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Correio Braziliense

11ª Bienal do Mercosul destaca presença africana no sul do Brasil

A curadoria decidiu centrar a mostra para um olhar além do Oceano Atlântico


postado em 07/04/2018 07:32 / atualizado em 06/04/2018 19:58

A exposição conta com 70 artistas e vai até o dia 3 de junho(foto: Adad Hannah/divulgação)
A exposição conta com 70 artistas e vai até o dia 3 de junho (foto: Adad Hannah/divulgação)
 
Depois de mais de duas décadas com os olhos voltados para a produção latino-americana, a Bienal do Mercosul vai olhar para além do Oceano Atlântico. Com uma temática que propõe atentar para a conexão com a África e com os povos autóctones do continente, a curadoria do alemão Alfons Hug foi buscar em 25 países os 70 artistas reunidos sob a temática O triângulo Atlântico. “Chegou a hora de ampliar o leque mais um pouco e incluir os continentes que conformam esse triângulo que interliga África, Europa e América há mais de 500 anos”, explica Hug.
 
Mais enxuta que nos anos anteriores, a 11ª edição tem predominância de artistas africanos e afro-descendentes. São 21 da África, 19 do Brasil, 20 da América Latina, 11 da Europa e seis da América do Norte. Entre eles, há importantes expoentes da produção internacional, como o ganense Ibrahim Mahama, que já participou da Bienal de Veneza e da Documenta de Kassel, a fotógrafa e ativista sul-africana Zanele Munholi e o pintor Kemang Wa Lehulere, também da África do Sul e que já esteve nas bienais de Lyon e de Berlim.
 
 
Do Brasil, Hug escolheu alguns nomes em evidência, como Dalton Paula, para quem a ascendência africana é um tema importante de trabalho, Miguel Rio Branco, Gustavo von Há e a brasiliense Camila Soato, entre outros.

 
Para chegar à temática do triângulo africano, o curador partiu do estudo de que, no início do século 19, 30% da população do Rio Grande do Sul era formada por negros. Para Hug, é uma presença importante em um estado mais conhecido pelas imigrações europeias. Havia pelo menos 50 quilombos na região e, hoje, algumas comunidades remanescentes sobrevivem, apesar do avanço da urbanização. “Tem uma herança afro grande.
 
 
Então, construí o tema com artistas africanos, brasileiros, talvez pela primeira vez vários afrodescendentes brasileiros, alguns afroeuropeus, para completar o ciclo e o triângulo, e alguns norte-americanos”, explica Hug. Dois projetos da Bienal foram desenvolvidos junto a essas comunidades com residências de Camila Soato e Jaime Lauriano no Areal da Baronesa e Areal da Família Silva, respectivamente.

Na Igreja das Dores, no centro de Porto Alegre, uma instalação sonora idealizada por Alfons Hug e pelo nigeriano Uche Okpa-Iroha e intitulada Vozes indígenas reúne sons em vozes indígenas da América Latina. Conhecido pelo gosto por vídeo e fotografia, Hug garante que a Bienal está diversificada, embora haja uma boa presença desses suportes. A versão mais enxuta — a exposição já chegou a ter mais de 300 artistas em outras edições —, essa Bienal é também a com temática mais diferente.


Experiência
 Alfons Hug é a alemão, mas há décadas se divide entre África e Brasil. Já foi diretor do Instituto Goethe na Nigéria, Colômbia, Brasil, Venezuela e Moscou. Também já esteve à frente de importantes mostras internacionais de arte. Fez a curadoria de duas Bienais de São Paulo, do Pavilhão Brasileiro e do Pavilhão Latino-Americano na Bienal de Veneza e de exposições de grande porte como Arte da China, Zeitgeist Berlin e Trópicos, todas no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Este ano, Hug também será responsável por Ex-África, que chega a Brasília no segundo semestre.
 
 
11ª Bienal do Mercosul
Exposição com 70 artistas. Visitação até 3 de junho, no Margs, Santander Cultural, Igreja das Dores, Praça da Alfândega (Porto Alegre)
 

Entrevista / Alfons Hug

(foto: Tuane Eggers/Divulgacao)
(foto: Tuane Eggers/Divulgacao)
 
Sua curadoria propõe uma ponte entre a presença negra no Rio Grande do Sul e sua origem?
Sim. Tenho três pontos de referência. Aquela passagem do Atlântico central que ligava a África central com a América, mais precisamente com o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, onde foi feito o maior mercado de escravos, o maior do Brasil e das Américas. Mais de 1 milhão de escravos foram vendidos no cais do Valongo. Os vários quilombos aqui e a terceiro ponta, que se encontra em Lagos, o chamado Bairro Brasileiro, fundado por retornados, ex-escravos brasileiros que voltaram para a África no final do século 19. É curioso porque essas pessoas que voltavam faziam logo parte da elite da sociedade nigeriana e até hoje conservam seus sobrenomes portugueses. Embora não falem mais o idioma, têm ainda um vínculo emocional muito forte com o Brasil.

E como a arte reflete sobre isso?
Obviamente, a arte não vai fazer uma leitura muito literal. Em alguns casos até falam sim, na fotografia, normalmente. Em outros casos são processos mais abstratos e menos diretos ou literais. Acho que, apesar desse tema incisivo e quase dramático do triângulo, a mostra tem uma boa densidade poética. Não é panfletária em nenhum momento, também não é um estudo sociológico, mas tem um pouco de reflexão histórica, como deve ser sempre, e mostra também a diversidade cultural e linguística.

Ter representantes negros da arte contemporânea internacional era importante para você num momento em que se discute muito o racismo, a inclusão e a discriminação?
Eu sinto falta disso nas exposições no Brasil. Na época da Bienal São Paulo, fizemos um núcleo de vídeo africano, em 2003, e um núcleo de fotografia africana, em 2004. Mas foram coisas pontuais. A produção, sobretudo na África, melhorou muito nos últimos 10, 20 anos, quando também começou a haver uma forte presença afrodescendente na arte brasileira, coisa que antes não havia. Era difícil encontrar, fora do artesanato, artistas contemporâneos negros 20 anos atrás. Isso melhorou muito. Apesar dos problemas que persistem no Brasil, houve avanços sociais e culturais nesse segmento. Uma coisa enriquecedora aconteceu nos últimos 10 anos.

Por que melhorou?
Meu primeiro posto de trabalho foi na Nigéria, nos anos 1970, e na época a produção contemporânea era muito colada no artesanato. Não existia praticamente colecionismo nos anos 1970. Agora, tem colecionadores, galerias, feiras de arte e até umas bienais. Além disso, houve muito intercâmbio com Paris, Londres e Nova York, vários artistas africanos puderam estudar na Europa e nos Estados Unidos.

Você falou que no Brasil, há 20 anos,era difícil achar artistas contemporâneos negros. O que mudou?
Foi muito difícil para eles, mas eles conseguiram conquistar seu espaço, conseguiram ir para escolas de arte. Hoje tem gerente de galeria negro em São Paulo, por exemplo. Isso era raro há alguns anos. Ao contrário da cultura popular, da música e até do cinema, nos quais tinham uma maior participação.
 
 
 
 
 
 
 
 

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