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Correio Braziliense

Companhias das cidades do DF são espaços de descoberta e experiências

O trabalho mescla profissionalismo com inserção social para jovens talentos


postado em 02/05/2018 07:30

Em Planaltina, não há teatros, mas o Transições se tornou uma referência de dança na cidade. Em Ceilândia, a I9 Cia. de Dança ensaia numa sala improvisada em uma casa e, em Taguatinga, o Corpo de Dança Noara Beltrami conta com a criação de um coreógrafo que já trabalhou para a São Paulo Companhia de Dança. Esses grupos fazem parte de uma cena que cresce, apesar das adversidades, e que ajuda a reforçar a periferia do Plano Piloto como um espaço rico na criação coreográfica e na formação de jovens bailarinos versáteis, capazes de se movimentar em estilos que vão da street dance e do charme ao balé clássico. Veja como nasceram e como trabalham essas companhias, todas mantidas na base do voluntariado e de vontade de fazer dança, independentemente das barreiras.

(foto: I9 Cia. de Dança/Divulgação)
(foto: I9 Cia. de Dança/Divulgação)


Brasilidade

Uma das marcas do trabalho do Transições é a importância dada à identidade cultural brasileira. Criada em dezembro de 2014 pelo coreógrafo e bailarino Lehandro Lira, a companhia composta por 20 pessoas tem orgulho de dizer que é de Planaltina, embora hoje haja membros de várias cidades, a maior parte da região sul do DF. “A gente compõe esse leque descentralizado para desenvolver um trabalho de macro e microrregiões”, avisa Lira. “A cena de dança em Planaltina não é tão forte, mas a gente quer galgar esse lugar.”

Aos poucos, é essa a mesma trajetória desenhada pelo grupo. Em 2016, eles ganharam o edital circulação do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) com o espetáculo Faces de um povo centenário, sobre a história de Planaltina. Também representaram a cidade no Festival de Dança de Itajaí (SC). Manguezais, apresentado recentemente no Movimento Internacional de Dança (MID), ganhou o prêmio de melhor coreografia no festival Despertar da dança, tradicional em Taguatinga há mais de 15 anos.

Com outra coreografia, Aberto para balanço, a companhia foi premiada no festival Danças populares, do Sesc. “Como tenho origem nordestina, sempre tive contato com a dança popular e o objetivo do Transições é esse hibridismo de linguagens de corpos, mostrando a identidade de cada bailarino”, avisa Lira. Respeitar a origem do bailarino é importante para Lira, formado pelo Instituto Federal de Brasília (IFB). “Alguns dos nossos bailarinos nem formação têm, alguns vêm de quadrilhas juninas e a maioria não tem a vivência da dança clássica”, explica.

A companhia vive de cachês, prêmios e eventuais editais. Todos são voluntários e, mesmo assim, Lehandro Lira faz questão de realizar um trabalho de formação com oito crianças de 8 a 11 anos. “Como nunca tive acesso fácil à dança, quero dar a essas crianças o que não tive. A dança motiva a gente a recomeçar e traz esse lugar de afeto, de amor, de formação de opiniões. Ajuda a refletir”, garante o coreógrafo.


Inserção

Hoje com 25 bailarinos, a In steps nasceu dentro do Centro de Orientação Socioeducativa da Ceilândia Norte, com uma proposta de inserção social. O projeto acabou, mas o coreógrafo e bailarino Alan Papel decidiu dar continuidade e, em 2010, migrou as oficinas e ensaios para o Centro Cultural de Ceilândia. “Para não perder os diamantes que lapidamos lá”, explica. “Nosso trabalho tem essa pegada social de inserir os jovens no mercado da dança. E tem sim um mercado”, avisa.

Break e street dance são o forte da In steps, que participa de competições como o festival Quando as ruas chamam, organizado pelo Sesc e que colocou Ceilândia na rota das cidades consideradas mais importantes na expressão do break. “É uma dança que sempre teve essa visão de marginal pela sociedade. A gente vem quebrando esse paradigma com oficinas nas escolas, mostrando para os pais que é um trabalho sério e que pode dar ferramentas aos jovens para atuar”, garante Papel. “O jovem se identifica e quer se superar. E como tem essa questão de movimentos de nível de dificuldade alta, isso atrai.” Conscientizar por meio da dança é um dos lemas do coreógrafo, que conta apenas com os projetos, aulas e apresentações para manter a companhia. Até hoje, mais de 300 bailarinos já passaram pela In steps.



Com charme

Dança é saúde física e mental. Norteado por essa ideia, Edgar Fortunato fundou a Massa Charme, companhia que conta hoje com 15 integrantes, sendo sete dançarinos, e se tornou uma referência do estilo charme na Ceilândia. Fortunato atua no movimento há mais de 15 anos. Aluno de licenciatura em dança e educação física no IFB, ele acredita que é preciso continuar a alimentar uma cena que não é nova e existe há mais de três décadas. “O charme é um ritmo que tem o estilo musical do R&B, do hip-hop. Quem apresentou para nós foi o DJ Celsão, que faleceu há três anos. Ele veio com essa bagagem na década de 1970, do Rio, quando surgiram os primeiros bailes de música americana com batida diferenciada”, explica. “Aí a gente entrava com a dança com movimentos sensuais. O charme não é somente a dança, é a música também.”

Primeiro com o nome Pra cima, o grupo de Fortunato participou do Festival Marco Zero, no ano passado, e do JK Jam, em 2016. Agora como Massa Charme, que estreou em abril no MID, o grupo cresceu exatamente para incorporar um número maior de pessoas. Hoje, participam dançarinos que integram o Programa Jovem de Expressão, de Ceilândia, mas também pessoas de todo o DF. “Com certeza é um ritmo periférico e tá partindo da periferia e chegando ao centro. E está sendo bem aceito. O charme tá tomando uma proporção enorme”, avisa Fortunato.



Experiência

Warley de Castro começou a dançar na Danzare, uma escola de Taguatinga. De lá, fez aulas com Lúcia Toller e integrou a companhia de Rodrigo Mena Barreto por cinco anos. Participou de competições de dança, fez aulas com Noara Beltrami e hoje faz parte da Foco Cia. de Dança. A experiência foi fundamental para montar a I9 Cia de Dança, grupo com 10 integrantes que ensaia no P Norte, em Ceilândia, e se apresenta em festivais e mostras do DF.

“Trabalhamos com a ideia de levar um pouco de reflexão, emoção e sentimento para as pessoas. A ideia é fazer a galera pensar. É difícil fazer dança no Brasil em geral, mas muito da questão da dança na periferia é a de oportunidade. Quando as pessoas têm oportunidade de fazer algo, elas se esforçam mais”, garante Castro. Para formar os integrantes da I9, ele conta com o apoio da escola de Noara Beltrami, em Taguatinga. Aluno da instituição, o dançarino também dá aulas e, em troca, utiliza o espaço para formar os integrantes da companhia.

Agora, Castro começa também a dar os primeiros passos como coreógrafo. Durante o MID, fez uma inserção na apresentação do Corpo de Baile Noara Beltrami. “Sempre tenho um olhar que vai para diversas possibilidades das situações e comecei a tentar levar para meu trabalho perspectivas diferentes das variadas situações. A gente vive em um mundo cheio de regras e tento quebrar isso”, diz.

Contemporâneo

O Corpo de Baile Noara Beltrami é uma referência em dança contemporânea e clássica em Taguatinga. Criado em 2008, conta hoje com 32 bailarinos entre 15 e 20 anos e um repertório premiado. Em 2017, a Suit a 4 mãos, do coreógrafo Fabiano Lima, ganhou o primeiro lugar no Festival de Dança de Joinville. O Corpo de Baile tem duas vertentes, a clássica e a contemporânea. Os bailarinos são voluntários e muitos contam com bolsa na própria escola para aperfeiçoar a formação. “Temos muitos talentos e pessoas que não têm condições de dançar. Aqui damos bolsa de estudos, fazemos bazar, vendemos alimentos, tudo para que eles consigam vir ensaiar. Para segurá-los, a gente tenta oferecer o máximo de aulas e, às vezes, alguns até fazem estágio na escola”, conta Noara. “Mas, às vezes, perdemos para o Plano Piloto, porque as companhias de lá acabam recrutando nossos bailarinos.”
 
 
 
 
 



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