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Correio Braziliense

'O porteiro' utiliza o humor para contar histórias cotidianas no teatro

O texto é escrito por Paulo Fontenelle, também diretor da peça interpretada por Alexandre Lino


postado em 11/04/2018 07:00 / atualizado em 10/04/2018 19:05

 Espetáculo O porteiro recria nos palcos histórias e experiências vividas em condomínios das grandes cidades(foto: Janderson Pires/Divulgação)
Espetáculo O porteiro recria nos palcos histórias e experiências vividas em condomínios das grandes cidades (foto: Janderson Pires/Divulgação)
 
O olhar atento e a quantidade de histórias acumuladas por profissionais que trabalham em portarias de condomínios de diferentes cidades do Brasil incentivaram a criação do espetáculo O porteiro. Com humor leve e cotidiano, a montagem é inspirada em histórias reais que ganham nova vida nos palcos. O espetáculo investe em mostrar outros protagonismos em cena e leva o público a enxergar um ponto de vista diferente.

O texto é escrito por Paulo Fontenelle, também diretor da peça, que é protagonizada por Alexandre Lino. A dramaturgia é montada a partir de histórias coletadas em entrevistas a vários porteiros nordestinos que deixaram sua cidade natal em busca da realização de seus sonhos no Rio de Janeiro ou em  São Paulo.

A trajetória de Alexandre Lino no teatro está ligada ao interesse em potencializar histórias simples e cotidianas, além de levar ao protagonismo personagens que, na vida ou na ficção, costumam ocupar o espaço de coadjuvantes. O ator conta que o teatro permite inverter essa invisibilidade e lembra que os porteiros são uma espécie de oráculos urbanos, atentos a tudo no cotidiano das cidades. “A matéria prima do meu trabalho é a realidade. Esses profissionais nos dão uma dimensão da vida como um todo e não apenas de uma realidade isolada”, destaca.

Para ele, a potência do movimento migratório e a superação envolvida para chegar às grandes capitais impressionam e inspiram. “Ouvir suas motivações e todo percurso é como ler poesia com humor. Quem dera tivéssemos em nosso DNA a disposição dos migrantes nordestinos e a empatia dos porteiros”, afirma Alexandre.

O ator conta que seu trabalho cênico pode ser denominado como teatro do pertencimento, principalmente pela preocupação em criar um espaço de reconhecimento nos palcos. A ideia é romper barreiras, integrar e criar pertencimento.

O trabalho de pesquisa começou na portaria dos prédios onde vivem o ator e o diretor. “Intensificamos a relação com os nossos porteiros e eles indicaram amigos, assim formamos nossa colcha de retalhos. Esse trabalho é incrível, pois tudo é inspirador. Das histórias ao comportamento. O que é dito e os muitos silêncios que falavam. A euforia e a timidez”, destaca o ator, que interpreta agora o segundo monólogo da carreira.

Alexandre destaca que o espetáculo representa a busca de um diálogo com a própria existência. Recuperar o sotaque nordestino, que quase não existe mais, e se permitir entender como é possível rir e chorar ao mesmo tempo. “Não se trata de memória emotiva e sim de diálogos de vidas e realidades”. O ator, que já interpretou porteiros no cinema, na televisão e na publicidade, conta que é uma honra saber que guarda um repertório criado a partir da fonte de inspiração diária da vida de milhares de pessoas.

Inspiração real

José Ailton Ferreira é de Alagoinha, pequena cidade localizada próxima de João Pessoa, Paraíba, e foi um dos porteiros que inspirou a criação do espetáculo. Atualmente, ele vive e trabalha no Rio de Janeiro, para onde foi há 20 anos em busca de trabalho. “Faltou emprego lá onde eu morava e um amigo me trouxe. Comecei como auxiliar de serviços gerais e depois de dois anos passei para porteiro, eu gosto muito de trabalhar aqui”, conta.

José contou ao autor da peça histórias de novos e antigos moradores, experiências divertidas e memórias inusitadas. “A peça é muito engraçada, retrata tudo com humor. Em algumas passagens, parece que estou me vendo no palco”.

Ele conta que trabalhar na portaria é como fazer parte de uma grande família e que sempre busca ajudar o morador. José assistiu ao espetáculo acompanhado de um amigo e conta que os dois riram juntos antes, durante e depois da peça.

A interação com a plateia é constante e, do palco, Alexandre conversa com os espectadores como se eles fossem os moradores daquele condomínio. “Quando ele liga para o morador ajeitar o carro na garagem, que está atrapalhando a saída dos outros, eu ri muito. Eu passo por essa cena quase diariamente”, conta o porteiro.

Alexandre Lino conta que alguns trechos da peça são transcrições literais dos depoimentos e revelam a verdade dos entrevistados. O público vira morador de uma reunião de condomínio e acaba por brincar de fazer teatro com o ator. “Os porteiros, em sua grande maioria, choram, riem e contam a história junto com seus olhares sinceros. É uma alegria geral que toma conta do teatro e depois com a grande troca de mensagens que recebo”, destaca Alexandre.

O espetáculo, que tem feito grande sucesso em diversas regiões do país, retrata a invisibilidade, a migração e a dignidade de tantos homens que trabalham como porteiros nas mais diversas cidades. O cotidiano deles e dos moradores, as experiências, diálogos e transformações são retratados com muito humor e leveza. A ideia é mostrar que o humor pode ser feito de maneira respeitosa e profissional, tornando-se ainda mais divertido e prazeroso de acompanhar nos palcos.

“Esse trabalho é incrível, pois tudo é inspirador. Das histórias ao comportamento. O que é dito e os muitos silêncios que falavam. A euforia e a timidez”
Alexandre Lino, ator

O porteiro
No Centro Cultural Brasília (601 Norte, ao lado do Serpro, via L2), de 13 a 15 de abril; sexta e sábado, às 21h; e domingo, às 20h. Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada). Não recomendado para menores de 16 anos.

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