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Correio Braziliense

A francesa Camille Bertault e o carioca Ed Motta fazem show hoje na cidade

A dupla sobe ao palco do CCBB para um show de jazz pelo projeto Admirável Música Nova


postado em 10/04/2018 06:58 / atualizado em 10/04/2018 10:27


 
Ela lutava para conseguir uma pauta para cantar no bistrô da esquina quando decidiu postar no Facebook um vídeo no qual cantava, com suas próprias palavras e com sons vocais, os improvisos do sax de John Coltrane em Giant steps. Resultado: mais de um milhão de visualizações e dois compartilhamentos, chave de Wayne Shorter (que integrou o quinteto de Miles Davis) e Roy Hargrove. A francesa Camille Bertault, que até então se debatia para construir uma carreira na nada óbvia cena do jazz parisiense, se deparou com o convite da novaiorquina Sunnyside Records para gravar o primeiro disco. Resumindo o que milhões de internautas perceberam e o que a indústria se apressou em comercializar: a voz da garota é especial e seu alcance e preparo vocal são excepcionais numa indústria de pouca técnica e muita produção. E tudo isso casa direitinho, segundo ela, com a voz de Ed Motta. Os dois sobem ao palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) hoje para show do projeto Admirável Música Nova, que vai receber, até o final do mês, Ana Cañas, Vítor Araújo, a PianOrquestra e Negro Léo.

Essa é a segunda apresentação de Bertault e Motta. Eles estiveram juntos em Belo Horizonte, há um mês. “Ele tem uma voz imensa, vamos poder casar as duas vozes juntas”, avisa a francesa. Cantar jazz em francês não é nada confortável. Compor, então, nem se fale.

Se qualquer “baby don’t go” soa melodioso e redondo em inglês, o mesmo não acontece na língua de Molière. Corre-se o sério risco de se escorregar na pobreza literária. É o que pensa Camille, que acredita ser melhor na escrita de letras do que na técnica vocal. “Em inglês, podemos dizer muito mais coisas com menos palavras. Com o francês, isso não acontece, a sonoridade é menos arredondada, talvez menos rítmica”, avalia. “O que gosto, enquanto cantora, é de escrever meus textos e isso é algo importante para um cantor. E para isso, é importante viver emocionalmente a sua própria língua.”

Para o CCBB, Camille promete um repertório de clássicos, o improviso de Coltrane que a tornou conhecida e alguns duetos com Ed Motta. Ela não incluiu composições próprias, apenas interpretações de clássicos para os quais, muitas vezes, escreve letras e embarca nas transcrições de improvisos vocais. Gravado nos álbuns En vie (2016) e Pas de géants (2017), o trabalho autoral de Camille é celebrado como uma renovação da cena jazzística francesa. “É uma cantora incrível, que descobri pela internet cantando a versão do Giant Steps e fazendo toda a parte da melodia e do solo com uma letra em francês e com alto nível de destreza e técnica. Ela é uma das grandes vozes dessa ideia de usar a voz como instrumento”, avisa Ed Motta.

Sucesso na rede

A experiência com Coltrane funcionou tão bem que Camille decidiu dividir nas redes sociais outros trechos do que chama de transcrições: colocar palavras em músicas instrumentais e trabalhar a voz nos improvisos. Obras de Brad Mehdlau, Hermeto Pascoal e Herbie Hancock entraram para o repertório. Em Pas de géants, ela incluiu até uma transcrição para uma das Variações Goldberg, de Johann Sebastian Bach. Vale lembrar que a artista tem sólida formação em piano clássico e é filha de um pianista de jazz. Ela gosta de postar vídeos desses exercícios no Facebook.

“É algo que faço há muito tempo, como um trabalho pessoal, e notei que as pessoas adoram, mas também improviso minhas próprias coisas, escrevo, componho. É realmente um trabalho pessoal e, às vezes, divido porque tenho a impressão de que as pessoas gostam, mas tento fazer com que não me identifiquem apenas com isso”, avisa. O sucesso do post de Coltrane, ela credita ao caráter inusitado da interpretação. “Essa é ‘a’ obra difícil para os jazzman e o improviso de Coltrane é muito longo. Ver alguém fazer um vocalize é algo novo, normalmente deixamos isso para os instrumentistas. Era novo e impressionante, por isso fez sucesso.” Na letra composta para Giant steps, Camille fala de virtuosismo, concentração e da própria dificuldade da empreitada.

Para Ed Motta, que lançou Perpetual Gateways em 2016 com canções inteiramente cantadas em inglês e já prepara novo disco para este ano, há vários pontos de convergência entre sua produção e a de Camille. “Os pontos principais são justamente a liberdade no uso da voz como instrumento e não só como um veículo do texto”, aponta.

Admirável Música Nova
Com Camille Bertault e Ed Motta. Hoje, às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB SCES – Setor de Clubes Esportivos Sul Trecho 2 Trecho 02 Lt 22)

 
 
 
TRÊS PERGUNTAS / Camille Bertault

A música francesa e o jazz têm uma história antiga, mas hoje na música contemporânea francesa não é muito evidente encontrar cantoras de jazz. Como é esse panorama na França hoje?
Tenho a impressão de que, cada vez mais, as cantoras francesas assumem cantar em francês. É uma coisa muito particular, porque o jazz é, em geral, cantado em inglês e é difícil impor o francês. Mas tenho a impressão de que é algo que se faz cada vez mais. O nível das cantoras é muito bom, temos a sorte de ter mais de 15 conservatórios em Paris e há classes de jazz que permitem aprender, ter aulas como se fossem instrumentistas. Isso influencia as cantoras em Paris.

Qual a maior dificuldade e o maior desafio de cantar e compor jazz?
O jazz nasceu entre os americanos, e todos os standarts eram em inglês. Nosso ouvido espera a sonoridade em inglês e temos dificuldade em impor outra coisa. Em francês, não podemos nos permitir ter palavras não trabalhadas. E isso, em inglês, funciona bem. No francês, é preciso um trabalho literário e é essa a dificuldade do jazz, é disso que gosto. O trabalho literário se impõe e isso me interessa.

Pas de géant é um disco diferente de En vie, muito mais autoral, mais dramático e traz o improviso do Coltrane. Foi um passo de gigante pra você?
Eu quis realmente fazer um disco que parecesse comigo, que não fosse apenas de jazz, não queria que pertencesse a um estilo particular, mas que reunisse todas as influências, o teatro, a canção francesa, Gainsbourg, a comédia musical, o jazz, a música brasileira. Um assemblage de muitas coisas. E deu nisso.
 
 
 
 
TRÊS PERGUNTAS / Ed Motta
 
Perpetual Gateways é todo cantado em inglês. Compor em inglês é uma necessidade? 
São as primeiras letras que fiz sozinho em inglês. No próximo disco, que vai sair este ano, todas as letras são minhas também. Me pareceu um pouco mais fácil de compor em inglês, talvez pela constância de escutar o repertório cantado em inglês o tempo inteiro na minha vida. Acho que minhas canções têm uma sonoridade mais interessante no inglês, elas obedecem mais à estética natural na qual elas foram criadas.

Como você encara o mercado internacional?
O mercado internacional no meu caso não é uma alternativa para a falta de mercado no Brasil , tenho um mercado no Brasil muito bom, tenho rodado o país inteiro com o Baile do Flashback, que só falta visitar Brasília. Esse show tem dado muito certo, com canções dos anos 1970 e 1980, sucessos, e as pessoas ficam muito emocionadas. E para o mercado internacional, eu trabalho um tipo de música ligada ao jazz, a uma música um pouco mais experimental para a qual, no Brasil, existe público, mas é um público mais restrito. Então são mercados complementares para minha carreira.

O que te guiou em Perpetual Gateways?
É um disco que tem um pouco de tudo que ouvi na vida e que fiz, tem um pouco do soul, do funk, do jazz e isso tá impresso no disco. É continuar insistindo na qualidade, em ser sincero com os princípios de música. Isso que é o libertador na arte.

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