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Correio Braziliense

Iniciativa usa o teatro para ajudar jovens em situação de risco em Brasília

Projeto criado por Núbia Santana muda a realidade de jovens egressos de medidas socioeducativas


postado em 10/04/2018 06:42

O espetáculo 'O grito' é resultado das oficinas de teatro e fala da realidade de quem passa pelo sistema carcerário brasileiro(foto: Projeto Nota 10/Divulgação)
O espetáculo 'O grito' é resultado das oficinas de teatro e fala da realidade de quem passa pelo sistema carcerário brasileiro (foto: Projeto Nota 10/Divulgação)
 
 
Em cena, personagens da vida real ocupam o palco sem receio de se misturar com a ficção. No espetáculo O grito, a realidade dura e sufocante dos presídios brasileiros ganha espaço e protagonismo pela voz de um pequeno elenco, aprendiz na criação teatral e experiente nas guerras urbanas que desenrolam no interior das periferias. 

A convivência nos bastidores de gravação do filme Pra ficar de boa, em 2008, mudou o olhar e a perspectiva da atriz, cineasta e diretora Núbia Santana em relação aos jovens que cumprem medidas socioeducativas e, na tentativa de oferecer novas possibilidades de transformação para quem perde seu espaço na sociedade, surgiu o Projeto nota 10.

Depois do longa-metragem, Núbia recebia constantemente ligações dos jovens que conheceu através da arte e o pedido deles era sempre o mesmo: um emprego. Assim, a ideia é promover uma revolução constante de afeto e oportunidade, criando novas perspectivas e possibilidades de vida por meio da expressão artística.   “Eles me pediam um trampo para não acabar voltando para o crime e eu pensava em como arrumaria um emprego para meninos com aquele histórico. Logo, surgiu a ideia de montar uma escola de arte com o foco de reinserção no mercado de trabalho”, conta a atriz.

A apresentação do espetáculo é resultado de uma das oficinas do projeto, que conta com diferentes frentes artísticas, como música, teatro, grafite, percussão, cinema e dança. No palco, entra em cena a vontade que cada um daqueles jovens, e a própria diretora, tem de gritar, de se fazer ouvir frente ao poder público. 

A partir dessa perspectiva o teatro se consagra como um importante espaço de visibilidade e projeção de problemas que não encontram outro local para reverberar. “O grito fala de revolta, sonho, angústia, realidade. É um misto de sensações interiorizadas em todos nós e oportunamente mostradas na peça”, lembra Núbia.

A equipe atual do projeto conta com quarenta e cinco membros, além de outros que aguardam por vaga para participar. No espetáculo, ganha destaque o universo coercivo em contraste com os dramas humanos vividos por cada personagem, criado a partir da experiência real dos atores. 

Em um momento da apresentação, cada um desses jovens consegue sair do espaço do presídio. Em uma quebra da quarta parede do teatro, os intérpretes se separam de seus personagens e, olhando nos olhos do espectador, contam um pouco de sua trajetória real, passando pela infância na periferia, o primeiro envolvimento com os crimes e o desfecho no sistema carcerário. 

“Depois do afeto, a arte foi o instrumento mais acessível para chegar até esses jovens. A criação artística é um poderoso mecanismo de ressocialização”
Núbia Santana

Com a experiência criativa, um novo horizonte se expande e a presença nos palcos ajuda esses homens a recuperarem a própria autoestima e a confiança para buscar novas possibilidades de sobrevivência.

Ao tratar de uma realidade recorrente da periferia de Brasília, o espetáculo contribui para uma reflexão sobre os relacionamentos abusivos a partir da discriminação e da falta de apoio de suas famílias e da sociedade. 

Núbia conta que a iniciativa da montagem surgiu a partir de conversas e debates entre jovens moradores das periferias da cidade, que perceberam a urgência de falar sobre seus problemas. Além da cineasta, o elenco conta com Mateus Alefe, Cleiniston de Jesus (NEST), Magley Martines, Alefe Luiz, Felipe Orlando, Esron Lamounier e Ailton Junior.

A temporada atual transitou por 12 unidades de internação do Distrito Federal, onde os espectadores interagiam, aplaudiam de pé e encontravam espaço para discussão depois das apresentações. “Esses meninos, que costumam estar invisíveis, querem ser vistos, têm essa necessidade. Antes era o palco da violência, hoje é o palco da cena. Eu posso dizer que o grau de ataque da arte, do afeto e da oportunidade é fulminante”, destaca Núbia.

As histórias de transformação e resgate em tempo limítrofe se acumulam entre Núbia e os participantes do Projeto nota10. O estudo, a técnica, o treino e a reflexão que partem da criação artística se reúnem como um poderoso instrumento de mudança e a linha entre arte e ficção é sempre muito fina nos palcos. 

 O teatro surge como um espaço possível para que se façam ouvir sem preconceitos e mostrem que a criação, a oportunidade e o trabalho constante podem mudar vidas.

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