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Correio Braziliense

Dona Ivone Lara: Relembre a relação da sambista com Brasília

Confira também depoimentos de artistas como Maria Bethânia e Zeca Pagodinho sobre Dona Ivone Lara


postado em 18/04/2018 07:00

Dona Ivone Lara recebe homenagem no show Flores em vida no CCBB (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Dona Ivone Lara recebe homenagem no show Flores em vida no CCBB (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Brasília tinha um longo caso de amor com Dona Ivone Lara. A grande dama do samba que morreu na noite de segunda-feira, aos 97 anos, veio à cidade pela primeira vez em 24 de maio de 1978 para show, ao lado de Roberto Ribeiro, pelo Projeto Pixinguinha.

Depois, voltou incontáveis vezes para show em diversos locais como as salas Villa-Lobos e Martins Penna do Teatro Nacional, Sala Funarte (hoje Sala Cássia Eller), Bar do Calaf e, principalmente, o Feitiço Mineiro, onde tomou parte do projeto Gente do Samba.

A dama do samba durante o show Forró no Cerrado(foto: Joaquim Firmino/CB/D.A Press - 20/11/82)
A dama do samba durante o show Forró no Cerrado (foto: Joaquim Firmino/CB/D.A Press - 20/11/82)


Ela veio à capital pela última vez em 14 de setembro de 2015 para abrir o projeto Flores em vida, no teatro do Centro Cultual Banco do Brasil, quando foi homenageada pelo grupo Adora Roda, responsável pela produção do evento, que celebrou também os mestres Monarco da Portela e Nelson Cavaquinho.

Na terça (17/4), depois de velado na quadra do Império Serrano, o corpo de Dona Ivone foi sepultado no cemitério de Inhauma, subúrbio do Rio de Janeiro. A sambista, porém, vai se manter viva na memória afetiva dos fãs. Um deles é o brasiliense Breno Alves, cantor e pandeirista do Sete na Roda (antigo Adora Roda). “Para nós, Dona Ivone era uma das maiores referências no universo do samba. Ela já estava com a saúde frágil, quando a celebramos no projeto Flores em Vida, no CCBB. Antes, a homenageamos, ao gravar Dama do samba, composição de Vinicius e Oliveira e Artur Sena, em nosso primeiro disco”, lembra.

Dona Ivone canta no Projeto Pixinguinha(foto: Marcos de Oliveira/CB/D.A Press - 22/5/78)
Dona Ivone canta no Projeto Pixinguinha (foto: Marcos de Oliveira/CB/D.A Press - 22/5/78)


Quem também vai guardá-la “na mente e no coração” é a cantora Cris Pereira, integrante do projeto Nós Negras e do coletivo Mulheres de Samba. “Tive a honra de ter Dona Ivone ao meu lado na gravação de Espelho de vida, samba dela e de Délcio Carvalho, que gravei no Folião de raça, meu CD de estreia”, destaca. “Tamanha era sua nobreza, a sua postura e sua importância na comunidade do samba, quem com inteira justiça veio a receber o título de rainha. O que sinto no momento é uma imensa tristeza”, acrescenta.

Renata Jambeiro e Dona Ivone no Hotel Alvorada (foto: George Gianni/Esp. CB/D.A Press - 28/6/08)
Renata Jambeiro e Dona Ivone no Hotel Alvorada (foto: George Gianni/Esp. CB/D.A Press - 28/6/08)


Mas, entre os sambistas brasilienses, quem mais se aproximou de Dona Ivone foi Renata Jambeiro. Em junho de 2008, ela trouxe a autora de Sorriso negro para uma participação especial num projeto que promoveu no teatro do antigo hotel Blue Tree (hoje Royal Tulyp). “Em 2010, quando lancei no Rio de Janeiro o Sambaluaiê, meu segundo CD, com show no Teatro Rival, ela foi a minha convidada especial. Antes, havia gravado, em meu primeiro disco, Investida fatal, dela de Bruno Castro e André Lara”, ressalta. “No show que vou fazer sábado, no Café Musical do Clube do Choro, Dona Ivone será homenageada como merece”.

Depoimentos

"17 de abril de 2018. O céu, o céu está verde e branco, luminoso, verde e branco e puro ouro, para receber a rainha Dona Ivone Lara, minha querida amiga. Muita saudade dela, muita falta fará ao samba, essa mulher pioneira, extraordinária, compositora de primeira linha, comovente, uma grande senhora, uma grande pessoa. Uma falta imensa no Brasil de sempre, no de hoje, então, nem se fala. E eu sou gratíssima, gratíssima, gratíssima pela linda música que ela confiou à minha voz e que eu convidei a Gal Costa e fizemos juntas, Sonho meu. Meu bem, tenha os sonhos todos realizados, minha querida Dona Ivone, como eu sempre dizia sua benção, hoje a benção a Deus que te criou e te iluminou e te fortaleceu, te deu vida, inspiração, maneira, alegria. Um beijo, meu bem. Linda viagem para você. O samba todo a seus pés. Te adoro."
Maria Bethânia

“A única certeza da vida é morrer, mas acho que o artista não morre, ele muda de lugar, mas a música está ai, continua viva nas nossas memórias e nas nossas canções. Ela foi amiga do meu pai....Beijo, Dona Ivone. Que Deus lhe receba de braços abertos.” 
Zeca Pagodinho

“Dona Ivone era conhecida por ser uma grande melodista. Ela tinha também um invejável dom para o improviso. Nós, do Império Serrano, ficamos órfãos com a perda de dois expoentes da escola, Wilson das Neve, que morreu em 2017; agora, Dona Ivone Lara.”
Thiago da Serrinha

“Mesmo com alzheimer, minha avó continuava ligada ao samba e costumava ouvir seus discos e de outros cantores. Para a nossa alegria, ainda teve uma vida longa e pudemos usufruir do seu convívio. Me tornei parceiro dela e compomos juntos 10 sambas.”
André Lara, neto

Linha do tempo

1921
• Filha de um cantora e de um mecânico de bicicletas (mas também violonista e compositor), Dona Ivone nasceu em 13 de abril. 

1934
• Aos 12 anos, ganhou dos primos Hélio e Fuleiro um pássaro Tiê-Sangue, que inspirou o primeiro samba de partido-alto composto por ela, Tiê-Tiê.

1945
• Ano em que Dona Ivone se muda para Madureira e começa a frequentar a Escola de Samba Prazer da Serrinha. Os sambas eram mostrados como se fossem do primo Fuleiro para fugir ao preconceito.

1947
• Neste ano, compôs Nasci para sofrer, samba com o qual a escola desfilou. Tornou-se também enfermeira e depois assistente. Trabalhou com a médica Nise da Silveira.

1965
• Ingressa na ala de compositores da Império Serrano e compõe, com Silas de Oliveira e Bacalhau, o clássico Os cinco bailes da corte.

1970
• Participa da primeira gravação com a coletânea Sambão 70. Por sugestão dos produtores Oswaldo Sargentelli e Adelzon Alves, deixa de lado o nome de batismo, Yvonne Lara, e adota Dona Ivone Lara.

1977
• Aposenta-se da carreira na saúde e passa a se dedicar somente ao lado artístico. Suas músicas começam a ser gravados por diversos artistas, como a clássica releitura de Sonho meu por Maria Bethânia e Gal Costa (lançada em 1978).

1978
• Lança o álbum de estreia Samba minha verdade, minha raiz, que trazia sambas da Império Serrano e da Portela e outras composições.

1998
• É homenageada na França no Festival Latino promovido pela Eurodisney.

2002
• Vence o Prêmio Shell de MPB pelo conjunto da obra com uma grande festa no Canecão, no Rio de Janeiro.

2012
• Dona Ivone Lara é homenageada pela Império Serrano e é tema do enredo da escola no carnaval carioca.

2015
• É homenageada com o projeto Sambabook, que lançou DVD, CD e livro, além de um álbum com partituras. Nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso e Zeca Pagodinho participaram.

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