, ou ia ser aquele velho recalcado, zangado em casa.

A parte ruim da internet, como os comentários ofensivos e os haters, o tira do sério?
Já tirou mais do sério. Eu ficava mais nervoso, mais irritado. Agora, há tanto tempo navegando nesse mundo aí, eu aprendi a banir, aprendi a ver que cabe a um idiota mesmo que faz isso só para provocar. Então eu já não sofro tanto, mas me deixou abalado no início.

Seremos campeões do mundo?
Olha, boa pergunta. Copa do Mundo são aqueles de sempre, né? Copa do Mundo é a coisa mais sem novidade da história. Já teve Nigéria, a Jamaica, Costa Rica... A Colômbia já entrou como favorita. Mas, é sempre a Alemanha, o Brasil, a Itália, a Espanha, a França, a Holanda. Não foge desse mundo aí dos grandes. Mas, nós temos um time que se recuperou com o Tite, tem o Neymar, que é um fominha, mas é um grande jogador, um dos melhores do mundo, a gente depende muito dele. Confesso que eu não sou muito daquela unanimidade em torno do Tite, eu acho que ele fez um bom trabalho, mas me incomoda ele ser o dono da verdade, o ser supremo, Deus. Vamos ver. Tem chances.

Você não parece muito otimista...
 O que me preocupa no futebol é mais saber que meu América está na segunda divisão do que a seleção brasileira.


Os Beneditinos
De José Trajano.
Alfaguara, 151 páginas.
Preço sugerido: R$ 34,90.

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