Publicidade

Correio Braziliense

Dado Villa-Lobos: o rock não pode parar

Dado Villa-Lobos conversa com o Correio sobre dois lançamentos e faz um balanço da carreira


postado em 14/04/2018 07:31

Dado Villa-Lobos:
Dado Villa-Lobos: "Não acredito mais na possibilidade deste país, neste conceito de país, sou anarquista, desgovernado, sem estado, sem pátria" (foto: Fernando Schlaepfer/Divulgação)

 
O sombrio Brasil cantado pela Legião Urbana no clássico Que país é este?, na visão de Eduardo Villa-Lobos, o Dado, ex-guitarrista da banda brasiliense, foi superando negativamente, em muito, pelo Brasil de hoje. “Não acredito mais na possibilidade deste país, nesse conceito de país”, afirma enfático o músico e produtor, em entrevista exclusiva ao Correio.

Com o fim da Legião Urbana, Dado não paraou de trabalhar. Desde então, mantém-se em ininterrupta atividade, gravando discos, fazendo shows, lançando livro, produzindo e apresentando programa na tevê. Seus últimos lançamentos foram os álbuns O passo do colapso e Exit, que saíram pelo selo Rockit!, criado por ele.

Sem ser nostálgico, Dado fala com emoção do passado legionário e demonstra gratidão por Renato Russo. “Sou músico, compositor e artista por conta dele”. Renato partiu, mas deixou seu legado inquestionável na música brasileira”. Fiel ao lema proposto pelo eterno roqueiro, o guitarrista proclama: “Seguir em frente, sempre em frente”.



Entrevista / Dado Villa-Lobos


O disco Passo do colapso foi lançado,inicialmente, há cinco anos, no formato digital. Por que só agora saiu no formato físico?
Na verdade, há cinco anos, o profético Passo do colapso saiu no que era considerado o novo paradigma da indústria da música, o chamado streaming das plataformas digitais, seguindo então a tendência mundial.


As músicas desse seu segundo disco foram todas criadas em 2012?
Foram compostas ao longo de 2011 e 2012, parcerias com meus cúmplices Nenung, Fausto Fawcett, Marcelo Guimarães, China, Junior Black, Beto Callado, Cristina Braga e o já saudoso Eduardo Galeano. Que time!


Com a passagem do tempo, a sonoridade proposta para esse trabalho ainda lhe agrada?
Muito, acho que continua fazendo sentido, sendo simples, singela com pitadas experimentais alternativas e ao mesmo tempo pop e com esse enredo absolutamente atual.


No álbum há participações diversas — de Paula Toller a Mallu Magalhães, de Bi e Barone a Fernando Catatau, do Cidadão Instigado; sem esquecer Fausto Fawcet e o gaúcho Nenung. A ideia era ser um disco de galera?
Todos grandes amigos que não negam fogo na hora de chegar junto, adoro a ideia dessa comunhão, cúmplices eternos no reino musical que deixaram suas marcas nesse registro. Não sou ninguém sem essa rapaziada. Ô sorte!


Imagino que alguns desses músicos participaram do Estúdio do Dado, programa que você produzia e apresentava no Canal Bis. Como foi a experiência da comandar um programa de tevê?
Foi superbacana! Demais! Estive junto de grandes nomes da música brasileira, de Caetano e Gil a Benegão, Otto e Ney Matogrosso. Aprendi muito com a experiência louca da busca do repertório em comum. Foi intenso e muito divertido no final das contas. Pena que não pude dar sequência, em função da agenda louca da tour comemorativa Legião 30 anos.


Exit, do final de 2017, traz 10 canções. Elas foram compostas mais recentemente?
Todas escritas em 2016 e gravadas em 2017. Experiência sobrenatural com Nenung. Juntos compomos praticamente o álbum todo em três dias.


Com esses dois discos — Exit e Passo do colapso — em que tem parceiros diversos, você busca dissociar do legado da Legião?
Essa possibilidade de dissociação é inexistente. Pelo contrário, sigo exatamente o que buscávamos na Legião: seguir em frente, sempre em frente, novas ideias, parceiros, atmosferas, em frente, sempre.


Outro dos seus projetos bem-sucedidos foi o selo Rockit! Que avaliação faz da incursão nessa área?
A ideia sempre foi dar fomento à cena musical alternativa, que definitivamente é desprovida de espaço e subsistência no nosso cenário musical. Sempre foi apostar na diferença, qualidade artística e entretenimento alternativo. Estamos aí, de volta agora na resistência digital com Marcelo Callado, Negro Léo, Meia Banda, Opala, a garota do cerrado Sarah Abdala, Antonio Neves, Guache, 2600, Galega, Dado Villa-Lobos e esperando mais por vir. Viva a resistência!


O conteúdo do livro Memórias de Legionário, lançado há dois anos, na sua visão é irretocável? 
Claro que não! Irretocável do meu ponto de vista... Minhas memórias, minha percepção do tempo que passou, um simples registro histórico do Brasil através da história da minha banda. Como vemos hoje e sempre a história tem diversas histórias.


Que lembranças guarda da relação musical com Renato Russo?
As melhores sempre. Renato foi esse grande cara, inesquecível, onipresente sempre — sou músico, compositor, artista por conta dele. Partiu, mas deixou seu legado inquestionável na música brasileira.


O Correio Braziliense publicou reportagem em que Carmem Teresa (irmã de Renato), mesmo considerando importante a atuação do Retiro dos Artistas, criticou o fato do Giuliano Manfredini, filho do roqueiro, fazer um bazar com roupas e objetos do Renato, cuja renda será destinada à instituição de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Poderia opinar sobre isso? 
Não teria, fosse eu herdeiro, esse impulso de leiloar os pertences de meu falecido pai, sendo ele quem foi. Renato tinha vinis clássicos, grandes edições literárias, grandes títulos.


Quais são seus planos e projetos para 2018?
Depois da copa, começar a tour do Exit e seguir na resistência. Ser avô, em novembro/dezembro, e aguardar mudanças.


O Brasil de hoje não lhe parece ainda pior  do que o cantado pela Legião em Que país é este?
Não acredito mais na possibilidade deste país, neste conceito de país, sou anarquista, desgovernado, sem estado, sem pátria. Estou, no momento, completando o álbum (de figurinhas) da Copa.




Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade