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Correio Braziliense

Exposição traz a Brasília mais de 100 obras de Jean-Michel Basquiat

Genialidade e contestação marcam a obra do artista, que está em cartaz a partir deste sábado no CCBB


postado em 21/04/2018 07:30 / atualizado em 21/04/2018 00:21

O curador Pieter Tjabes acredita que Basquiat é atual porque ainda atrai os jovens e trabalha com fragmentos de informações(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
O curador Pieter Tjabes acredita que Basquiat é atual porque ainda atrai os jovens e trabalha com fragmentos de informações (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Dois grandes mitos rondam a figura de Jean-Michel Basquiat. O primeiro deles diz respeito à origem do artista. Não, ele não era pobre nem marginal, imagens que ajudaram a reforçar a aura de transgressor, mas não condizem com a realidade. Filho de um contador haitiano apreciador de jazz e de uma portorriquenha que adorava arte, Basquiat cresceu em um ambiente estimulante. A casa no Brooklin pertencia à família e era bem localizada, distante do Harlem e do Queens, bairros problemáticos nos anos 1970.

E o artista nunca morou nas ruas ou em prédios abandonados, embora isso fosse uma prática constante entre os jovens novaiorquinos da época. Uma vez, adolescente, brigou com o pai e passou duas ou três noites em um parque. E foi só. Mas a veia de transgressor, essa sim, ele sempre teve e isso fica evidente entre as mais de 100 obras de Arte de Jean-Michel Basquiat, em cartaz a partir deste sábado (21/4) no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

A exposição traz ao Brasil o acervo da família Mugrabi, dona da maior coleção do artista, e chega a Brasília, depois de passar por São Paulo, com sete obras a mais, aquisições recentes dos colecionadores. São pinturas de grandes dimensões, além de desenhos, gravuras e uma série de pratos em cerâmica pintados pelo artista em homenagem aos amigos e a suas referências. O curador Pieter Tjabes, holandês radicado no Brasil e que fez exposições como O mundo mágico de Escher e Rembrandt e a arte da gravura, conta que a logística para trazer as obras ao Brasil envolveu desde seguros milionários até aluguel de avião especial por conta dos formatos das obras. Há pinturas cujas dimensões ultrapassam os dois metros. A valorização de Basquiat também eleva os seguros: no ano passado, uma obra do artista foi vendida em leilão por US$ 130 milhões.

É um valor que Tjabes não imaginava quando cruzou com o artista em Nova York, na década de 1980. Na época, o curador achava via Basquiat como um fenômeno passageiro, uma moda hype em uma cidade economicamente destruída e culturalmente promissora. A Nova York daqueles dias estava falida e abandonada pelo poder público. Jovens artistas encontravam aí um campo criativo livre do conservadorismo forte no resto do país, um terreno de liberdade propícia para contestar e criticar (o hip hop nasceria desse caldo) e Basquiat, junto com um amigo da escola, começou a grafitar nas ruas de Manhattan.


Personagem


Os desenhos e frases vinham assinados por SAMO, personagem imaginado pela dupla a partir da abreviação da expressão “same old shit”. SAMO foi criado, originalmente, para o jornal da escola. O personagem vendia religiões para quem não tinha, mas depois de um ano a dupla foi descoberta e a brincadeira perdeu a graça. Basquiat nunca foi grafiteiro de verdade, embora sua imagem tenha sido apropriada por artistas de rua e ele tenha mantido em suas telas as características da street art.

Ele queria ser artista e, com a ajuda de uma galerista que cedeu um porão no sul da ilha para servir de ateliê, começou a se inserir no mundo das artes. Um ruído reverberou na cena artística da cidade quando críticos e colecionadores souberam de um artista negro do Brooklin produzindo loucamente em um porão de Manhattan. Basquiat se chateou —  fosse um branco, ele dizia, seria uma residência artística, mas ele era visto como um selvagem —, mas adquiriu uma consciência muito importante de sua posição de artista negro em cenário tradicionalmente ocupado por brancos. Os negros estavam no jazz, na música e nos esportes, mas não nas artes plásticas.

Para as telas, Basquiat trouxe todo tipo de referência. Se esforçava para que seus desenhos fossem o mais simples possível, infantis quase. Colagens, frases enigmáticas, palavras riscadas (porque prestamos mais atenção quando estão riscadas), elementos da anatomia humana, fruto do interesse em um atlas médico que ganhou da mãe, a coroa (símbolo de muitos grafiteiros), a caveira e uma paleta de cores vibrantes fazem parte de seu repertório plástico. Fragmentos de informação eram muito importantes para o artista, que misturava tudo e pintava ouvindo rádio ou com a tevê ligada em canais de desenhos animados. “São sobreposições de informações e de história. Às vezes, ele se encantava com a forma de uma palavra, ou gostava porque era bonita, ou ouvia no rádio. Também há uma mistura de alta e baixa cultura, e uma coisa muito rústica”, explica Tjabes.

O traço rústico e infantil, a falta de perspectiva e a sobreposição de desenhos, frases e palavras estão na maioria das obras(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
O traço rústico e infantil, a falta de perspectiva e a sobreposição de desenhos, frases e palavras estão na maioria das obras (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)


É um conjunto que o curador identifica como muito atual e responsável por angariar um público jovem até hoje, 30 anos depois da morte do artista, em agosto de 1988, quando sucumbiu a uma overdose aos 27 anos. “Hoje temos a informação muito fragmentada, muito rápida. Eu conheço o meu público e, em São Paulo, vi pessoas que não costumava ver. Pessoas que nunca iriam a uma exposição, que acham que aquilo não é pra elas. A Nova York dos anos 1970 era muito parecida com a periferia de São Paulo hoje”, garante Tjabes.

Percurso cronológico

 
A exposição está dividida em três núcleos e começa pela galeria de vidro, na qual foi montado um espaço para selfies, a reprodução de um ateliê com obras de grafiteiros brasileiros e do brasiliense Onio e um espaço interativo. É nas duas outras galerias que estão as obras. Na maior, Pieter Tjabes concentrou, de forma cronológica, as primeiras obras e alguns desenhos. Ali se vê um Basquiat mais rústico, sempre figurativo e muito diferente do minimalismo e da arte pop que dominavam a cena do momento.

Na segunda galeria, estão obras mais maduras, quando o artista investe pesado em cores primárias, básicas, e, sobretudo, nos grandes formatos. Um conjunto de telas unidas por dobradiças soma mais de três metros de comprimento. Para essa sala, o curador reservou também uma série de obras pintadas em parceria com Andy Warhol. Basquiat já era conhecido quando foi formalmente apresentado ao artista pop. Viu nele a figura paterna da qual se distanciara na adolescência depois de sucessivas brigas. Durante um ano, os dois produziram mais de 100 quadros em grandes formatos, mas Basquiat encerrou a colaboração quando soube da reação da crítica.

“Eles não gostaram, disseram que um ofuscava o outro e que a parceria não acrescentava nada. Foi Basquiat quem convenceu Warhol a pintar, coisa que ele nem fazia mais. E não era uma relação de mestre e aluno, era uma relação de igualdade entre os dois artistas”, conta o curador. A amizade entre os dois era muito grande e a morte de Warhol, em 1987, abalou Basquiat, que morreria pouco mais de um ano depois.

A arte de Jean-Michel Basquiat
Curadoria: Peter Tjabes. Visitação até 1º de julho, de terça a domingo, das 9h às 21h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES Trecho 2). Entrada franca.

Ingressos
A partir deste sábado (21/4), o CCBB vai exigir a retirada de ingressos na bilheteria ou no aplicativo do espaço para dar accesso às exposições. A instituição não vai cobrar por isso e diz que é apenas uma medida para controlar a entrada e a saída de público e evitar filas. Os ingressos podem ser retirados no site www.eventim.com.br ou no aplicativo Eventim (Android ou IOS), assim como na bilheteria do espaço.

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