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Correio Braziliense

Cédric Ido fala ao Correio do filme Château-Paris

O longa é recheado de traços africanos, nos arredores de metrô


postado em 11/04/2018 07:30

Cédric Ido, diretor de cinema:
Cédric Ido, diretor de cinema: "Pelo cabelo, as mulheres se revelam fortes" (foto: Zucchi Enzo/Divulgação)


Aspectos de transformações radicais nas coloridas e movimentadas ruas dos arredores da estação de metrô Château d´Eau são pontilhados a cada instante da trama do longa-metragem Château-Paris, em cartaz na capital. Num império urbano em que prepondera um tipo de comércio informal, que muito faz lembrar vielas do dia a dia brasileiro, o filme se detém na movimentação de uma galeria de personagens de origem africana, além de muitos imigrantes. “Não proponho um cinema reivindicativo. Realmente, investi em retratar uma realidade que conheço. Se trata das minhas raízes, e faço questão de explorá-las. Não sou de levantar a bandeira dos filmes destinados a público negro. Inicialmente, antes de mais nada, meu princípio é o da busca de uma história com a qual as pessoas possam se identificar”, defende o cineasta Cédric Ido, em entrevista ao Correio.

Aspectos diferenciados da Paris dos cartões-postais se alastram no filme Château-Paris, codirigido ainda por Modi Barry. Estrelado por Jacky Ido (irmão do diretor, e lembrado por filmes como Bastardos inglórios, de Tarantino), o longa mostra, em forma de crônica despojada, os pequenos afazeres e desejos do jovial Charles, que tem como trabalho o aliciamento de clientes para salão de beleza das redondezas. “Desde sempre, frequentei muitos salões e barbearias, a fim de conseguir cortes de cabelo apropriados para situações especiais. Há certa representação histórica, no filme, e acho que também ressaltamos a condição social de um grupo de pessoas, ao longo do filme”, observa Cédric Ido.

A exemplo do curta Das raízes às pontas e do filme venezuelano Pelo malo, boa parte dos anseios de personagens toca questões relacionadas a aparências. “Pelo cabelo, as mulheres percebem uma forma de se revelarem mais fortes. De certo modo, elas se impõem — assumem o próprio cabelo. Assumem um cabelo, livre de perucas e afins. Cabelo grande e dreadlocks têm lugar na sociedade. A reaproximação com laços étnicos traz a reapropriação de identidade”, aponta o cineasta. Cédric Ido conta que começou a prever imagens e esboçar situações de narrativa, ainda como criador de quadrinhos, de modo autodidata. Muitos storyboards que definiram cenas de Château-Paris tiveram o respaldo do ilustrador Ido.

Entre rivalidades de grupos de malandros pelas ruas de Paris e o comércio que lança moda e tendências de empoderamento, o diretor conta que o longa foi pautado pelo senso de organização, comum a muitos dos ambulantes e afins com relações intensas na lida com rendez-vous (ponto de encontro), a cada esquina. “Para a realização, contratamos alguns supostos vigaristas, que desenvolvem, no cotidiano, jornadas ao estilo marreteiro. Mas, é tudo muito diferente daquilo que o senso comum faz crer. Não há contravenção, a todo momento, nas ruas. Há, por exemplo, um acordo com a prefeitura, e há áreas, livres das drogas, nas quais a polícia nem opera. Nesses bairros, há, no máximo, redes de prostituição chinesa; mas salões e arredores dos rendez-vous são completamente seguros”, avalia Cédric Ido.

Frustração e perspectivas

Porta de acesso para os diretores estreantes Ido e Modi Barry, Château-Paris, nas bilheterias francesas, trouxe uma via de mão dupla, com reconhecimento, mas dose de frustração. “A repercussão foi positiva, mas a verdade é que se tratou de um lançamento modesto. O nosso distribuidor local, pouco antes do lançamento, foi à bancarrota. Foi algo frustrante, pois houve um burburinho muito bacana e nossas expectativas já estavam bem delineadas. Vimos um ótimo potencial ser prejudicado”, lamenta o diretor.

Participante do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul — Brasil, África e Caribe, ano passado, no Rio de Janeiro, Cédric Ido ficou empolgado com a afinidade e o potencial de público brasileiro. “Notei que vocês têm real interesse em buscar os traços de culturas formadoras, como é o caso da africana. Reconheci, no Brasil, um país multicultural, e me deu prazer notar que era uma realidade que se aproximava à dos meus personagens, como se fosse nosso filme projetado, na vida real e em larguíssima escala — como se o povo representasse muitos de meus personagens”, comenta o diretor.

Cinema de matizes 

Diretor engajado e ator de filmes, o africano Cédric Ido conta que, em Château-Paris, pretendeu fazer jus ao histórico de vida que ele carrega. “Queríamos  personagens que não fossem brancos, sem a necessidade de justificativa que comumente é empregada para gerar realizações de cinema com predominância de personagens negros. O público estava aberto, na França, para receber nossos personagens. Pantera Negra, com estrondoso sucesso, é a prova de que todo o público pode se identificar, sem fazer questionamentos quanto à cor da pele”, observa.

Se o codiretor Modi Barry tem passagens interessantes como a da participação na equipe do longa Amém (2002), Cédric Ido não fica atrás: ainda criança, viu a República do Alto Volta ser transformada no país africano Burkina Faso, sob ordens do militar Thomas Sankara, que revolucionou a estrutura daquele país. “Por um traço de personalidade, busco minhas origens e abordo um cinema impregnado de raízes. Além disso, sou eclético. A minha chave de entrada para o cinema, por exemplo, vem do consumo de obras orientais”, enfatiza.




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