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Correio Braziliense

Ana Cañas e PianOrquestra encerram projeto na cidade amanhã

A artista sobe ao palco do CCBB como convidada: sonoridades do piano serão transformadas em sons de guitarra, rabeca, percussão e outros que os músicos conseguirem inventar


postado em 24/04/2018 07:15

Ana Cañas: 'A música atual rompe fronteiras, barreiras, rótulos e caixas que serviram, essencialmente, a um reducionismo'(foto: Carolina Vianna/Divulgação)
Ana Cañas: 'A música atual rompe fronteiras, barreiras, rótulos e caixas que serviram, essencialmente, a um reducionismo' (foto: Carolina Vianna/Divulgação)
 
 
Ana Cañas subirá ao palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), amanhã, acompanhada por um instrumento que, na verdade, vale por cinco. Ou dez, a depender do ponto de vista. A paulistana de 37 anos participa do projeto Admirável Música Nova como convidada da PianOrquestra, projeto idealizado por Claudio Dauelsberg, que desdobra as possibilidades de um piano em dezenas de sonoridades. O encontro fará o Steinway do CCBB tocar até som de guitarra.

A PianOrquestra trabalha, basicamente, com piano preparado, técnica na qual os músicos utilizam os mais diversos objetos para tocar as cordas do instrumento e aproveitam desde a caixa que o reveste até os mínimos detalhes da mecânica para tirar os mais variados sons. É a mesma técnica que transformou John Cage em um dos nomes mais importantes da música experimental. Com dois DVDs lançados e um terceiro a caminho, a PianOrquestra é composta por cinco pessoas, o que fornece um total de 10 mãos e corpos para manipular a mecânica e a estrutura do piano. Juntando a voz e as composições de Ana Cañas, é certo que haverá bastante experimentação na noite de amanhã.

O trabalho começou com a observação das guitarras mais pesadas, mais no estilo rock e blues que podem surgir da música de Ana. “A gente pode experimentar dentro do piano e, com paletas, conseguir sonoridades. O piano pode ser um violão, só que de 200 cordas. Lógico que não será uma guitarra, mas você consegue sonoridades muito diferentes. A gente começou, nos arranjos, a transformar as guitarras mais pesadas”, avisa Dauelsberg.

Parceria

Ana é a convidada da PianOrquestra e promete cantar Respeita, tô na vida, de seu disco mais recente, e Velha roupa colorida, de Belchior. Para ela, o diálogo com outro gênero musical pode ser muito produtivo. “Gosto de pensar que a música, e a arte como um todo, quase sempre dialogam. Elas podem pertencer a mundos ou estéticas diferentes, mas a reflexão e a subjetividade, muitas vezes, propiciam um contato, uma soma”, acredita. “No caso específico do trabalho do PianOrquestra, que é rearranjar músicas para um piano tocado a 10 mãos, eles inserem o universo do convidado no contexto deles e esse encontro e essa troca são muito ricos.”

Sandálias de borracha, palhetas, fios de náilon, pedaços de tecido e de madeira e objetos em metal são algumas das ferramentas utilizadas pela PianOrquestra. Munidos desse arsenal, eles manipulam todas as partes do piano para executar músicas como Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant), Samba de uma nota só (Tom Jobim e Newton Mendonça) e Sonata nº 14 (Claudio Santoro). “A gente consegue fazer do piano sua própria orquestra de sons, vai tirando vários tipos de sonoridade que podem ir de um baixo ou de um contrabaixo com um elástico a uma rabeca. É um trabalho muito estético e muito bonito de movimento”, garante Dauelsberg.

Ana Cañas lançou o disco mais recente, Tô na vida, em 2016 e trabalha em novo álbum, a ser lançado no segundo semestre e sobre o qual ainda guarda segredo. Há três anos, durante a divulgação de Tô na vida, ela costumava dizer que queria encontrar um lugar no qual sua música pudesse se encaixar. Falava da ligação com o rock, da dificuldade de priorizar a melodia nesse gênero e da pegada mais de balada do álbum. Hoje, ela diz que esse desejo está resolvido e nem é mais tão importante assim.

“Loucura isso, mas nem penso mais em rock, blues, MPB, pop... Penso se a mensagem vai atingir um coração. Se libertar dos grilhões é viver. Realmente, o rock quase nunca privilegia a melodia, é um fato. Mas a gente aprende a achar um caminho, seja qual for a seara. O importante mesmo é a verdade que se traz no canto, na ideia”, avalia a cantora, que, há duas semanas, esteve no Acampamento da Democracia, em Curitiba, para participar do show #Lulalivre.


Admirável Música Nova – PianOrquestra e Ana Cañas
Amanhã, às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB - SCES Trecho 2). Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia)

ENTREVISTA / ANA CAÑAS


Para você, o que seria a admirável música nova brasileira? 
Acho que seria tudo que comove, emociona e nos alimenta a alma. O que tem verdade, poesia. Mais do que nunca, a música atual rompe fronteiras, barreiras, rótulos e caixas que serviram, essencialmente, a um reducionismo (muitas vezes da imprensa) que nunca traduziu exatamente o trabalho de muita gente, imagino.


E quem é Ana Cañas nesse cenário?
A cada dia, sinto que isso é menos importante. “Saber quem se é” é um processo, uma aventura, uma jornada. Não é uma resposta que precisa ser respondida de imediato. Não compactuo com essa ideia de mundo da gente ‘tem que ser isso’, ou aquilo, e pronto. A vida não tem ponto final. Nem a morte nos apaga, muito pelo contrário. Meu caminho é cada dia, e eu gosto muito, muito disso. Se há três anos isso era tão relevante para mim, agora... Gosto de imaginar que, se eu sou algo, gostaria de ser coração, entrega, delírio, good vibes e amor.


Qual o lugar das mulheres nessa cena? Ainda é um mundo de homens?
É um mundo de homens, sim. Ainda. E eles não vão entregar os privilégios de bandeja. Mas sinto que, a cada dia, conquistamos mais espaço, respeito e consciência. É a consequência de nossa luta diária. As mulheres estão atentas à sua própria força, estão dialogando mais entre si e se fortalecendo mutuamente. É uma primavera feminista, sem voltas. Muita coisa precisa mudar ainda, mas estamos no caminho, sem dúvidas.


Você diz que a alma da música é ser sincero. Essa sinceridade depende de quê em um mundo em que você precisa sobreviver, viver, se manter?
Até “pagar contas” é entender uma certa sinceridade do sistema. A verdade está em todos os aspectos da vida. Por isso, creio que, se a música tem uma alma, ela é um diálogo com a real-realidade do dia a dia e o delírio poético das coisas mágicas e inexplicáveis. Canções são mistério e chão.

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