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Correio Braziliense

Livro de Cezar Motta reconstitui a trajetória do Jornal do Brasil

A obra mostra o cotidiano de um dos mais importantes e inovadores jornais da mídia impressa


postado em 07/04/2018 07:31 / atualizado em 06/04/2018 19:52

Reunião de pauta, time de cobras: Luiz Alberto Bahia, Alberto Dines, Antonio Callado, Hélio Pólvora, Otto Lara Resende e Wilson Figueiredo(foto: Objetiva/Reprodução)
Reunião de pauta, time de cobras: Luiz Alberto Bahia, Alberto Dines, Antonio Callado, Hélio Pólvora, Otto Lara Resende e Wilson Figueiredo (foto: Objetiva/Reprodução)

 

O livro Até a última página - Uma história do Jornal do Brasil - tijolaço de 564 páginas, lançado agora pela Objetiva - entrega muito mais do que promete. Escrita pelo jornalista niteroiense Cezar Motta, há três décadas radicado em Brasília, a obra descreve o formidável avanço do jornalismo impresso brasileiro (e também o começo de seu declínio) ao longo da segunda metade do século passado.

 

Curiosamente, o auge do poder e da glória do Jornal do Brasil, alcançado no começo dos anos 1970, os mais duros do regime militar, coincide com o início de seu mergulho em direção ao caos falimentar.

 

Em 1973, o JB troca sua então acanhada sede no centro da cidade por um prédio majestoso de oito andares na distante Avenida Brasil, construído à custa de muitos e vultosos empréstimos. Era um edifício tão vasto e requintado que um jornalista italiano que o visitou durante a construção indagou do seu cicerone quantos jornais funcionariam ali.

 

Caderno B com a inovadora diagramação sem fios e com muitos espaços em branco: criação de Reynaldo Jardim(foto: Objetiva/Reprodução)
Caderno B com a inovadora diagramação sem fios e com muitos espaços em branco: criação de Reynaldo Jardim (foto: Objetiva/Reprodução)
 

 

Nessa época, os gastos com a construção da sede nababesca mais os pesados investimentos feitos para a implantação de duas emissoras de televisão, cujas licenças haviam sido finalmente obtidas do governo após décadas de insistência, tornaram-se insustentáveis mesmo diante do estratosférico faturamento do jornal, obtido com a publicação de anúncios classificados. O jornal morreria em 2001, depois de uma demorada agonia, tanto financeira quanto editorial.

 

 

 

De acordo com a pesquisa de Cezar Motta, o Jornal do Brasil — que sabia estar condenado ao desaparecimento caso não obtivesse canais de televisão, como seu mega-adversário O Globo — morreu vítima de terremotos econômicos (crise do petróleo e maxidesvalorização do cruzeiro), aventuras brancaleonescas (criação de uma indústria papeleira), gestão mais que temerária e muita, muita empáfia. Nos seus anos de esplendor, era quase uma estatal com funcionários em excesso e muito desperdício.

 

DNA

 

Nascido monarquista já na vigência da República, em 1891, o JB teve como um de seus primeiros chefes de redação ninguém menos que Joaquim Nabuco. Já naquele ano foi invadido e empastelado, como era corriqueiro na época. Dois anos depois, quando passou a defender a República, contava com dois correspondentes internacionais de arromba: Eça de Queiroz em Portugal e Alphonse Daudet na França. Fechado em 1893 pelo déspota Floriano Peixoto, ressurgiu em 1894 como “noticioso”, ou seja, sem artigos de fundo que pudessem irritar os poderosos.

 

Passou pelas mãos da família maranhense Mendes de Almeida, que depois criaria a Universidade Cândido Mendes, até ser incorporado aos muitos negócios de um riquíssimo empresário pernambucano, o conde Pereira Carneiro.

 

Existe uma lenda sobre a transformação desse veículo cujo forte era a publicação de pequenos anúncios em uma potência editorial. Em 1956, para discutir uma possível ameaça de golpe contra o governo JK, reuniram-se as mulheres que chefiavam os grandes jornais cariocas de então: a condessa Maurina, viúva de Pereira Carneiro, do JB; Niomar Sodré, do Correio da Manhã; Ondina Dantas, do Diário de Notícias; e Dora Pacheco, do Jornal do Commércio.

 

Quando a condessa tentou expor sua posição, uma irônica Niomar Sodré teria comentado: “Ah, quer dizer que o jornal das cozinheiras tem opinião sobre política e sobre o país”. Mordida, Maurina teria decidido naquele mesmo dia transformar seu veículo no mais influente e respeitado do país.

 

A virada começou no final daquele mesmo ano, quando o JB contratou o poeta e jornalista maranhense Odylo Costa, filho. Odylo, por sua vez, chamou vários profissionais de destaque do Diário Carioca, que havia implantado recentemente o modelo americano de redação, de textos objetivos e claros, em detrimento do nariz-de-cera e das “cascatas” opinativas do velho jornalismo brasileiro. Foi criado um Suplemento Feminino, que desaguaria depois no Suplemento Dominical, onde trabalhariam poetas como Ferreira Gullar e Reynaldo Jardim e artistas plásticos como Amilcar de Castro e Lygia Clark.

 

 Entraram as fotos e surgiram os espaços em branco entre as reportagens para facilitar a leitura.

 

Cezar narra a chegada das máquinas de escrever e aparecimento das mulheres nas redações.

 

 

Até a última página - Uma história do Jornal do Brasil

De Cezar Motta/ Objetiva, 564 páginas

Lourenço Cazarré é escritor 

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