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Correio Braziliense

Índios que buscam reforço da identidade e homenagens celebram data festiva

O dia do índio motiva artistas na busca por afirmação de etnia


postado em 19/04/2018 06:10 / atualizado em 19/04/2018 11:14


Erisvan Bone faz uso do audiovisual, para conservar as tradições (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação )
Erisvan Bone faz uso do audiovisual, para conservar as tradições (foto: Arquivo pessoal/ Divulgação )
Os índios encontram nas artes uma forma de lutar por mais visibilidade. Eles se manifestam na literatura, na música e no cinema. Com essa produção, mostram que ser indígena é algo que extrapola muito os estereótipos que dominam a imagem dos povos da floresta.

Da aldeia Krukutu (SP), Olívio Jukepé e o filho Wera Jeguaká Mirim, mais conhecido pelo nome artístico Kunumí MC, usam as palavras para disseminar ideias e contar histórias inspiradas na vivência deles. Partilham da mesma opinião sobre o Dia do Índio, consideram uma data a ser utilizada para dar mais visibilidade às causas da população indígena. Segundo o pai, “é necessário conscientizar a sociedade brasileira de que nós somos o povo originário desse continente”. Ele acrescenta: “Quando um índio está lutando pela demarcação, não faz isso na intenção de roubar a terra de ninguém, apenas está pedindo para recuperar um pouco do que lhe foi tirado”.

Jukepé escreve desde 1984, começou a trajetória literária produzindo romances e, mais tarde, passou pela poesia e pelos contos. Atualmente, tem 17 livros e muito material escrito, que ainda não conseguiu publicar. Ele afirma que “lançar um livro de autor indígena é complicado, pois há muito preconceito”. Porém, fica feliz ao saber que as obras estão ganhando espaço e alguns dos livros dele foram estudados por universitários do país. “Existem alunos escrevendo principalmente sobre um tema, o qual denominei Literatura Nativa, uma forma de mostrar que nós, indígenas, temos de escrever obras que sigam os nossos passos, as nossas tradições”.
 
Olivio Jukepé e o filho Wera Jeguaká Mirim usam rimas para lutar por mais direitos do seu povo(foto: Arquivo Pessoal e Jeguaká Mirim/Divulgação)
Olivio Jukepé e o filho Wera Jeguaká Mirim usam rimas para lutar por mais direitos do seu povo (foto: Arquivo Pessoal e Jeguaká Mirim/Divulgação)
 

Depois de ler as histórias do pai, Jaguaká Mirim começou a produzir poesias, as quais mais tarde viraram letras dos raps que compôs. Aos 18 anos de idade, vai lançar o segundo álbum da carreira musical, contando com uma parceria do cantor e compositor Criolo. A canção Terra, ar, mar foi criada durante um encontro entre os dois artistas. O jovem MC é fã do rapper e foi pego de surpresa quando o conheceu. “Tive o privilégio de fazer uma letra em parceria com Criolo falando da natureza, sobre a nossa quebrada, nossa aldeia, e sobre a demarcação de terras”, comentou.
 
Djuena Tikuna usa a música como resistência cultural(foto: Diego Janatã/Divulgação)
Djuena Tikuna usa a música como resistência cultural (foto: Diego Janatã/Divulgação)
 

Na música 

Djuena Tikuna, da aldeia Umariaçu II, localizada no município de Tabatinga (AM), percebe o Dia do Índio como uma celebração “da união dos povos indígenas nessa resistência cultural”. A jovem foi a primeira indígena mulher a lançar um disco (Tchautchaiüãne) no Teatro Amazonas, prédio clássico do centro de Manaus, conhecido como um espaço da arte erudita. Também foi indicada, este ano, ao prêmio canadense Indigenous Music Award, uma seleção de artistas do mundo todo.

Ela compõe canções inspiradas nos ritmos indígenas e canta na língua nativa. Na tribo onde nasceu, a música é vista como uma ponte entre a população da aldeia e os ancestrais. Djuena entende a música como “uma grande Samaumeira [a qual os indígenas consideram mãe de todas as árvores que liga a Terra aos encantados no céu, nos embalando ao sabor da melodia dos ventos”.
 
Gean Ramos mistura os ritmos indígenas à música popular brasileira(foto: Bruno Gonçalves/Divulgação)
Gean Ramos mistura os ritmos indígenas à música popular brasileira (foto: Bruno Gonçalves/Divulgação)
 

Outro, que escolheu se tornar cantor e compositor foi Gean Ramos, do povo Pankararú (PE). Também indicado à mesma premiação do Canadá, critica a data comemorativa que, para ele, “ajuda a manter os estereótipos que consideram os índios seres exóticos”. Na visão do artista, o problema da população brasileira é não ver os indígenas como pessoas comuns, parte da população. “O índio é o próprio brasileiro. As pessoas deveriam saber que ao seu lado, no trânsito, com um carro igual ao seu, pode estar um índio”, observou.

Com quase duas décadas de carreira — inclusive, entre os anos 1999 e 2000, cantou em cafés de Brasília —, Gean deu uma guinada na trajetória artística. Atualmente, utiliza-se de elementos da música popular brasileira e não deixa de lado os ritmos indígenas. “É denúncia, é respeito e também registro histórico do meu povo em tempo real”.

Audiovisual

Graduado em jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Erisvan Bone, assim que retornou para a aldeia Guajajara, naquele mesmo estado, estava inquieto, pois queria desenvolver algo que fosse elaborado junto ao próprio povo e destinado à população indígena. Assim surgiu o projeto Coisa de Índio — Alma Brasileira, voltado para a juventude indígena, inciativa a qual ensina os interessados a fotografar, editar e produzir vídeos. “A ideia é transformar o jovem em protagonista nesse processo de empoderamento indígena”, explica.

Engajado nas lutas do seu povo, Bone considera que todo dia é dia de índio: “Somos a população originária deste país”. Com o objetivo de dar visibilidade aos povos indígenas brasileiros e às especificidades de cada um, no ano passado, com apoio de sua aldeia, lançou a Mídia Índia, uma plataforma de comunicação nas redes sociais que divulga, de forma colaborativa, informações produzidas por indígenas.

Música celebra a data nacional

 
O multi-instrumentista de sopro carioca celebra as nações indígenas que o inspiraram(foto: Guido Paternó/ Divulgação)
O multi-instrumentista de sopro carioca celebra as nações indígenas que o inspiraram (foto: Guido Paternó/ Divulgação)
 
Carlos Malta tem em sua discografia dois CDs inspirados na cultura indígena, o Paru (nome do pajé da tribo Yawalapiti do Alto-Xingu), que gravou com o grupo Pife Muderno, lançado em 2005; e o Prana (solo), que saiu dois anos depois. Ao se apresentar hoje (dia 19, quinta) e amanhã (dia 20 de abril), às 21h, no Espaço Cultural do Choro, o multi-instrumentista de sopro carioca revisita esses trabalhos, para celebrar o Dia do Índio.

“É sempre bom ser convidado para participar de projetos do Clube do Choro, local onde a música instrumental é ouvida com interesse por um público atento e bem informado. Nesta quinta-feira tenho um motivo a mais para me sentir privilegiado, pois vou homenagear, em seu dia, nações indígenas que foram fonte de inspiração para dois dos meus discos”, destaca Malta.

Nessa apresentação, na qual passa em revista sua obra, ele vai aproveitar também para mostrar versões instrumentais do projeto Beatles ‘n’ Choro (ideia de Renato Russo, sugerida à Deck Disck). “Foi uma série de quatro discos, da qual participei ao lado de Henrique Cases (cavaquinho), Marcello Gonçalves (violão 7 cordas), Hamilton de Holanda (bandolim), Paulo Sérgio Santos (clarinete) e Rildo Hora (gaita)”, conta.

Malta diz que o repertório traz ainda temas do Dream Land, álbum que gravou na Suécia com o músico dinamarquês Thonas Clausen. “Aos 40 anos de carreira, me sinto à vontade para fazer uma retrospectiva da minha trajetória, iniciada sob a batuta do mestre Hermeto Pascoal, com passagem pela banda de outro grande músico, Gilberto Gil”, lembra.

Os instrumentistas que vão acompanhá-lo são destaques na cena musical brasiliense, Daniel Castro (contrabaixo), Rodrigo Bezerra (guitarra) e Di Steffano (bateria). “Já toquei com todos eles, anteriormente, mas é a primeira vez que estarão juntos em minha companhia. É sempre prazerosa a troca de experiência com músicos de outra geração”, ressalta.

Alencarinos

Para lançar o álbum de partituras Alencarinos, parte da obra do violonista e compositor Alencar 7 Cordas, o Regional Alencarinos, formado por Fernando César (violão 7 cordas e direção musical), Lucas de Campos (violão 6 cordas), Pedro Moulusco (cavaquinho) e Márcio Bezerra (clarinete) fazem show hoje, às 19h, no Teatro Carlos Galvão da Escola de Música.

Segundo Fernando César, o álbum é uma espécie de continuação do CD homônimo, lançado há três anos, com o intuito de difundir e perpetuar a obra de Alencar 7 Cordas, professor de violão de músicos brasilienses de diferentes gerações. “A publicação reúne partituras de 15 músicas registradas no CD, idealizado por Lucas de Campos, que recebeu cuidadosa revisão de um outro mestre, Everaldo Pinheiro”. Realizado com o apoio do FAC-DF, o álbum teve produção e edição de Ana Lion; enquanto André Maya, Daniela Franca e Rafael Dietzch assinam o projeto gráfico. O músico e pesquisador carioca Mário Sève é o autor da apresentação.



Carlos Malta
Show do multi-instrumentista carioca hoje (dia 19 de abril) e amanhã, às 21h, pelo projeto Clube do Choro – 40 Anos, no Espaço Cultural do Choro (Eixo Monumental). Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia para estudante). Não recomendado para menores de 14 anos. Informações: 3224-0599.



Regional Alencarinos
Show do grupo para lançamento do álbum de partituras de Alencar 7 Cordas hoje (dia 19 de abril), às 19h, no teatro Carlos Galvão (Quadra na L2 Sul). Entrada franca. Classificação indicativa livre. 
 
 



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