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Correio Braziliense

Wilson Alves-Bezerra faz retrato sarcástico do Brasil em novo livro

'Exílio aos olhos %u2014 Exílio à língua' externa o olhar agudo de um poeta que realiza profundas incisões


postado em 31/03/2018 07:00

(foto: Maria Ignatios/Divulgação)
(foto: Maria Ignatios/Divulgação)


Ano passado, em sua passagem por Portugal, onde esteve como convidado do Folio — Festival Internacional de Literatura de Óbidos, o escritor, professor da UFSCar e tradutor Wilson Alves-Bezerra dividiu uma mesa com a editora Raquel Menezes, da Ed. Oficina Raquel, do Rio, discutindo o papel das pequenas editoras dentro do panorama oligopolizado do mercado editorial brasileiro.

A editora apresentava ao público português os livros de três escritores brasileiros, chancelados com o selo de sua nova casa em Lisboa, a Oca Editorial. Além de Exílio aos olhos — Exílio à língua, de Wilson, foram lançados na livraria Ler Devagar as coletâneas Sombras dançam neste incêndio, de Roberto Piva; Busca das gemas nos destroços, de Afonso Henriques Neto; e Transbordamentos, de Guilherme Zarvos. Além desses autores que marcam essa travessia atlântica como pontas de lança da coleção Antologia de poesia, a bordo dessa iniciativa, comporão o catálogo os escritores de origem indígena Ailton Krenak, Kaká Werá e Sônia Guajajara.

Exílio aos olhos — Exílio à língua consiste numa obra que externa o olhar agudo de um poeta que realiza profundas incisões — num texto visceral, reflexivo e crítico — no atual momento da vida brasileira. O livro traz excertos de outra obra, O pau do Brasil, que acaba de ter sua 4ª edição recém-lançada no Brasil, com selo da caprichosa editora paulista Urutau, edição que retoma, com textos adicionais, a temática de confronto proposta pelo autor, que não doura a pílula nem deixa pedra sobre pedra ao fazer, à moda de Oswald Andrade ou Gregório de Matos, um retrato necessariamente sarcástico e iconoclasta da vida brasileira, um punhal semântico e uma chicotada metafórica em nossas mazelas.

O pau do Brasil se reveste de uma incandescente prosa poética, contém certo hibridismo de forma e conteúdo, ao incorporar elementos de várias vertentes e linguagens, numa metamorfose de gênero; assimila fragmentos de um imaginário público e privado, em que contribuem as perspectivas literária, política, jurídica e administrativa nos capítulos que seccionam o livro numa proposta de leitura-desacato. Em sua estrutura, que nos lembra uma ata ou memorando, o autor cataloga nossos desencantos e inventaria, num rol de desagravos, o espólio do que restou desses 518 anos de história, sobretudo sob o prisma da espoliação e do engodo, que, nestes tempos, que correm alcançam seu apogeu, tal o virtuose de seus maestros, regentes de uma orquestra desafinada e histriônica.

Conturbado


O poeta se lança a um exercício hermenêutico da realidade político-social-judiciária-moral e humana de um Brasil despedaçado, em que todos são condôminos desse período conturbado em que a nação vive encurralada num beco sem saídas. Diante de um país travestido numa babel de vozes dissonantes, na encruzilhada de um destino que não oferece outra alternativa senão a tentativa desesperada de fugir ao caos e renascer, como Fênix, dos escombros de que somos vítimas, esse livro é uma insurgência e também um farol.

Obra que faz uma leitura de nossos desconforto, desmonte ético-político e apequenamento das instituições, que nos deixam como herança um rastro de destruição física e moral, O pau do Brasil, nas sucessivas reedições, vem sofrendo várias releituras, recomposições, ajustes e adendos textuais e contextuais, como se fosse um livro-rio, que vai abarcando no seu leito crítico todas as demandas e enxurradas dessas tempestades que nos assolam e aviltam.

Desencanto

O livro vai ganhando mais substância questionadora e apresentando argumentos que o transformam num denso inquérito, num mapeamento de perdas e danos, em que a palavra se interpõe como afronta ao desencanto e ao passivo a que temos sido submetidos nesses últimos anos de uma das nossas mais vergonhosas e esfoliantes crises.

Na esteira desse território expandido de incertezas, a visão crítica e o espírito de inquietação e intervenção de Wilson Alves-Bezerra vão carreando mais húmus, provocados pelos destroços da realidade, material resultante da decomposição moral que serve para adubar a resistência e o desejo de enfrentamento dessa engenharia nefasta gerada no caldeirão de contrastes, paradoxos e dilemas. E o livro, caudatário dessa instabilidade, se enxerta de uma fúria e ao mesmo tempo de um libelo contra tudo que aí está.

(*) Ronaldo Cagiano é autor de Eles não moram mais aqui (Ed. Patuá, SP), Prêmio Jabuti 2016.

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