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Correio Braziliense

Diretora ligada ao Cinema Novo ganha mostra em Brasília

Uma das poucas realizadoras com estreita ligação junto ao movimento, Helena Solberg é celebrada em retrospectiva do CCBB


postado em 03/04/2018 06:42 / atualizado em 03/04/2018 08:47

Banana is my business, premiado na capital, abre a mostra do CCBB, hoje, às 19h30(foto: CCBB/Divulgação)
Banana is my business, premiado na capital, abre a mostra do CCBB, hoje, às 19h30 (foto: CCBB/Divulgação)
 
 
Antes da constatação de amplo êxito da representatividade de Pantera negra, a cineasta brasileira Helena Solberg já havia qualificado a relação entre a raça negra e a mídia (com o filme Brasil em cores vivas, de 1997); bem antes do 11 de setembro, Solberg havia investido em documentário sobre Estados Unidos e terrorismo (em Retrato de um terrorista) e, muito antes das mobilizações estudantis de 2015, lá estava a diretora às voltas com Meio-dia, curta-metragem que, nos anos 1970, discorria sobre motim estudantil contra autocracia, ao som de É proibido proibir. Notar o casamento de Helena Solberg e vanguarda não causa dificuldade, ainda mais quando — selecionada para uma retrospectiva, a partir de hoje no CCBB (com sessões gratuitas) —, Solberg é ressaltada como a diretora engajada e que inaugurou sólida ponte entre audiovisual e feminismo.

“Claro que é um privilégio ter a retrospectiva — mas é assustador também. Notar que batalhamos por certas trilhas que não avançaram o suficiente. A nova mulher (1974), que fiz nos Estados Unidos, mostra ondas tocadas pela afirmação de direitos mais básicos para mulheres, com dados de educação e do direito ao voto. No filme mais recente (Meu corpo minha vida), trato de questões do aborto e do direito sobre o próprio corpo. Estar na mostra é como passar a limpo a vida. Ver tudo em fases, cronologicamente, converge para ver a sua história. Além do interessante e do susto, vem o momento intenso de autoconhecimento e de autocrítica, com os vestígios do que ficou”, analisa, aos 79 anos.

Até o dia 22 de abril, com direito a aula magna (dia 14, às 17h) de Helena Solberg, 17 filmes da diretora ocupam as sessões do CCBB. Satisfeita com a pluralidade dos trabalhos em cinema, a diretora não esconde a qualidade de xodó do documentário Carmen Miranda: Banana is my business (com exibição hoje, às 19h30), vencedor do prêmio especial do Festival de Brasília, em 1994. “Foi um filme que juntou muitos temas: da imagem da mulher, ao olhar do estrangeiro (Carmen foi assimilada por Hollywood, nos anos de 1940), passando pela relação entre Brasil e Estados Unidos”, observa. Interessada no apoio a movimentos que revitalizem arquivos de filmes, a diretora é categórica, ao citar que “um país sem cinema é um povo sem memória”.

Tudo o que Helena Solberg revista, em filmes, converge para um amplo painel histórico, na mostra sob curadoria de Carla Italiano e Leonardo Amaral. “O cinema te obriga à reflexão sobre o mundo. Busquei respostas para: ‘o que é o mundo em volta de mim?’. Assistir a filmes é empreender uma aventura que sempre te faz crescer”, analisa a diretora. Casamento, sexo, política, endividamentos sociais e financeiros, além de eleições, são temas de ordem. O ideal de mulher é questionado, por exemplo, no curta-metragem A entrevista (1966), enquanto A dupla jornada (1975) suscitou passagens por Venezuela, Argentina e fábricas do Brasil e México que deram estofo para entender o dia a dia de trabalhadoras daqueles países. Em outro filme (Simplesmente Jenny, de 1977), um reformatório boliviano é examinado, sob a denúncia de prostituição imposta. O coletivo de A nova mulher (um média-metragem) resultou em filme que revela 170 anos de lutas feministas.
 
“Francamente, àquela época, a sociedade era machista, como segue sendo. Mas, eu estava com minhas ideias na cabeça: estava com minhas leituras em Simone de Beauvoir, em Albert Camus, e em Sartre. Remexia em valores que me formavam, e até me faziam parte da burguesia”, conta a diretora. A vantagem de sempre ser curiosa retumba em espanto atual, quando se dá conta da condição de ser o maior expoente de direção feminina, quando o assunto é Cinema Novo.

Cinema Novo

“Nunca me sentia parte do Cinema Novo, em termos de movimento. Fiz o que queria, sem me dar conta de que fazia parte do grupo maior, integrado em pretensões. É algo que me deixa espantada perceber. Dialogava com a minha geração, estando lá, em meio ao cinema novo. Fui assistente e fiz continuidade de filmes do Paulo César Saraceni (Capitu) e do Rogério Sganzerla (A mulher de todos). Eu tinha uma agenda, porém, que independia do conjunto. É engraçado lembrar que vivi a época do jornal Metropolitano (da UNE), acompanhando colegas como o Cacá Diegues, o David Neves e o Arnaldo Jabor”, recorda Helena Solberg.
 
Entre idas e vindas, durante 30 anos para os Estados Unidos, a diretora esteve ainda no Brasil, além de filmar em outras regiões da América Latina e na Europa e Ásia. Da estrada internacional vieram títulos como Das cinzas... Nicarágua hoje (1982), em torno da revolução sandinista, e Chile: pela razão ou pela força (1983), que traçava os dez anos de abusos do governo golpista de Augusto Pinochet. Como a “aterradora” presença de Trump na atualidade, a diretora avalia que o mundo esteja “bastante complicado”.
 
“A polarização está perigosa — as pessoas deveriam pensar mais, antes de emitir opiniões. Protejo um tanto da minha intimidade na internet. Aposto mais em leituras que informam do que naquelas que apenas distraem. Sou antiga, uso a rede como ferramenta para trabalho — não tenha a compulsão de escrever, a todo momento”, comenta a diretora. Celebrada num país de pouca memória cultural, na mostra de cinema, Helena Solberg, no momento, é só alegria: “Estou muito contente de estar viva, e acho que tenho muito pela frente. Nem penso em outras coisas”, conclui, aos risos. 
 
 

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