Publicidade

Correio Braziliense

Coproduções entre Brasil e outros países movimentam mercado cinematográfico

Cada vez mais adotadas, as produções garantem ganhos significativos à cena da sétima-arte


postado em 17/04/2018 07:11 / atualizado em 17/04/2018 15:15

Zama, uma coprodução entre Brasil e Argentina, terá exibição, amanhã, no Cine Brasília, às 18h40(foto: Reprodução/Internet)
Zama, uma coprodução entre Brasil e Argentina, terá exibição, amanhã, no Cine Brasília, às 18h40 (foto: Reprodução/Internet)
 
 
Atualmente, com um filme em cartaz na capital — o drama de época Zama —, a renomada diretora argentina Lucrecia Martel poderá estar em Brasília para rodar futuro filme. Para além do desejo da artista de registrar Brasília, um componente pode servir de facilitador: o sistema de coprodução, uma plataforma capaz de unir talentos de países que se associam com vistas a apoios (mútuos) artísticos e financeiros. “Sem o acordo de coprodução entre o Brasil e a Argentina, que resultou na produção de Zama, talvez nem tivesse havido a distribuição do novo filme de Martel no Brasil, mesmo com o peso do nome dela, dona de filmes como A mulher sem cabeça (2007)”, observa a produtora Vânia Catani, uma agente ativa na coprodução de Zama.

À frente da Bananeira Filmes, presente há quase 20 anos no mercado, Catani reforça que coproduzir não é apenas “se aprofundar do âmbito cultural” do país parceiro que engrene mais um filme. Depois de experiências com países como Colômbia, França e Espanha, entre outros, Vânia Catani pretende ramificar a cartela de projetos a serem filmados, com colaboração de nações como Chile, México e Portugal (país em que Miguel Gomes adaptará Os sertões). A estrutura já está nos trilhos.

“Trabalhar novos mercados e criar com pessoas diferentes são coisas que te estimulam a atravessar a burocracia que ainda existe para a ponte da coprodução”, opina. A atual incrementada nos editais de acordos bilaterais arranjados pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) favorece o empenho de artistas brasileiros no circuito. “Vale a pena, pela vontade de maior inserção no continente, no caso da América Latina.“Abre-se contato para uma natural troca de duas vias: extrapolando a questão do financiamento; técnicos e atores, por exemplo, se comprometem demais”, explica a profissional de fitas como Ardor e A festa da menina morta.

Festivais como os de Cannes (França), em mostras paralelas, costumam abraçar coproduções na constituição do programa, caso de O grande circo místico, de Cacá Diegues, incluído nas exibições especiais. Competidor por três vezes (entre as quais com Bye bye Brasil), Diegues explica que o filme só se tornou possível graças à coprodução tripartite entre Brasil, Portugal e França. “A montagem da coprodução foi indispensável para que tivéssemos o resultado da qualidade de produção que tivemos. O risco principal foi nosso, o da Luz Mágica Prods, uma empresa brasileira dirigida por mim e por Renata Almeida Magalhães. Fomos responsáveis por 70% dos custos do filme. Na participação da França acolheram-se técnicos importantes durante as filmagens e toda a finalização. Portugal, com despesas locais (a fita foi filmada na maior parte em Lisboa), totalizou os 30% restantes do orçamento”, conta.
Pela diversidade

Presenciando o que chama de um “esgotamento natural” da repercussão de comédias, pelo excesso de exploração, e a concentração de interesse por séries, além da quantidade “absurda de filmes de heróis” que, às vezes, ocupam, entre 33% e 50% das salas de cinema,  a produtora Denise Gomes percebe a plataforma das coproduções como meio de arejamento da situação. “A diversidade de gênero é uma aposta da Netflix e há lugar para o cinema diferenciado daquele de mero entretenimento, tão comum nas exibições das salas que reúnem espectadores interessados no encontro social e num filme que agrade a todos”, observa a produtora, com mais de 35 anos de experiência.

Muito esperançosa de um fluxo mais automático e mais objetivo — sem necessidade de tantas “análises e comissões” — para gerenciamento de aportes governamentais reinvestidos na cadeia do cinema, Denise Gomes tem ideais de uma realidade de coprodução avizinhada do modelo francês. “A gente vem lutando muito por liberações de Fundo Setorial mais ágeis. Neste quadro de demoras, a nova presidência da Ancine sinaliza muita vontade para imprimir, futuramente, maior agilidade. Conosco, na produtora, há um caso pontual: João Paulo Miranda foi premiado no Festival de Cannes, e está em coprodução com a França, para a criação do primeiro longa, Casa de antiguidades. Em menos de dois anos, a França está com todo aporte deles engatilhado”, explica a produtora.

Aspectos financeiros também são ponto a ser modificado, em termos estruturais, segundo Denise Gomes. “Esperamos um modelo de regulação do VoD, que, inicialmente, é determinado pelo desempenho em cinemas das produções a serem negociadas — o retorno de venda para o vídeo on demand se vale de dados proporcionais à quantidade de ingressos vendidos. É hora de mudança”, comenta. Como exemplo, ela aponta Malasartes e o duelo com a morte, enorme sucesso na tevê aberta, mas de impacto modesto nas salas de exibição.
Corrente para a frente

Como produtor majoritário ou minoritário, o Brasil, em coproduções, fortalece correntes de futuros projetos, na medida em que “viaja” e chega a públicos de outros países, pelo que detecta a coprodutora da Bossa Nova Filmes, Denise Gomes. A empresa marcou coproduções com títulos como Ausência ,Violeta foi para o céu (de Andrés Wood) e Uma espécie de família (de Diego Lerman, que rendeu boa venda para a Netflix internacional). “É muito prazerosa a relação entre produtora e talentos. Nós vamos da elaboração de projeto e trocamos experiências até o lançamento de cada filme, com participação estendida, no encaminhamento deles por festivais”, explica Gomes.

Exemplos da extensão de colaborações borbulham na Bossa Nova: O diretor Lerman, por exemplo, supervisionará o roteiro de nova série de Luiz Villaça (De onde eu te vejo) para o canal Fox. Autor do melhor filme internacional do Festival de Sundance de 2012, o chileno Andrés Wood, com a produtora, a partir do próximo mês, rodará o novo longa Araña, um thriller político que destaca a disseminação do atual nacionalismo mundo afora. Companheiro de fitas do celebrado chileno Pablo Larraín, o roteirista cubano Eliseo Altunaga também está alinhado a um dos novos projetos da Bossa Nova: integra a equipe técnica de Além do homem, longa com locações em Minas Gerais e em Paris.

“Trabalhar novos mercados e criar com pessoas diferentes são coisas que te estimulam a atravessar a burocracia que ainda existe para a ponte da coprodução”
Vânia Catani, produtora
 
Coproduções verde-amarelas
 
O grande circo místico
• Um romance move a trilha de enredos da fita. Quem explica é o diretor Cacá Diegues. “O filme é fruto de meu sonho obsessivo pela obra de Jorge de Lima e de minhas ideias sobre o cinema,  junto com talentos de três países”.

O caso Morel
• Com direção de Suzana Amaral (A hora da estrela),e participação do codiretor Jean Paulo Lasmar, o longa que adaptará título de Rubem Fonseca começa a ser rodado em agosto, tendo suporte de edital da Ancine e coprodução da Argentina El Campo Cine. No elenco, Rodrigo Lombardi e Maria Casadevall vivem a trama do artista plástico que, subitamente, se vê envolvido em crime.

Alguém como eu
• Paolla Oliveira e Ricardo Pereira vivem um casal neste filme do diretor Leonel Vieira. Na comédia romântica, a protagonista começa, obsessivamente, a devanear sobre “como seria” se o namorado tivesse o sexo alterado.
 
Fabiano Gullane é um dos profissionais brasileiros com ampla capacidade de gerir coproduções(foto: Internet / Reprodução)
Fabiano Gullane é um dos profissionais brasileiros com ampla capacidade de gerir coproduções (foto: Internet / Reprodução)
 
 
» Duas perguntas / Fabiano Gullane, produtor de Algém como eu 
 
Uma coprodução malfeita pode deformar traços de identidade de um país?
Como em qualquer coisa malfeita, quando se faz em duas partes, em dois países, sim. É como se você estivesse fazendo em parceria como no caso de uma grande construção, um projeto de saúde, um projeto de cooperação educacional. Cabe ao executor, aos produtores, garantir que o processo seja feito da forma mais harmônica possível. E se em algum momento se perceber que aquele projeto não terá viabilidade pelo mal desenho da coprodução, às vezes o melhor é dar passos para trás ou recombinar o jogo. Sem dúvida, o que assegura uma coprodução existir de uma forma positiva, de sucesso, é a manutenção de que este processo e as partes envolvidas mirem na mesma direção, queiram o mesmo filme.

A acolhida em terras de coprodutora pode surpreender?
A Gullane já coproduziu mais de 10 filmes, com muitos países: Portugal, algumas vezes (Tabu, que foi um grande sucesso), e a Itália trouxe, entre outros, Terra vermelha (presente no Festival de Veneza). Fizemos a primeira coprodução entre Brasil, China e Japão, tivemos projetos importantes com a França, entre os quais Amazonia 3D (2014), então nossa vivência de coprodução é bastante extensa e com experiências muito positivas. Tudo refletido nos coprodutores, em  parcerias adequadas, com afinidade na política de financiamento e nas pólices similares. Todas as nossas experiências sempre foram muito positivas e construtivas, claro que nunca livre de erros, mas erros corrigidos ao longo do processo. Quanto à bilheteria, Amazônia, por exemplo, vendeu 500 mil ingressos na França e cento e poucos mil no Brasil. O Tabu também foi um projeto que, na França, Alemanha e em Portugal, vendeu muitos ingressos, além de ter grande sucesso nos Estados Unidos. Acho que o maior sentimento é de que, quando o filme é feito em coprodução, ele deixa de ser um filme seu e passa a ser um filme nosso.
 
Quatro perguntas // Gustavo Rolla, assessor internacional da Ancine 
 
Existe real incremento nos mecanismos facilitadores do estabelecimento entre coproduções entre Brasil e que países? De fato, houve crescimento no acesso à plataforma de coprodução?
 
Sim, saímos de uma única obra cinematográfica em coprodução lançada nas salas de exibição em 2005 para 22 obras de coprodução internacional lançadas no mercado brasileiro em 2017. A tendência é de crescimento na medida que os produtores  brasileiros desenvolvem expertise em relações internacionais e cada vez mais ganhamos destaque nos festivais e mercados pelo mundo. É um ciclo virtuoso benéfico para nossa cinematografia. O Brasil é signatário de 12 acordos bilaterais de coprodução e de um acordo multilateral também de coprodução; esses acordos dão aos produtores brasileiros a possibilidade de coproduzir com produtores de 23 países; mas isso não quer dizer que os produtores brasileiros só possam coproduzir com esses 23 países, uma vez que a legislação brasileira permite que obras realizadas em regime de coprodução por empresa produtora brasileira em associação com empresas de outros países com os quais o Brasil não mantenha acordo de coprodução sejam também tratadas como brasileiras no Brasil, desde que seja observado o estabelecido na Medida Provisória 2.228-1, Art. 1º, Inciso V, alínea “c”). O país com o Brasil mais tem coproduzido é Portugal; o segundo país com o qual mais temos coproduzido é a Argentina e o terceiro, a França. O Brasil mantém acordos bilaterais com os seguintes países: Alemanha, Argentina, Canadá, Chile, Espanha, França, Índia, Israel, Itália, Portugal, Reino Unido e Venezuela; o acordo multilateral do qual o Brasil é signatário é o “Acordo Latino-Americano de Coprodução Cinematográfica”). Há ainda estímulos ao fomento com recursos provenientes do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) em ações bilaterais com Portugal, Argentina, Uruguai, Chile e México.
 
A Ancine pretende casar o estímulo de coproduções com medidas novas como dos estímulos criativos para mulheres e negros?
 
A política de diversidade é prática das ações da Ancine e dessa forma vem influenciando as atuações do Fundo Setorial do Audiovisual de forma transversal.
 
Qual a ordem de investimentos (do lado brasileiro) em atuais projetos em desenvolvimento, em 2017?
No ano passado foram investidos mais de R$ 30 milhões na produção de obras brasileiras em coprodução internacional.
 
Como funciona (grosso modo) "a regra dos 20% e 80%" empregados em coproduções?
Muitos dos acordos internacionais de coprodução dos quais o Brasil é signatário (mas não todos) estabelecem que a contribuição de cada coprodutor deve corresponder a no mínimo 20% e no máximo 80% do custo total de realização da obra. É importante lembrar que quando uma obra é realizada em coprodução ao abrigo de um acordo internacional, devem ser observados os termos do acordo em questão. Mas quando a obra for realizada por empresa produtora brasileira em associação com empresas de outros países com os quais o Brasil não mantenha acordo de coprodução, deve ser observado o estabelecido na Medida Provisória 2.228-1, Art. 1º, Inciso V, alínea “c”, para que a obra seja considerada brasileira:
c) ser realizada, em regime de coprodução, por empresa produtora brasileira registrada na ANCINE, em associação com empresas de outros países com os quais o Brasil não mantenha acordo de coprodução, assegurada a titularidade de, no mínimo, 40% (quarenta por cento) dos direitos patrimoniais da obra à empresa produtora brasileira e utilizar para sua produção, no mínimo, 2/3 (dois terços) de artistas e técnicos brasileiros ou residentes no Brasil há mais de 3 (três) anos.
 

 
 

 

 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade