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Correio Braziliense

Diretora Carolina Jabor fala sobre linchamento social e tribunais da web

'Aos teus olhos' ao tratar de pedofilia reflete em torno de perseguições nas redes sociais


postado em 18/04/2018 07:05 / atualizado em 18/04/2018 10:21

Daniel de Oliveira estrela o polêmico filme nacional(foto: Primeiro Plano / Divulgação)
Daniel de Oliveira estrela o polêmico filme nacional (foto: Primeiro Plano / Divulgação)
 

Com dois filhos em casa cercados pelo acesso à internet, a cineasta Carolina Jabor, aos 43 anos, tem receios e sobressaltos comuns a qualquer pai ou mãe. “Não há quase limites ao acesso com a rede: tanta informação, tanta gente interagindo. A não seleção é o que mais me preocupa. Na atualidade, quase tudo é oferta”, conta ela, ciente da vulnerabilidade avizinhada do protagonista do mais recente filme dela em cartaz: o professor de natação Rubens (Daniel de Oliveira), quase um sinônimo de linchamento social, em Aos teus olhos. Na trama, pela passagem num vestiário vazio, junto com o pequeno aluno Alex (Luiz Felipe Mello), Rubens tem a condição de abusar da criança, pelo que especula uma corrente de personagens da fita.

 

Carolina Jabor trata de pedofilia, em novo filme(foto: Primeiro Plano / Divulgação)
Carolina Jabor trata de pedofilia, em novo filme (foto: Primeiro Plano / Divulgação)
 

 

O tema universal, que já rendeu vendas do filme para China e Estados Unidos, de um beijo amaldiçoado, até faz lembrar a clássica peça O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues. Haveria então algo da dramaturgia dele? “Nelson Rodrigues faz parte da minha educação artística, mas nesse filme não chegamos a olhar para essa peça dele que considero uma grande obra”, comenta. Na verdade, a peça O princípio de Arquimedes (de Josep Maria Miró) e o filme de Ventura Pons El virus de la por nutriram o roteiro de Lucas Paraizo, sempre lembrado por séries como A teia, O caçador e O rebu.

 

“Os pré-julgamentos pelas redes sociais são muito perigosos pela possibilidade não apenas de destruir a reputação de uma pessoa. São todos contra um, e você (vítima) nunca consegue se defender. A maior identificação das pessoas, em relação ao filme, tem sido esta do linchamento virtual. Culpadas ou não, pessoas ocupam sempre o papel de vítima, pelas circunstâncias. São tantos os caminhos da difamação que, pelos rastros da internet, até mesmo a busca pela verdade se mostra inviável”, comenta a diretora que, com o filme, obteve reconhecimentos no Festival do Rio (na votação popular, melhor filme; além de ter sido destacado pelo roteiro e pelos atores) e na 41ª Mostra de São Paulo (melhor ficção nacional).


Empatia

 

No último mês, com a divulgação do filme, a cineasta tem colhido e acolhido a empatia com personalidades, como o coreógrafo Wagner Schwartz (execrado na rede, pela participação em La bête, mostrada no MAM), além da ampla identidade com professores de jovens alunos. “Um pai, por implicância, pode causar muitos estragos”, simplifica a diretora.

 

Uma atenção especial de Aos teus olhos veio na composição do elenco: “Daniel de Oliveira é um ator extraordinário, que vai do bom moço ao vilão — uma característica fundamental para a composição de Rubens. Com o Luiz Felipe Mello, nós tivemos todo o cuidado e conversamos muito com ele, a mãe e a avó. Além de ele ser um menino mais velho do que o personagem, e que quer ser ator, o ambiente da produção foi muito profissional, e abordamos bastante o assunto central, sem trazer nenhuma cena que comprometesse”.

 

Num retrospecto de carreira — a diretora de Boa sorte (longa em que Deborah Secco vivia personagem soropositivo) —, ao falar de Aos teus olhos, não deixa de trazer à tona outra questão da internet relacionada à efemeridade. Com o documentário O mistério do samba (2008), sobre a Velha Guarda da Portela, ela aproveita para reverenciar Dona Ivone Lara. “Ela, para mim, representou a tradição. Com ela, vem a importância da firmeza, da fortaleza — ela é a rainha do samba, para ser eternamente celebrada e jamais esquecida.”

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