Publicidade

Correio Braziliense

Vítor Araújo e Negro Léo se apresentam pelo projeto Admirável Música Nova

Dupla adianta que vanguarda e experimentação são palavras que definem o show, no CCBB


postado em 17/04/2018 07:00

Compositor brilhante, Vítor Araújo toca hoje em Brasília acompanhado de Negro Léo(foto: Luan Cardoso/Divulgação)
Compositor brilhante, Vítor Araújo toca hoje em Brasília acompanhado de Negro Léo (foto: Luan Cardoso/Divulgação)

Um vem da música erudita, o outro da música underground. Mas quando os dois subirem ao palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) hoje, a palavra em comum será "vanguarda". Vítor Araújo e Negro Léo se apresentam juntos como parte do projeto Admirável Música Nova, em um diálogo que começa no piano de um e termina no violão experimental do outro.

Experimentação, aliás, é prática que fascina Araújo e ideia capaz de provocar a mágica do encontro de hoje. O pianista é aquele menino pernambucano que, com oito anos, seduzia plateias com malabarismos ao piano. Tocava de Radiohead a Bach com toque de piano preparado que o faziam pisar, sem dó nem piedade, nas teclas do piano e fazer vibrar as cordas do instrumento com os dedos. Menino prodígio que cresceu e virou compositor promissor depois de dois anos lutando para encontrar um caminho próprio e um alfabeto musical novo.

Aos 27 anos, o pianista voltou de um pequeno inferno — não foi fácil compor para uma orquestra — com o melhor disco de música erudita brasileira lançado em 2017 e a certeza de que encontrou sua própria linguagem. É esse Vítor Araújo maduro, com o pé, a partir de agora, definitivamente fincado na música brasileira contemporânea que o público poderá ver no palco do CCBB. Premiado pelo projeto Natura Música, o compositor conta que foi difícil e desconfortável chegar à forma final de Levaguiã Terê.

Lançado no ano passado, o disco envolveu desde pernoites em grutas do agreste pernambucano até parcerias com guitarristas de música eletrônica. “Foi um processo bastante longo”, avisa Araújo. “E foi a primeira vez que escrevi para uma formação sinfônica, são muitas músicas, às vezes longas, e foi um processo grande de pesquisa dentro da musicalidade do candomblé que envolveu uma pré-pesquisa de campo.”

Conversar com amigos do candomblé, frequentar algumas casas, entender um pouco mais sobre as músicas rituais e tentar destrinchar musicalmente tudo isso foi o início de Levaguiã Terê, lenda contada por um homem de ascendência indígena sobre um índio velho que se transforma em pássaro. O disco é uma mistura equilibrada de todas essas referências com aquelas que fizeram a formação clássica de Araújo, na qual estão, como base, Béla Bartók, Johann Sebastian Bach e Heitor Villa-Lobos. “Minha preocupação foi muito grande em como harmonizar isso com as influências e com as diretrizes que gosto de seguir e ouvir dentro da música eletrônica, da música contemporânea”, diz o compositor, que trabalhou as orquestrações com bandas e artistas da música pop experimental e da música eletrônica. “Tentei construir uma sonoridade do zero, a partir desses alicerces, e foi um processo muito trabalhoso e desconfortável, em certo sentido, mas muito bom.”

Levaguiã Terê só poderia ter sido concebido por um virtuose que consegue extrair do piano uma orquestra inteira. Quem ouviu os primeiros passos de Vítor Araújo, o DVD Toc ao vivo no teatro Santa Isabel e o disco A/B, sabe que o pianista vem de uma linhagem complexa resultante da combinação de genialidade e musicalidade. Mas isso não é o mais importante no piano do pernambucano. Como ele mesmo ensinou naquele show no Teatro Santa Isabel, é comum acharmos que o complexo é o bom, mas, às vezes, o bom é o simples mesmo, quando não importa a quantidade de notas, e sim o sentimento impresso na maneira de tocar.
 
SERVIÇO 
Admirável Música Nova — Vitor Araújo e Negro Léo
Nesta terça-feira (17/4), às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES Trecho 2). Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Classificação indicativa livre.

Duas perguntas// Vitor Araújo


Você diz que nesse disco conseguiu fazer uma fusão de duas coisas muito importantes para você: a música erudita de Villa-Lobos e o candomblé. Como foi isso?
Em Recife, sempre tive uma ligação muito forte com músicos que vinham do candomblé. Apesar da minha formação erudita e de eu ser uma cria de conservatório, de ter aprendido a ler música antes de aprender a tocar o instrumento e de ser de um tipo muito específico de universo musical. Quando comecei a sair um pouco desse universo, a conhecer outros músicos com outras histórias e outras fontes, me dei muito bem tocando com músicos que vinham do candomblé, com percussionistas. E em Recife, todo o arcabouço da percussividade vem quase exclusivamente das religiões de matriz africana e isso se desdobra em várias manifestações culturais. Sempre foi um universo que me encantou muito.

Por que criar Levaguiã Terê foi um processo desconfortável?
Porque tive que trabalhar com uma super centralidade na minha pessoa em vários âmbitos e isso gerou uma carga muito grande de coisas a fazer e possibilidades de erros. Não foi uma coisa muito divertida. Talvez na hora de gravar com músicos colaboradores, com os percussionistas de Recife, com outros amigos que colaboraram trazendo um pouco de suas linguagens, tenha sido divertido. Mas 90% de cada nota tocada no disco fui eu que escrevi, eu que coloquei lá a bolinha no papel e isso foi muito tenso porque é como se eu tivesse que ter um controle muito grande da obra como um todo e ter esse controle é muito difícil. E tive que trabalhar com dead line também, porque é um projeto patrocinado. Não foi ruim, foi um desconforto no sentido de me colocar em situação de risco e me tirar da zona de conforto de compor do jeito que sempre compus.


 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade