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Correio Braziliense

Aderbal Freire-Filho: 'O teatro está cada vez mais forte'

Aderbal Freire-Filho dirige espetáculo de Vianinha e faz importante reflexão sobre o tempo e as narrativas de heróis do cotidiano


postado em 06/05/2018 06:33

Aderbal é diretor na peça Vianinha conta o último combate do homem comum, em cartaz na Caixa Cultural(foto: Cláudia Ribeiro/Divulgação)
Aderbal é diretor na peça Vianinha conta o último combate do homem comum, em cartaz na Caixa Cultural (foto: Cláudia Ribeiro/Divulgação)

Aderbal Freire-Filho nasceu em Fortaleza e mudou-se para o Rio de Janeiro para iniciar uma rica trajetória entre os palcos e bastidores do teatro contemporâneo. Fundador do Grêmio Dramático Brasileiro, o diretor prioriza o trabalho do ator como ponto de força principal na expressão cênica.

Em Vianinha conta o último combate do homem comum, espetáculo escrito por Oduvaldo Vianna Filho (ou Vianinha), o diretor trabalha com a importante narrativa de heróis do cotidiano. Em busca de constante renovação, Aderbal destaca a necessidade de se relacionar com o presente, mergulhando, em cada espetáculo, em sua própria contemporaneidade.

Para ele, o teatro proporciona uma reflexão em seu público. A identificação com a narrativa seria o ponto de partida para a criação de um bom diálogo. Depois de uma vida inteira de trabalho, de um casamento de longa data e com cinco filhos criados, o personagem Souza (Rogério Freitas) se vê mediante um conflito: ele não tem mais onde morar.

“Esse personagem está em muitas peças do Vianna, esse homem comum tem uma importância para a sociedade. A gente vê até mesmo a importância que teria para o Brasil agora, de uma luta que precisaria ser da sociedade, da maioria. Como manter essa consciência, clareza, capacidade de resistência no seu meio, no seu lugar de trabalho, na sua família?”, destaca o diretor.

Aderbal lembra que esse homem comum que Vianinha mostra é resistente, acredita na própria ética, nas convicções dele. Para o diretor, a dramaturgia pode ser um espelho da própria sociedade. Esse homem comum é a possibilidade de transformação, de construir uma maioria que não se deixa levar pela hipocrisia, e sim pelo código pessoal de ética.

Reflexivo, ele lembra que esse homem representa bem cada um de nós, a sociedade em que vive, e deve impor nela de alguma forma seu protagonismo, sua ação. “Isso é feito de maneira involuntária, porque esse homem não quer ser protagonista, quer ser mais um e cumpre seu papel. O lugar onde essa batalha se trava é a casa, a família. Esse lugar é um pouco a sua tribuna, não de forma panfletária, mas é um lugar de encontros, o eixo da família”, destaca.

Uma mesa de centro permanece o tempo inteiro no palco e transita entre diferentes ambientes como um símbolo que retrata o encontro e as relações entre os personagens. Vianinha expressa todos esses pensamentos com humor e inteligência, trabalhando o texto de forma trágica e, ao mesmo tempo, cômica.

Aderbal destaca que uma das qualidades da dramaturgia criada por Vianna é a capacidade de manter um diálogo constante entre o humor ácido e as narrativas dramáticas. No palco, o público pode acompanhar algumas cenas que se desenrolam em uma atmosfera cômica e, ao mesmo tempo, trazem uma narrativa triste. “Acho essa combinação uma ótima forma de expressão, esse diálogo dele se comunica muito”, lembra o diretor.

A passagem do tempo e a mudança das relações humanas ganham protagonismo no espetáculo que mostra um homem imerso em sua própria solidão. Apesar de ser um drama, Vianinha conta o último combate do homem comum traz um humor que imprime uma dimensão humana aos seus personagens.


Vianinha conta o último combate do homem comum
Teatro da Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul QD 04). Hoje, às 19h. Ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Não recomendado para menores de 14 anos.


Duas perguntas / Aderbal Freire-Filho


O teatro ainda tem a mesma força de diálogo, reflexão e transformação com o público mais jovem e atual?
O teatro, enquanto poética, enquanto expressão, enquanto linguagem, é cada vez mais forte. O teatro desenvolveu essa força desde o século passado. Desde o cinema dizem que o teatro vai morrer. Desde então, ele foi reduzido a uma parte das artes cênicas, mas desde aí, cresceu, descobriu a sua verdadeira identidade. O paradoxo é que, agora que o teatro é maior, ele é menos importante socialmente em países que o colocam dessa maneira. Em outros países, ele continua com uma importância social forte, enquanto, no Brasil, já foi possível até mesmo criminalizar o teatro. Essa perda da importância social vem pela falta de tradição cultural e pelo combate à educação que interessa às forças dominantes. Por não atender as questões do mundo de reprodutibilidade técnica, o teatro tem um campo limitado em sua natureza. Ele acontece ali, naquele lugar, naquele instante. Que venham os jovens, é deles que pode vir a transformação, a revolução, se os jovens lutarem por uma educação, eles podem fazer com que o teatro conquiste novamente a sua importância necessária.


Você acumula uma ampla e bonita trajetória nos teatros. O que mudou no seu processo criativo e na sua relação com a criação teatral desde o início da carreira?
Muita coisa muda na trajetória de qualquer artista em um tempo tão longo quanto o meu e muitas coisas continuam as mesmas. Tenho preocupação sempre com o sentido do teatro do espetáculo, o que ele pode dizer para o público de hoje. Muitas vezes eu monto um teatro com um texto contemporâneo e outras vezes a gente monta textos que foram escritos em outras épocas. Um espetáculo deve buscar a sua contemporaneidade, seja com um texto clássico, antigo, seja com um texto contemporâneo. O espetáculo é uma recriação sempre. Essa é uma das minhas preocupações, reescrever os textos, sejam clássicos, sejam contemporâneos. O teatro é um acontecimento que só se conclui no palco. Eu acredito muito na forma, tudo que é uma poética. Eu, até hoje, e desde o começo, sempre busquei uma expressão física do teatro, seu desenho coreográfico, uma busca de signos, seus significantes cênicos. Tudo que tenha a ver com uma poética das cenas, suas metáforas. Sempre busquei estender os limites das possibilidades do palco.
 
 
 
 
 
 


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