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Correio Braziliense

Séries brasileiras ganham o mercado das tevês aberta e fechada

Pelo menos 18 séries nacionais foram lançadas este ano até agora


postado em 26/04/2018 07:30 / atualizado em 25/04/2018 18:55


Trama distópica, 3% fez história ao ser a produção de língua não inglesa mais vista nos EUA(foto: Pedro Saad/Netflix)
Trama distópica, 3% fez história ao ser a produção de língua não inglesa mais vista nos EUA (foto: Pedro Saad/Netflix)
 
 
Em quatro meses deste ano, já foram lançadas, pelo menos, 18 séries brasileiras originais e inéditas na tevê aberta e fechada. Isso equivale a pouco mais de uma produção seriada estreando por semana desde o início de 2018 na programação nacional — e, em alguns casos, também internacional.

Ao longo do ano, esse número ainda vai aumentar, já que estão confirmadas mais seis séries nos próximos meses em diferentes emissoras, além da HBO ter revelado que está envolvida em mais novos quatro projetos. O VP de originais internacionais da Netflix, Erick Barmack, adiantou ao Correio, durante o lançamento de O mecanismo, a intenção de lançar ao menos 12 séries brasileiras por ano, levando em consideração produções novas e renovações.

Essa plena exibição e produção no formato seriado no Brasil se deve a uma série de fatores, mas o maior deles é a criação da Lei 12.485, popularmente conhecida como Lei da TV Paga, que obriga canais da tevê por assinatura a veicular em sua programação pelo menos três horas e meia de conteúdos audiovisuais brasileiros e, destes, pelo menos metade feitos por iniciativas de produtoras independentes.

Estudo divulgado no ano passado, intitulado de “Mapeamento e Impacto Econômico do Setor Audiovisual no Brasil”, lançado pela Associação Brasileira de Produção de Obras Audiovisual (APRO) em parceria com o Sebrae, mostrou um aumento de 318% no número de horas dedicadas às obras seriadas brasileiras na tevê fechada, passando de 703 horas, em 2008, para 2.943 horas, em 2014, dois anos após a implementação da lei.

“O mercado, certamente, evoluiu. Dá para ver pela quantidade e qualidade das séries”, analisa Fabiano Gullane, sócio-diretor da Gullane Filmes e criador da série Hard, produção a ser lançada pela HBO. “Estamos em fase embrionária, com os fundos, com serviços como Netflix e Amazon querendo investir no Brasil. É uma maré muito boa. O próprio mercado chegará a esse patamar”, completa Breno Silveira, diretor de 1 contra todos, série brasileira  há três temporadas no ar na Fox.

“O desenvolvimento das séries foi impressionante, tanto no que diz respeito ao fator quantitativo, do número de produções e sua diversidade, quanto ao qualitativo, implicando séries primorosas no que diz respeito à qualidade temática, narrativa e estética, contribuindo para atrair e prender o telespectador. Esse cenário também foi favorecido pela migração de profissionais de outras áreas, que passaram a ver as séries como mais uma possibilidade de trabalho”, analisa Sílvia Góis Dantas, doutora em ciências da comunicação pelo PPGCOM-USP e autora do estudo “As séries televisivas no contexto da ficção nacional: uma aproximação”.
 
 1 contra todos, com Julio Andrade: história ganhará uma adaptação no México(foto: Rachel Tanugi Ribas/Divulgação)
1 contra todos, com Julio Andrade: história ganhará uma adaptação no México (foto: Rachel Tanugi Ribas/Divulgação)
 
 
Audiência

Mas os números não ficam apenas na quantidade de séries em exibição. Em alguns casos específicos, eles estão indo além e chegando à audiência. 1 contra todos, indicada ao Internacional Emmy Awards 2017, é a série brasileira mais assistida da história da Fox e deve ter uma adaptação mexicana. Ela é uma coprodução do grupo Fox Networks com a Conspiração. A HBO revelou que O negócio, feita em parceria com a Mixer Films, até dezembro do ano passado, era a segunda série mais assistida do canal na América Latina, perdendo apenas para Game of thrones.

Dados da Netflix mostram que 3%, parceria com a Boutique Filmes, é a segunda série mais “maratonada” da plataforma no mundo, atrás apenas de American vandal, além de ter tido o título de série em língua não inglesa mais assistida nos Estados Unidos — perdendo o posto recentemente para a produção espanhola La casa de papel. “Acho que é muito bom que estejamos fazendo muitas séries. Como toda indústria que começou a se aquecer independente, estamos aprendendo bastante. A melhor postura é de confiança na nossa capacidade. Tem muita coisa boa sendo feita. É importante não ter nenhum pingo de arrogância para que a gente continue nessa onda por muito tempo”, afirma Pedro Aguilera, criador de 3%, que estreia a segunda temporada amanhã na Netflix (veja quadro).

Pedro Morelli, diretor de Rua Augusta, produção da TNT em parceria com a 02 Filmes, concorda. Para ele, desde que as leis de incentivo começaram a estimular os canais a produzirem no Brasil, o mercado respondeu positivamente. “Os profissionais vão trabalhando cada vez mais e, por consequência, as séries vão ficando cada vez melhores. É da quantidade que se extrai a qualidade. Estamos no caminho certo para criar uma indústria audiovisual mais forte, com cada vez maior comunicação com o público”, aponta.

Rua Augusta, protagonizada por Fiorella Mattheis, é uma das séries da safra de 2018(foto: TNT/Divulgação)
Rua Augusta, protagonizada por Fiorella Mattheis, é uma das séries da safra de 2018 (foto: TNT/Divulgação)


Comparação

Mesmo com uma boa safra de séries no Brasil, o país está longe de produzir na mesma quantidade que EUA e Europa, além de ainda não ter um investimento parecido.

Estima-se que o custo da produção de uma série no Brasil tenha uma variação de R$ 250 mil até R$ 1 milhão, por episódio. Mas, de acordo com o estudo da APRO e do Sebrae, a maior parte dos canais tenta viabilizar a um custo de R$ 200 mil. Friends, uma das séries mais conhecidas mundialmente, gastava US$ 10 milhões por episódio. 

“Quando comecei a fazer cinema, as pessoas tinham muita vergonha. Quando comecei a fazer as séries, fiquei com essa pulga atrás da orelha. Para nós, é um desafio, a gente não tem o mesmo orçamento. É feito com muita garra, com bons diretores e atores. Não sei se batemos de igual para igual, mas vamos tentar”, garante o diretor Breno Silveira. “Essa questão de disputar com o mercado internacional, temos qualidade para isso e outras plataformas, além da Netflix, que conseguem ser assistidas lá fora”, completa Pedro Aguilera.

Num país conhecido pela excelência nas novelas, será que o Brasil já tem um estilo próprio em suas séries? Aguilera acredita que não: “Acho que não existe muito isso de estilo próprio”. Felipe Braga, criador da série Samantha!, com estreia este ano na Netflix, falou sobre o assunto em painel da Rio 2C, no RJ. “Temos o privilégio de sermos de uma geração que trabalha com o streaming. Isso cria uma pressão narrativa de contar histórias de uma maneira diferente. Faz com que você deseje ver um desenvolvimento do personagem que puxe para o dramático”, afirma.

Atualmente, as séries acabam bebendo da fonte dos folhetins e também do cinema. Das novelas, o que vem, principalmente, são os atores. A maioria dos protagonistas fez nome nas novelas. Do cinema, vem a expertise das produtoras e dos diretores.

“Embora a série se alimente também dessa tradição (da novela), possui características próprias, como, o arco dramático mais definido. As séries têm se mostrado um grande local de experimentação de novos estilos e linguagens, com liberdade criativa. O diálogo entre os gêneros é cada vez mais evidente”, afirma Sílvia Góis Dantas.



Duas perguntas /  Sílvia Góis Dantas


Já é possível dizer que existe uma “cara” ou uma marca das produções brasileiras?
É difícil identificar uma “cara” diante da multiplicidade que temos hoje. Mas impressiona a qualidade e os atravessamentos de várias influências: cinema, telenovela e séries estrangeiras também. Podemos ver que há um hibridismo cada vez mais forte.


O que causou esse boom em torno das séries?
As séries já fazem parte do nosso cotidiano há bastante tempo. O que temos percebido é que o contexto digital facilitou a circulação dos produtos audiovisuais, fazendo surgir  hábitos na dinâmica de assistência. Na internet, a repercussão se espraia mais rapidamente.  Todo esse contexto contribuiu para esse boom. Vale ressaltar que o interesse pelas séries, além do público espectador e da crítica especializada, tem aumentado consideravelmente nas pesquisas acadêmicas.



Nova temporada

Criada por Pedro Aguilera, 3% foi a primeira aposta na Netflix no Brasil. Lançada em novembro de 2016, a série chega à segunda temporada amanhã com 10 episódios, sob forte expectativa, já que teve críticas negativas no Brasil, mas foi aclamada lá fora. 

A sequência tem como foco a chegada do processo 105 e como  Maralto e o Continente se preparam para a seleção dos escolhidos para viver uma vida de privilégios.“Tínhamos o desejo de tanger o universo do Maralto e do Continente. Somos totalmente a favor de buscar análises para sempre melhorar. Não existe série perfeita”, avalia Pedro Aguilera.

A atração tem o retorno de Bianca Comparato (Michelle), Vaneza Olivera (Joana), Rodolfo Valente (Rafael) e Michel Gomes (Fernando), além de novos nomes no elenco. “Quando decidimos que a segunda temporada expandiria os universos, tínhamos que ter novos personagens interagindo de outras maneiras”, completa Aguilera.
 

Lançamentos de 2018


Rio heroes

1 contra todos (3ª temporada)

O negócio (4ª temporada)

Mil dias -- A saga da construção de Brasília

3%

Rua Augusta

O mecanismo

Rotas de ódio

Desnude

Onde nascem os fortes

Carcereiros

Mister Brau

Brasil a bordo

Borges

O11ze

Zoo da Zu

Valentis (2ª temporada)

Fora do armário


O que vem por aí


A garota da moto (2ª temporada)

Samantha!

Z4

A divisão

(Des)encontros

Lendas urbanas

Hard

Pico da neblina

Contos Dumont — Mais leve que o ar

O hóspede americano

Sintonia 
 

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