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Correio Braziliense

Diplomata indiano Abhay K. produz 60 poemas sobre Brasília

Nos textos, ele aborda múltiplos aspectos de Brasília, cidade que o surpreendeu


postado em 21/04/2018 07:20 / atualizado em 25/04/2018 11:04

Abhay K.: o poeta ficou fascinado pela cor branca da arquitetura de Brasília(foto: Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press)
Abhay K.: o poeta ficou fascinado pela cor branca da arquitetura de Brasília (foto: Edy Amaro/Esp. CB/D.A Press)

O poeta e diplomata indiano Abhay K. não veio a Brasília para reproduzir clichês ou ideias prontas. Ele é autor de dois livros de memórias e oito coletâneas de poemas. Aterrissou em Brasília em 2016 e mergulhou intensamente na cidade, caminhou pelas superquadras, subiu diversas vezes na Torre de Televisão, pedalou nas ciclovias, esteve nos clubes de samba do Cruzeiro, conviveu com os poetas, contemplou as noites cravejadas de estrelas, apreciou a cor branca espectral da arquitetura,  se deparou com os enigmas e “leu o Correio Braziliense todos os dias”. Em face da partida iminente, no fim do ano, ele passou a escrever sofregamente.

As imagens passaram a fluir em ritmo vertiginoso. Em pouco tempo, acumulou mais de 60 poemas, que ele reuniu no volume A profecia de Brasília. No dia do aniversário de 58 anos de Brasília, o Correio selecionou vários poemas desse poeta conectado com a solidão espacial, as mangas das superquadras, as compras no Ceasa, as jacas que parecem discos-voadores, as caminhadas, os vazios, os vazados e a atmosfera de mistério. E, nesta entrevista, ele fala sobre a relação mágica com Brasília: “Viver em Brasília é viver em um lar celeste”, diz o poeta.

Entrevista \\ Abhay Kumar


Como é sua relação com Brasília? De que maneira a cidade te  inspirou para a poesia?
Tenho tido um relacionamento intenso com Brasília, que se reflete em meus poemas sobre esta monumental cidade abençoada com sol, ar fresco, chuvas, céu azul, bom clima e a facilidade de viver. Eu sinto seu vasto vazio às vezes, mas depois fico ocupado escrevendo poemas e editando livros. O vazio exterior é substituído pela riqueza interior de um mundo cheio de pensamentos, ideias e poemas. O tempo que economizo por causa da facilidade de deslocamento e de viver nesta cidade maravilhosa, eu uso para fins criativos. Assim, Brasília impactou positivamente minha vida criativa. Eu também fiz muitos amigos poetas, escritores que vivem em Brasília e arredores.

Qual a singularidade de Brasília?
Brasília é uma cidade única. Eu visitei muitas capitais, mas nenhuma se compara a Brasília. Em primeiro lugar, Brasília é branca, que é minha cor favorita e uma cor de pureza. Em Brasília vejo um esforço para trazer a geometria dos corpos cósmicos para seu projeto arquitetônico dos edifícios monumentais da cidade, como o Museu Nacional. Eu me sinto em casa andando nas vastas extensões de grama no meio da cidade. Não conheço nenhuma outra cidade que tenha tanto espaço aberto, tantas árvores frutíferas e tantos pássaros. Onde quer que eu vá, sempre quero voltar a Brasília. Aqui eu encontro minhas mangas preferidas, jacas, goiabas e Jamuns espalhadas nas calçadas em qualquer direção que eu vá. Eu me apaixonei pelos Ipês desabrochando. Com o horizonte baixo como na maior parte de Brasília, tenho uma visão clara do lindo céu. Nas noites de lua cheia, a lua parece elevar-se do lago Paranoá. Viver em Brasília é como viver em um lar celeste.

Em um dos poemas, você diz que Brasília é um portal? Mas, portal para quê?
Brasília possui elementos de transcendência espiritual entrelaçados em sua arquitetura e planejamento urbano e, portanto, nos oferece uma oportunidade de pensar a cerca de quem realmente somos, de onde viemos e para onde estamos indo. 

Viagem poética sobre Brasília
Alto Paraíso 
No alto paraíso
perto de Brasília
uma dama sussurra
nos meus ouvidos
em Esperanto fluente —
‘Vamos ao discoporto’

Discoporto: um aeroporto para discos voadores.

Apóstolos na Catedral Metropolitana 
Quatro apóstolos
de pé, mudos
rivalizando
pela coroa
de Brasília


Um Lago 
Colunas de ouro
embelezam o céu
um lago sustenta
um espelho.


Athos Bulcão
Um artista acrescenta cores
à profecia de Brasília


Dois Tanques
Dois tanques de armazenar
decorados com vidro
abastecendo o fogo da cidade.


Brasília-II
Um sonho ao amanhecer
que é logo esquecido
quando os olhos abrem


Palácio do Buriti
Uma estrela
meio à luminosa
constelação do Plano Piloto


Céus de Brasília
Nuvens brancas
março passado
no sambódromo
de céu azul luminoso.


Brasilienses
Peregrinos descalços
pisam numa cama
de cristais.


Cemitério de Esperança
Nem linear
nem circular
o cemitério de Brasilia
é uma espiral
como uma galáxia


Igreja de Nossa 
Senhora de Fátima
Anjos brancos
descem
à Terra
como pássaros


Ermida Dom Bosco
Triângulo dentro do triângulo
laranja em turquesa
Uma cruz acima
trama o céu azul.


Ponte Honestino Guimarães
Um friso de concreto
anda sobre a água
Seus passos pousando
em colunas de luz


Escada do Itamaraty
Uma escada
espiral
aparece
no ar
atravessando
esferas


Itamaraty
Um palácio de arcos
flutua
no lago
de luz
coberto com meteoritos


Museu do Índio
Memórias
das perdidas tribos
destilam em meus olhos


Jacas
Jacas gigantes planando
sobre os céus de Brasíia
— camufladas naves


Lago Paranoá
Asas d’água
pra Brasília içar voo
quando sem chão
e pão


Lucio Costa
O genuíno lorde da geometria
lidando com triângulos
quadrados, arcos e flechas
dando asa pro sonho
e pra profecia de Brasília


Mangas
O verão traz a chuva
de mangas, pro caso de
na cidade haver um faminto


Roberto Burle Marx
Dos pés à cabeça molhado
exala odor florestal
os olhos puro cristal
lagos, aromatizado hálito
a voz canto de aves


Santuário Dom Bosco
Corredor cheio de luz —
azul intenso, dourados
candelabros imensos brilham
como sete sóis em cascata
Homem, recém-nascido,
bebe gotas de luz


UnB
Universidade dos Beijos

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