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Correio Braziliense

Fafá de Belém fala sobre a carreira e o momento atual do país

Em entrevista ao Correio, a artista, aos 61 anos, afirma que o passado é importante mas é sempre preciso mudar


postado em 07/04/2018 07:30 / atualizado em 07/04/2018 21:04

Fafá de Belém se apresenta hoje no Centro de Convenções Ulysses Guimarães(foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Fafá de Belém se apresenta hoje no Centro de Convenções Ulysses Guimarães (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

 
Aos 61 anos, Fafá de Belém não quer saber de só olhar para o passado. A história foi bonita e dá orgulho, sim, mas é preciso seguir em frente. “Eu prefiro caminhar para frente. Claro que sem deixar de olhar a minha vida, a minha história, mas sempre para frente”, diz.

Com a alegria e as gargalhadas de sempre, Fafá não tem medo de qualquer assunto, fala sobre idade, política, empoderamento. Articulada, defende minuciosamente suas posições.

Musa das Diretas Já, ela tem uma visão apreensiva sobre o momento brasileiro atual. Na visão de Fafá, falta profundidade e sobra ódio. “Está tudo muito irascível, muito pouco sensato, a orelha do livro arrotando sem se aprofundar no conteúdo”, acredita.
 

Fafá, porém, tem esperanças. Machucadas, mas tem. “O Brasil é maior do que qualquer crise. Porque nós temos um povo que está tentando comer, manter o emprego, tentando sobreviver e não perder a alegria. Esse é o meu olhar.”

Em entrevista ao Correio, a cantora, que se apresenta hoje na cidade, lembra passagens por Brasília, fala sobre a inquietação que move toda a sua obra, critica, reflete, brinca e, claro, gargalha. Porque, apesar de tudo, o segredo é sempre seguir em frente.
 
 


Você veio a Brasília inúmeras vezes, tem aqui também um público muito fiel. Como é sua relação com a cidade?
A minha relação com a cidade começa na infância. Quando eu voltei para Belém (depois de morar em São Paulo), em 1965, eu fui pela Belém-Brasília. Foi a primeira vez que fui à cidade. Eu tenho 61 anos, para nós, Brasília marca um tempo na vida em que a capital federal muda para o meio do Brasil. Então, as distâncias vão se encurtando. Fui a Brasília depois de novo na campanha das Diretas e praticamente morava em Brasília naquela época. Morei no Hotel Nacional muito tempo, quase dois anos. (risos) Primeiro, nas Diretas, depois, na campanha de Tancredo (Neves). E aí a essa altura, eu fiz muitos amigos. Então, eu estou muito motivada de fazer Brasília novamente.


Você já gravou disco com orquestra também, como é cantar nesse formato? O que muda?
É sempre uma expectativa, porque cantar com orquestra não é uma coisa fácil, é mais rigoroso no sentido dos tempos, de arranjos, de métrica. Porque quando você faz só com uma banda, você consegue mexer um pouco no tempo, mexer no andamento, com a orquestra, não. Então, por isso, eu chego antes para ensaiar. É um outro desafio, porque ali você não é a estrela, todos ali batem bola. Você é a solista dentro do evento, então é muito bom.


Você viveu de maneira muito forte o momento das Diretas Já aqui em Brasília, sempre teve participação política, nunca se omitiu. Como analisa o momento brasileiro atual, a divisão que vivemos?
Eu acho um retrocesso. Na minha leitura, a democracia é a discussão entre posicionamentos contrários, que você pode concordar ou não, mas é uma discussão saudável. O que se vê hoje é um esquartejamento de um lado e de outro. A própria morte da Marielle parecia que chamaria a atenção para perceber a tragédia nacional da insegurança, da violência, em que a vida não vale nada para todos, para qualquer classe social, qualquer etnia, qualquer sexo, mas não. E a violência no Brasil ultrapassa tudo, ela não está em guetos ou em cotas.


E como você percebe as reações a isso?
Está tudo muito irascível, está tudo muito pouco sensato, está tudo muito a orelha do livro arrotando sem se aprofundar no conteúdo. Isso me assusta porque, quando você não tem conteúdo, não tem cultura e não tem conhecimento do fato, qualquer um pode contar uma história e inverter a mão. Eu acho que o Brasil está na mão inversa da profundidade, acho que o Brasil deveria estudar um pouco mais. Nós temos que fazer pessoas que tenham capacidade de analisar textos, aprender a ler não é juntar letras. Eu acho que isso para mim é o grande abandono do Brasil: a educação como conceito, como linha de raciocínio, ela está abandonada. E eu fico triste com essas discussões vazias, com plataformas próprias, com bandeiras ensaguentadas e ódio. E com ódio você não faz nada, a não ser guerra.


“ Temos todo um povo que continua andando porque tem que viver, sobreviver. Então, é nesse povo que eu confio”


No meio de tudo isso, você consegue acreditar que exista algum caminho e esperança para o país mudar?
Eu acho que o Brasil é maior do que qualquer crise. Porque nós temos um povo que está tentando comer, tentando manter o emprego, está tentando sobreviver e não perder a alegria. Esse é o meu olhar. Tem a guerra das mídias sociais, a guerra do fake news e tem um Brasil de pessoas que precisam continuar caminhando. Mas o que nós recebemos como influência e referência do poder, do que é poder no Brasil, está cada vez mais contaminado. O poder é violento, o poder é arrogante, o poder rouba, o poder desvia, o poder é impune. Quando eu tinha 20 e poucos anos nas Diretas, lamentavelmente minha esperança era maior, é como se eu estivesse agora com a minha esperança machucada. Mas eu espero poder ver o país reorganizado. Nós estamos cingidos ao meio e divididos por um mar de ódio, que é a pior possibilidade. Mas temos todo um povo que continua andando e que está pouco ligando para lá e para cá porque tem que viver, sobreviver. Então, é nesse povo que eu confio.


Você cantou estilos muito variadosdurante a carreira toda, do brega ao fado… O que te faz querer navegar por tantas vertentes? 
A minha curiosidade. Eu sempre fui muita curiosa e sou muito emocional, como todos sabem. Então, eu estou sempre ouvindo, vendo coisas. Eu digo que estou sempre na contramão, antecipando. Eu gravei brega muito antes de Caetano gravar Fernando Mendes, eu gravei carimbó 42 anos atrás. Mas eu acho que tudo que se grava, que se faz, que se busca, é para botar no alto-falante. Eu não gravo para mim e para o meu círculo de amigos, eu gravo para me fazer feliz, para me sentir movida. E eu sou movida pelo que me emociona, então tem muita coisa para fazer agora, está na hora de pensar de novo, talvez, em música portuguesa, tem tanta coisa acontecendo em termos de música e fusões... Eu continuo na vida.


Você citou algumas possibilidades (como a música portuguesa), mas o que vem por aí, o que você está planejando?
Não tenho a mínima ideia. (risos) Eu não consigo planejar o que vai acontecer. Do encontro de uma música, de uma coisa que eu ouço, começa um movimento. Foi assim com o Do tamanho certo. Atualmente ouço muita coisa, mas nada que me faça dizer: ‘Pera aí, é isso que eu quero fazer’. Então, vou terminar a turnê do disco, vou para Portugal encerrar as comemorações dos meus 30 anos de carreira lá e, aí, de repente, no meio disso acontece algo. Ou não acontece e eu continuo sorrindo Do tamanho certo do meu sorriso.


E acha que essa versatilidade, que você sempre teve, gerou preconceito?
Muito, muito. Mas isso, que me fazia sofrer lá atrás, hoje me faz dar gargalhada. Eu era muito menina e algumas pessoas pretendiam que eu fosse uma série de coisas, mas sem me falar. E eu sou muito livre. Eu sou gordinha, vários quilos a mais do que todas que apareciam e eu vinha de Belém do Pará. O Brasil acabava um pouco antes da Bahia naquela época. Me perguntaram dia desses sobre ser mulher, mas eu sofri mais preconceito por ser nortista do que por ser mulher. E essa minha natureza livre, que não pede licença e vai atravessando, me fechou e abriu muitas portas. 


“ Acho que há algumas coisas muito caretas, defendidas com atitude, mas com argumentos muito frágeis”


Na música brasileira atual, quem você costuma escutar? O que está na sua playlist agora?
Olha, vou te falar uma coisa um pouco óbvia. Mas a minha playlist toca Caravanas (álbum mais recente de Chico Buarque) desde que saiu. (risos) É espetacular. E adoro Alice Caymmi, é a melhor dessa leva, ela é irreverente, verdadeira, sincera, ousada. Ouço esses meninos todos, Lia Sophia, Criolo, Emicida – adoro Emicida, é basicamente por aí. E todos os clássicos.


Você está com 61 anos e é evidente que continua cheia de energia e de vigor, mas a idade mudou algo no seu jeito de ser? Trouxe alguma coisa diferente?
Me deu um pouco mais de paciência, mas agravou a minha intolerância, ou seja, eu não tenho mais paciência para o que eu costumava ter, mas postergava. E eu tenho mais paciência com coisas que eu acho que valem a pena. Eu não me interesso mais por coisas que de cara não me interessam para agradar quem quer seja. Existe uma expressão em Portugal que diz: “Tenho muito bom humor, mas costumo ter mau feitio”. É basicamente isso.


Você disse também que o passado é legal, faz parte da história, mas que o que importa é olhar para frente, seguir em frente...
Exatamente, o passado é uma referência para não esquecermos do que somos. O Brasil insiste em te dizer que você não é mais. Então, nosso passado, nossa história, são referências para não esquecermos disso. Agora não quero me debruçar nisso como única possibilidade de vida. Ficar no passado, eu tô fora. Não vivo sentada em cima do passado, faturando em cima dele ou querendo ser lembrada por isso. Não acho que é por aí. Respeito quem pensa isso, quem vive regravando o melhor do melhor do melhor...  É um olhar. Eu prefiro caminhar para frente. Claro que sem deixar de olhar a minha vida, minha história, mas sempre para frente


O feminismo está em pauta, faz parte do debate do país, do mundo. Como avalia as mudanças que aconteceram, como vê o movimento hoje?
Acho algumas coisas boas e algumas coisas mais caretas do que anos 1970, por exemplo. Nos anos 1970, nós nos libertamos de uma série de coisas. Mas a banalização da mulher, principalmente em determinados tipos de música, levou tudo para trás. A mulher voltou a ter a bunda batucada pelo cara. “Ah, é empoderamento”. Não é, os vídeos com posições ginecológicas não são empoderamento. Você pode até ter o discurso do empoderamento, mas, na prática, não é. Eu entendo que o corpo da gente é um templo, que a gente faz o que quiser dele, mas, se você não se respeitar como mulher e não entender que ainda vivemos em uma sociedade machista, estará cedendo a um jogo de palavras e não fazendo nada para mudar a condição . Então, acho que há algumas coisas muito caretas, defendidas com atitude, mas com argumentos muito frágeis.


E existem também aí muitas divisões....
Em alguns momentos, a gente separa tudo em guetos. “Ah, só as mulheres negras e pobres”. Mas todas são vítimas, a negra rica também é vítima, então essa coisa de só a minha turma sofre, independentemente de que olhar se tenha, eu acho que é pequena, pobre, preconceituosa e racista. Ou a gente pensa como uma sociedade ou a gente volta de novo aos guetos. E voltar aos guetos é tudo que não se quer.



Fafá de Belém 
Auditório Master do Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Eixo Monumental). Hoje, às 21h. Ingressos: R$ 50 (poltrona superior lateral); R$ 60 (poltrona superior); R$ 90 (poltrona especial lateral); R$ 120 (poltrona especial); R$ 160 (poltrona vip lateral); e R$ 180 (poltrona premium). Valores referentes à meia-entrada. Ingressos sociais (mediante doação de 1 kg de alimento). R$ 60 (poltrona superior lateral); R$ 70 (poltrona superior); R$ 100 (poltrona especial lateral); R$ 130 (poltrona especial); R$ 170 (poltrona vip lateral); e R$ 190 (poltrona premium). Os 200 primeiros assinantes do Correio têm 55% de desconto na inteira. Não recomendado para menores de 14 anos.
 
 

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