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Correio Braziliense

Canais de humor fazem sucesso na web; conheça alguns deles

A internet abre espaço para uma série de canais que exploram temas e abordagens não contemplados pela tevê


postado em 09/04/2018 07:35

Youtuber Whindersson Nunes(foto: Beto Moraes/Divulgação)
Youtuber Whindersson Nunes (foto: Beto Moraes/Divulgação)

As plataformas digitais se transformaram num grande palco para humoristas e comediantes brasileiros. Cada vez mais bem elaboradas, as produções audiovisuais cômicas compartilhadas on-line tornaram-se alternativa à televisão, que, por décadas, dominou a difusão de programas e seriados voltados ao humor. Mas também é possível fazer virais com simplicidade de um take por meio de um smartphone. Tecnologia e bom-humor formaram um casamento de sucesso no país.

Uma pesquisa da Google Preferred revelou em 2017 que os canais de comédia brasileiros lideraram a audiência no YouTube. O estudo afirma que os seis principais canais humorísticos (Whindersson Nunes, Porta dos Fundos, Parafernalha, Christian Figueiredo, Mr Poladoful e 5inco Minutos) ultrapassam, juntos, a faixa de 58,7 milhões de inscritos, dos 98 milhões de usuários.

A crescente popularização do acesso à internet no Brasil — o número de usuários saltou de 7,2 milhões em 2005 para 39,3 milhões em 10 anos, segundo o IBGE — democratiza não só o consumo de conteúdo audiovisual, como também a produção.

“A narrativa visual feita na internet herda um formato que vem da tevê, utilizando-se de técnicas que a gente já conhecia. Mas, com a internet, entram outras possibilidades, o indivíduo comum criando”, explica Fabíola Calazans, pesquisadora de tecnologias da comunicação e da informação e professora na Universidade de Brasília (UnB), que acredita numa complementaridade entre as duas plataformas.

“Como a internet é um ambiente democrático, todos estão ali mostrando o próprio trabalho, resolvi mostrar o meu também”, comenta Whindersson Nunes. É nesse terreno propício para a descontração que se construiu a figura de Whindersson, personalidade considerada mais influente de 2017 do meio audiovisual televisivo ou on-line. A lista Os influenciadores de 2017 — Quem brilha na tela dos brasileiros, encabeçada pelo piauiense, foi desenvolvida pelo Instituto Provokers, empresa especializada em pesquisa de mercado, e conta com outras três personalidades construídas na internet (Julio Cocielo, Felipe Castanhari e Felipe Neto) entre os 10 maiores influenciadores do Brasil.

Com humor compartilhado nos meios digitais, Whindersson desbancou, como influenciador, grandes figuras da televisão. “Hoje vejo a internet como a minha segunda casa, uma porta para meus objetivos”, comenta o humorista. “Eu nunca pensei em ir para a tevê, mas se surgirem convites, claro, vou analisar com muito cuidado cada um deles”, completa Whinderson, que acumula impressionantes 29 milhões de assinantes no canal que leva o nome dele.

As redes sociais serviram de trampolim para diversos artistas chegarem a um almejado espaço nos programas televisivos. Hoje, comediantes encontram na internet o ambiente ideal para consolidar os trabalhos e arejar o humor no Brasil.

Para Thiago Romariz, gerente de conteúdo do Omelete, os quadros vinculados às plataformas digitais cativam mais o público jovem, interessado em identificação. “Na internet, os humoristas conseguem conversar individualmente com cada audiência, de forma mais pessoal”, afirma. Ele acredita que o conteúdo cômico desenvolvido nas redes vem influenciando até mesmo meios tradicionais. “O stand up comedy, e mesmo programas de tevê, como o Tá no ar: A TV na TV, emulam muito do que é feito na internet”. Ian SBF, diretor e produtor dos canais de vídeo on-line Porta dos Fundos e Anões em Chamas e de quadros da Rede Globo, observa que a internet abre espaço para que se fale sobre assuntos variados.

“O Porta (dos Fundos) fez com que a tevê criasse conteúdos diferentes, se reinventasse”, explica Ian. Mesmo depois do estrondoso sucesso na internet (são quase 14 milhões de inscritos no canal), o Porta dos Fundos abriu os horizontes, passando também a ser exibido na televisão fechada. “Dessa forma podemos alcançar um novo público, que só teve acesso ao Porta graças ao canal Fox. São nichos diferentes que assistem à tevê e à internet”, compara Ian.

 
Segmentação de público


Menos abrangentes em públicos do que Porta dos Fundos e Whindersson Nunes, outros canais fazem um tipo de humor segmentado. Romariz, do Omelete, é responsável por um dos maiores sucessos recentes do YouTube. A convite dele, membros do canal TV Quase prepararam o Choque de Cultura, transmitido pela Omelete. “É um programa bastante refinado, com um roteiro muito bem trabalhado, apesar de poder parecer bobo”, analisa. Estreado em 2016, o pseudo talk-show Choque de Cultura satiriza a figura do cinéfilo e do crítico cinematográfico da forma mais esdrúxula possível: quatro “motoristas de van” se reúnem para debater cinema. São eles “os maiores nomes do transporte alternativo”, Rogerinho do Ingá (Caito Mainier), Julinho da Van (Leandro Ramos), Maurílio dos Santos (Raul Chequer) e Renan (Daniel Furlan). O grupo chegou a ter mais de 2 milhões de visualizações em um único vídeo.



“Não precisamos fazer algo para todo mundo entender, como é na televisão”, diz Caito Mainier, o ator que interpreta Rogerinho, personagem- apresentador do Choque de Cultura e que caracteriza o programa como “ácido, artístico e respeitoso a temas sensíveis — apesar de nem sempre acertar”.

“A tevê restringe mais o conteúdo. Na internet, o pessoal que procura nossos programas entendem as piadas de antemão, tem mais identificação”, comenta Caito, que vê “piada” como elemento secundário no roteiro de Choque de Cultura. “Gostamos mais da ideia de trabalhar camadas. Fazemos um humor de referências que não precisam ser conhecidas e tornam os personagens mais próximos da realidade, apesar de ter muito absurdo”.

A segmentação de público proporcionada pela internet, acredita a pesquisadora Fabíola Calazans, se dá por questões estratégicas de direcionamento de conteúdo. “Com as tecnologias capazes de analisar tendências de consumo diferentes, é possível oferecer produtos diretamente a potenciais compradores”.

A expectativa, portanto, é de que as produções, sobretudo da internet, sejam direcionadas cada vez mais a nichos específicos, explorando assuntos como forma de identificação e de estratégia comercial.


Programas de humor inusitados para assistir na internet


Gzaiden
Na internet, um dos primeiros canais humorísticos a fazer sucesso veio com apenas meses após o surgimento do YouTube. Utilizando-se de qualidade de imagem e de som precários compensados pela criatividade de sobra, o brasiliense Guilherme Zaiden foi um dos primeiros expoentes da internet, antes sequer que o termo “youtuber” qualificasse a atividade do rapaz, em 2006. O primeiro e maior sucesso dele foi satirizando a onda da época: Confissões de um Emo. Após uma década sem postagens, Zaiden voltou a alimentar o canal (GZaiden) com espaçados intervalos entre vídeo e outro.
 
O último programa do mundo
Quase tudo pode acontecer em qualquer instante do caótico O último programa do mundo. Com pensamentos inspirados e cínicos, Daniel Furlan comanda o show em que os convidados são, por regra, desinteressantes. O cartunesco Vice-Cônsul de Honduras (Juliano Enrico) é o ajudante fluente em língua nenhuma do apresentador. Surgido meses antes da antiga MTV Brasil fechar as portas em 2013, o programa foi exportado para a internet e ganhou novos episódios este ano no canal TV Quase do YouTube.
 
aNellysando
Em uma visita ao Museu de Arte Moderna, o ator Joel Vieira gravou por lá o que seria a visita de sua mãe à exposição. O resultado foi o viral com o título Minha mãe numa tarde no museu”, que angariou mais de 1,5 milhão de visualizações na página do Facebook de Joel, aNellysando, e chamou a atenção para o trabalho dele, que também é dublador da Cartoon Network, encarna com carisma ímpar personagens diversos e reinterpreta vídeoclipes e propagandas
 
A sociedade da virtude
A animação brasileira feita para a internet satiriza com acidez o universo dos super-heróis. Ian SBF, produtor do Porta dos Fundos, criou o desenho, que primeiro surgiu se chamando “society of virtue”, com os episódios dublados em inglês, para depois vir com a versão em português. Apesar de os personagens serem super-heróis, as aventuras que se passam no desenha não são para crianças.
 
Vai Curupira
“Somos dois tetraplégicos, medalhistas paralímpicos de tênis de mesa e doidos”, é como se definem os youtubers brasilienses Guilherme Costa e Aloisio Lima no canal Vai Curupira. Com bastante humor, os atletas quebram tabus e se permitem brincar com a própria deficiência — a começar pelo nome do canal. Os vídeos do programa vão ao ar semanalmente na página.

* Estagiário sob supervisão do editor José Carlos Vieira

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