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Correio Braziliense

Álbum icônico, Canção do amor demais, completa 60 anos

O disco deflagrou a bossa nova com 12 composições de Tom e Vinicius


postado em 22/04/2018 07:30 / atualizado em 21/04/2018 17:10

Elizeth Cardoso interpretou as canções de Tom e de Vinicius(foto: Mila Petrillo/CB/D.A Press)
Elizeth Cardoso interpretou as canções de Tom e de Vinicius (foto: Mila Petrillo/CB/D.A Press)

 
Quando há 60 anos, Elizeth Cardoso gravou o mítico Canção do amor demais, o LP que, historicamente, impulsionou o surgimento da bossa nova, os autores da 13 músicas de repertório não eram, ainda, artistas famosos. Tom Jobim, compositor e arranjador, tocava em boates do Rio de Janeiro para pagar o aluguel da casa onde morava. Poeta e diplomata, Vinicius de Moraes era segundo-secretário da embaixada brasileira em Paris.
 

O projeto inicial do jornalista Irineu Garcia era de um disco com poemas de Vinicius para a Festa, gravadora de sua propriedade, especializada em fazer o registro de poesia e prosa na voz dos autores. Mas a ideia evoluiu e acabou resultando no Canção do amor demais, que reuniu nove canções compostas em parceria por Tom e Vinicius, enquanto cada um contribuiu com mais duas, fazendo letra e música.


Um dos mais importantes biógrafos do país, o mineiro Ruy Castro, autor do livro clássico Chega de saudade, sobre a história da bossa nova, contou ao Correio que Elizeth Cardoso só gravou o disco porque Dolores Duran não aceitou participar. “Dolores, amiga de Vinicius e a preferida de Tom, foi convidada inicialmente, mas sem acreditar no projeto, pediu um cachê alto, inviável para a produção, que era barata.”
 
João Gilberto: a batida do cantor foi o aspecto mais revolucionário (foto: Arquivo CB/Reprodução/D.A Press)
João Gilberto: a batida do cantor foi o aspecto mais revolucionário (foto: Arquivo CB/Reprodução/D.A Press)
 

Marco fundamental da música popular brasileira, o Canção do amor demais entrou para a história, fundamentalmente, pela participação de João Gilberto, à época, um tímido e promissor violonista, cuja “batida diferente” e personalíssima era ouvida logo na faixa que abria o repertório — nada menos que a lendária Chega de saudade; e em Outra vez. No ano seguinte, ele lançaria álbum com título homônimo, que trouxe novas possibilidades para a MPB.


Embora dona de uma voz belíssima, a interpretação de Elizeth para aquelas obras-primas de Tom e Vinicius não trazia nada de revolucionário, ou algo semelhante ao canto coloquial e sussurrado de João, que viria impactar e influenciar cantores de novas gerações. As harmonias e os arranjos de Tom e as letras de Vinicius são reverenciados até hoje. Aliás, Tom criaria arranjos também para o Chega de saudade, o lendário disco de João.

A Flauta de Odette

(foto: Arquivo CB/D.A Press)
(foto: Arquivo CB/D.A Press)
 
 
Francesa naturalizada brasileira, Odette Ernest Dias foi por 20 anos — entre 1974 e 1994 — professora do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB). As reuniões que promovia em seu apartamento na 311 Sul, com a participação de vários músicos, como Waldir Azevedo,  Bide da Flauta e Avena de Castro, deram origem ao Clube do Choro.

Em 1958, quando morava no Rio de Janeiro — onde há 10 anos voltou a residir —, era integrante do naipe de sopros da Orquestra Sinfônica Brasileira e pertencia ao cast das rádios Nacional e Mayrink Veiga, foi convidada por Tom Jobim para participar das gravações do Canção do amor demais. Aos 89 anos e dona de memória prodigiosa, recorda-se, com detalhes, daquele importante momento de sua trajetória artística.

“Ao chegar ao estúdio, percebi que conhecia praticamente todos os músicos envolvidos com aquele projeto, entre eles, o flautista Copinha, o violoncelista Iberê, o trombonista Ed Maciel e o pianista Romeu Forsati. Já havia acompanhado a Elizeth Cardoso antes, na Rádio Nacional”, lembra. “Desconhecido para mim era o João Gilberto, que, à época, se mostrava uma pessoa simples, tranquila, mas de pouca conversa. Ao vê-lo tocar notei imediatamente que sua batida de violão era diferente de tudo o que havia ouvido antes”, acrescenta.

Odette soube que aquela maneira de tocar ele criou durante um retiro que fez na cidade mineira de Diamantina — terra natal do presidente Juscelino Kubitschek. “O certo é que a tal ‘batida diferente’ viria a se tornar a coisa mais importante do Canção do amor demais, disco que é tido como a gênese da bossa nova”, ressalta.

Ela conta que o LP foi gravado em dois dias, à noite, para baratear a produção. “O ambiente no estúdio era o melhor possível. O Tom fazia regência e tocou piano em algumas músicas. O Vinicius ficou ali, observando tudo, ao lado dos técnicos. O Canção do amor demais, assim que foi lançado, não repercutiu muito. Tempos depois é que foi tomado como referência”, conclui.



Obras fundamentais da Bossa Nova


Chega de saudade — João Gilberto (1959) 
Marco e álbum fundamental para entender a bossa nova, Chega de saudade é estreia solo de João Gilberto. A cadência do violão (originalíssima) e voz pequena marcaram a música brasileira e influenciaram muito do que veio depois.

Bossa nova — Carlos Lyra (1959) 
Disco lançado antes de Lyra se tornar parceiro musical de Vinicius de Moraes, Bossa nova apresenta o cantor e compositor já com canções que se tornariam clássicas, como Maria ninguém e Só mesmo por amor.


Antonio Carlos Jobim — Tom Jobim (1963) 
O disco foi gravado nos EUA, com a bossa nova já fazendo sucesso mundo afora. O álbum trazia clássicos como Garota de Ipanema, Água de beber, Insensatez, Samba de uma nota só.


A nova bossa nova – de Roberto Menescal e seu conjunto (1964) 
Menescal foi um pioneiro do movimento, ensinou muitos instrumentistas e acompanhava diversos outros músicos. No álbum de estreia, trazia canções de outros compositores e parcerias suas com Ronaldo Bôscoli.
 
 


Canção do amor demais

• Chega de saudade

• Serenata do adeus

• As praias desertas

• Caminho de pedra

• Luciana

• Janelas abertas

• Eu não existo sem você

• Outra vez

• Medo de amar

• Estrada branca

• Vida bela

• Modinha 

• Canção do amor demais 

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