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Correio Braziliense

O centro do tropicalismo está na figura do cinema Rogério Duarte

Documentário de José Walter Lima desvenda as múltiplas camadas do designer gráfico fundamental para a tropicália


postado em 26/04/2018 07:37 / atualizado em 25/04/2018 20:23

Rogério Duarte é captado por sensível documentário(foto: Internet/ Reprodução)
Rogério Duarte é captado por sensível documentário (foto: Internet/ Reprodução)


Numa fila de supermercado, vendo o amigo de longa data, o designer e agitador cultural Rogério Duarte muito debilitado pelo câncer, o cineasta José Walter Lima optou por “fazer alguma coisa por ele”, conforme o pedido de um filho de Duarte. Ingressou na viagem da produção de um documentário, a princípio sem recursos. “Rogério era uma pessoa superdifícil; um louco do bem. Difícil não, assim, socialmente; mas, no trabalho... (risos): antes mesmo das filmagens, ele já dizia 'Não vá fazer um filme careta'. Se eu falava em vanguarda, ele logo rebatia: 'a vanguarda já acabou' (risos)”, conta o diretor, ao relembrar do amigo, morto há dois anos.

 

À medida em que conta como 'ganhou o mundo', no filme Rogério Duarte, o tropikaoslista, o baiano — que foi artista gráfico, músico, compositor e poeta, além de ter formatado os primórdios da Tropicália — confirma que despendia a energia, para não pirar. Já alijado da juventude, no filme, ele se percebe, entre outros pejorativos, como irado, desconfiado, mesquinho e covarde. Quanto a ser expoente da cultura (posição formatada por mais de 50 anos), Duarte é categórico, destacando a fama como “neurose, histeria e doença de rebanho”.

 

Cercado de notáveis, como o educador e jurista Anísio Teixeira, a arquiteta Lota de Macedo Soares e a poeta Elizabeth Bishop, além do "melhor" amigo da vida, o cineasta Glauber Rocha (para quem desenvolveu os cartazes de Deus e o diabo na terra do sol e A idade da Terra), Rogério Duarte é quem conduz a narrativa do anedotário e da errância, no documentário, ciente de que absorveu muito das personalidades com as quais andou. A amizade com o cineasta José Walter se afirmou nos anos de 1960, no Rio de Janeiro, quando da ocasional convivência no Solar da Fossa — a casa de fazenda em que circularam Caetano Veloso, Zé Kéti e Paulinho da Viola, entre tantos outros.

 

“Com o filme, quis resgatar nossa estética. Acho que até surpreendi o Rogério, sabendo tudo sobre ele; destrincei muito, antes de chegarmos ao set. Documentário, aliás, se faz na edição. Estive com ideias como a de incorporar o xadrez (habitual jogo na vida do agitador cultural) como diretriz do filme. No final, quis agregar nosso imaginário imagético e, numa voltagem nuclear, abri o documentário com a gama de fotografias que recontam o século 20”, observa o diretor. Uma curiosidade também foi a de ele não depositar peso em depoimentos de personalidades como Caetano Veloso e Gilberto Gil. “Preferi deixá-los cantando coisas como Gayana e Não tenho medo da vida”, explica o mesmo diretor de filmes como Brasilienses (1984) e O alquimista do som (1978).

 

Luxo na capital

 

Parte dos predicados na carreira de Rogério Duarte estiveram ligados a Brasília, cidade em que atuou como diretor do Museu de Arte de Brasília, nos anos de 1990, e como produtor cultural. Das experiências nas quais foi coordenador de laboratório gráfico da Universidade de Brasília restaram muitas assertivas introduzidas no discurso do filme. Descrente da mera imaginação como combustível para as criações artísticas, Duarte encoraja os pares a se notarem como “médiuns das cores”. No campo das letras, o poeta defende o texto que respeite como “as palavras querem se reunir”.

 

Produto de uma Bahia efervescente, a Tropicália, gerada no meio em que despontaram a pintura de Calasans Neto, a circulação da revista Mapa, as récitas de Anecy Rocha (que foi companheira de Duarte) e o teatro de Martim Gonçalves, se fixou em muito nas imagens de capas (de discos) e nas composições às quais Rogério Duarte se dedicou, firmando parcerias com Gilberto Gil e Caetano Veloso. Para o imenso João Gilberto, por exemplo, o desapegado artista (enfiado numa fase de fazendeiro), quando sob pedido de encomenda para outra capa de LP, cobrou o custo “de cinco vacas”, como dito no documentário.

 

Underground, por opção, o esteta nacional da contracultura, que se alinhou a personalidades como Hélio Oiticica, Glauber Rocha e o escritor Luiz Carlos Maciel, chega à telona, sob o enorme elogio do amigo José Walter Lima — “ele foi um iconoclasta maravilhoso”. “A função do artista é plantar uma sementinha, é despertar. O filme vem quase 50 anos depois da instituição do AI-5. Acho um tripé importante, ver a remontagem de O rei da vela, a circulação de um filme sobre Torquato Neto e outro do Rogério. Parece que vem uma base para que cada um monte sua pirâmide de pensamentos revolucionários, na linha do xadrez defendido pelo Rogério Duarte. Acredito em ciclos, e acho que estamos demorando neste tempo muito mal. A arte consumida apenas pela classe média é convencional, e fica abaixo da mediocridade. Antes tínhamos um país periférico, mas com cultura de ponta. Temos que nos atentar para o que consumimos”, conclui o diretor. 

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