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Correio Braziliense

Documentário Górgona retrata a carreira da atriz Maria Alice Vergueiro

Sem entrevista ou material de arquivo, o filme é estruturado em questões importantes para a atriz


postado em 31/03/2018 07:00 / atualizado em 31/03/2018 11:48

Uma das cenas do filme Górgona.(foto: Reprodução/Internet. )
Uma das cenas do filme Górgona. (foto: Reprodução/Internet. )


Dada a constância de uma câmera circulando entre coxia e camarins da peça As três velhas, a intimidade estava estabelecida, e os codiretores Fábio Furtado e Pedro Jezler, à frente do documentário Górgona, não tinham dúvidas do acesso à matéria-prima do filme em curso: a autenticidade da atriz Maria Alice Vergueiro. “Havia a delicada questão do contrato de confiança não estabelecido. Nisso, não há limites bem delineados — o avanço na intimidade pode cruzar fronteiras, passando ao incômodo. O desafio é também não frear muito na investida, ficando aquém do resultado esperado. Na convivência, sabemos que Maria Alice é atriz e sentia a presença da câmera, correspondendo. Mas, por estarmos integrados ao ambiente, às vezes, até ela se esquecia da gente”, conta o diretor Fábio Furtado.

Em caráter totalmente independente, Górgona chegou aos cinemas da capital um ano e meio depois de pronto. Além da direção de fotografia do longa, Fábio acumula experiências como a assistência de direção de espetáculos da Companhia Pândega (na qual Maria Alice atua) e a criação de dramaturgia para peças. Sem entrevista ou material de arquivo, o filme é estruturado em questões candentes para a atriz, criada entre peças de Augusto Boal, do Teatro Oficina e de Bertolt Brecht. “A qualidade maior da Maria Alice é a da irreverência, mesmo ao falar de temas complexos e pesados. Faz isso com graça e humor — num clima de ambivalência, numa ‘graça/séria’”, observa.

A remoção de montanhas, ao encapar projetos de teatro, é das abordagens perceptíveis, quando o centro das atenções é Maria Alice. “O motor sempre é ela. É um tipo de atriz que gosta daquele tempo do teatro de grupo, da facção experimental, que persiste, sem patrocínio”, comenta Fábio Furtado. Nada, em Górgona, ficou de fora da montagem final, por ser polêmico ou incômodo. A atriz, num rompante, aparece, criticando, com leveza, opções de atrizes como Fernanda Montenegro e Cleyde Yáconis, e reclama do colega de jornada Zé Celso Martinez Corrêa. “Eles têm uma relação muito longeva. Brigam, mas se amam. A mágoa acaba passando”, reforça o diretor.

Dona de um currículo recheado de ousadia, Maria Alice Vergueiro motiva eterna inquietação, ao entrar em cena. Entre as traquinagens — capazes de influenciar a (concepção da) montagem do documentário Górgona — está a época em que ela encenou a própria morte. A elaboração teatral culminava com o público interagindo com o velório da atriz, desdobrado a cada apresentação. Beijos de despedida, entrega de flores — que encerravam uma das peças encenadas — transformavam o espírito da atriz, modificada, ao longo das filmagens de Górgona: de cadeira de rodas, e com a locomoção dificultada, ainda assim, ela se mantinha ferrenha na meta de divertir e impressionar.

Hoje, aos 83 anos, a atriz segue na árdua convivência com o mal de Parkinson. “Tempo para a Maria é urgente. Notamos que cinco anos (que transcorrem na fita) passam de modo muito diferente. Desde o começo, víamos que ela sofria as consequências da idade e da doença”, reforça Furtado. Algumas apresentações de espetáculo foram canceladas, diante de seguidas internações da atriz que, atualmente, mesmo longe dos palcos, não se considera aposentada. “Por enquanto, ela está em casa, bem. Depois da encenação da morte, pensamos até num projeto que brinque com a ressurreição da Maria Alice”, adianta Furtado.

Tapas da pantera

Górgona projeta no título, extraído da mitologia grega, um traço marcado da atriz, na opinião expressa dos diretores. “É extraordinário como, ao modo da medusa, Maria Alice ri de coisas preocupantes ao seu próprio redor. Medusa se comprazia com o espanto das presas, diante de aspectos grotescos dela”, pontua Furtado. Sem nunca recorrer a relações verticais (calcadas na autoridade), a atriz segue percurso criativo sempre surpreendente, na opinião do colega de palco. “Mesmo sabendo de toda a carga de sabedoria e experiência, ela acha uma forma de levar todos em conta. ‘Me seduza com sua ideia’ é o jeito de ela facilitar o contato, abrindo diálogo com todos”, elogia o amigo.

O longa foi realizado antes mesmo da montagem de Why the horse?, peça que teve a morte como autorreferência para a atriz celebrada, mais recentemente, pelo sucesso na internet (com o famoso esquete Tapa na pantera) e com o premiado curta Rosinha. As três velhas (o espetáculo que está em primeiro plano, no documentário), de certa forma, deflagrou o processo de um “teatro documental”, que, em vários pontos, realimentou Górgona e mesmo a peça Why the horse?. Insegura, com a morte do irmão, Maria Alice assimilou nuances, à época, para o papel na montagem que, inicialmente, previa fundir textos de Fernando Arrabal e de Beckett. “Ela ficou impressionada com o medo e a perplexidade do irmão — daí, termos ido para outro lado, mais realista”, comenta o cineasta.

 

 

 

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