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Correio Braziliense

Artista e quadrinista, Luiza Lemos buscou inspiração em si para temas trans

Quadrinista aumenta a representação da diversidade no mundo dos quadrinhos


postado em 26/04/2018 07:28

Tiras de Luiza Lemos apresentam questões do dia a dia de uma mulher trans(foto: Internet/ Reprodução)
Tiras de Luiza Lemos apresentam questões do dia a dia de uma mulher trans (foto: Internet/ Reprodução)
 
 
Mulher trans, a artista e quadrinista Luiza Lemos, 40 anos, sentiu, ao fazer a transição, que os personagens desenhados por ela não a representavam mais. Luiza passou, então, por um período de seca criativa, sem saber o quê e como desenhar. Até que, ao assistir a um programa de televisão, veio a ideia: por que não contar a própria história?

“Vi um dos apresentadores dizendo que quando era adolescente vivia triste dentro do armário, imediatamente me veio a imagem à mente de uma pessoa literalmente dentro de um armário, agachadinha e triste. Essa imagem daria um quadrinho, mas qual?”, lembra. A resposta para a pergunta também veio logo. “Eu era a pessoa agachadinha no armário, que melhor história pra contar além da minha própria?”, conta.

A partir disso, em 2016, Luiza produziu a primeira história que daria origem ao projeto Transistorizada. Com uma narrativa curta, ela conta no quadrinho como literalmente saiu do armário com ajuda de um casal de amigos e como o processo de aceitação própria a ajudou. “Eu estou radiante, é como se eu estivesse me vendo pela primeira vez”, diz a personagem da HQ ao se vestir com roupas femininas.

Depois dessa vieram mais histórias e Luiza começou a divulgar o trabalho periodicamente na página do projeto no Facebook (www.facebook.com/transistorizada/). “Hoje, só o YouTube bate a eficiência do Facebook em divulgação de material independente, mas não é o caso do meu material. Publiquei uma tira recentemente, com uma crítica política, e ela chegou a mais de meio milhão de visualizações”, avalia.

Mudanças

Contar a própria história ajudou no processo de lidar com as mudanças e as dificuldades da transição, conta Luiza. “As minhas tiras são um canal de expurgo para os meus dramas pessoais. Para mim, esses dramas acabam se tornando material de trabalho”, explica.

Para ela, o material pode ajudar também outras pessoas que passam pela mesma situação e que ainda não encontraram meios de expressar questões pessoais. “Muitas pessoas trans não têm um meio de lidar com seus dramas diários relacionados ao preconceito. Então, as tiras ajudam não só a mim, mas também a outras pessoas que se identificam com as situações que eu vivi”, acredita.à

 
 
Duas perguntas / Luiza Lemos
 
 
É importante utilizar a arte para tratar de questões assim?
 
Sim, acho muito importante. As questões trans vêm sendo mais comentadas atualmente, mas sempre com um peso muito grande, tendo em vista que o Brasil é campeão mundial em assassinato de transgêneros e travestis. Nas minhas tiras, tento tratar assuntos de fundamental importância dentro da militância Trans e LGBTQAI com mais leveza, usando humor. Acho que isso não seria possível senão por uma forma de arte.

Desde que começou a publicar, a visão das pessoas mudou de alguma forma?
 
Eu penso sempre que o desapego ao resultado é algo de fundamental importância em qualquer luta social. O que eu faço agora é criar e divulgar uma mensagem, mas não sei se eu ainda colherei os frutos dessa luta, como eu disse, o Brasil é ainda o país que mais mata pessoas trans no mundo (dados do grupo Transgender Europe), e os haters, com quem eu lido a cada publicação, nunca me deixam esquecer disso . Mas acredito que estou contribuindo para que gerações futuras não vejam mais com tanta estranheza pessoas como eu, e que pessoas trans no futuro tenham vidas normais, sem precisar recorrer a coisas como prostituição ou trabalhos subalternos, mas que possam escolher como qualquer outra pessoa o caminho que queiram dar às suas vidas.

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