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Correio Braziliense

Leia fragmentos inéditos da obra deixada pelo compositor Guilherme Vaz

Autor de mais de 60 trilhas sonoras, Guilherme Vaz gostava de falar e de escrever sobre Brasília


postado em 07/05/2018 06:30 / atualizado em 06/05/2018 16:43

Guilherme Vaz morreu em decorrência das complicações de uma pneumonia(foto: Paquini/Divulgação)
Guilherme Vaz morreu em decorrência das complicações de uma pneumonia (foto: Paquini/Divulgação)


Inventivo, experimental, audacioso, brilhante, provocador e polêmico. Essas eram marcas distintivas do compositor Guilherme Vaz, o mais premiado músico do cinema brasileiro, autor de mais de 60 trilhas sonoras. Se considerava um artista inteiramente forjado pelo projeto original da Universidade de Brasília (UnB), cravejada pela música de vanguarda e pela melhor tradição do cinema. Na UnB, teve “aulas transcendentes” com os maestros Claudio Santoro e Rogério Duprat; com o crítico Paulo Emílio Sales Gomes e com o cineasta Nelson Pereira dos Santos. Além disso, ouviu e dialogou com Glauber Rocha, Oscar Niemeyer, Athos Bulcão, em aulas especiais.

Se destacou pelas trilhas sonoras de A rainha diaba, de Antônio Carlos Fontoura, Fome de amor, de Nelson Pereira dos Santos, O anjo nasceu, de Júlio Bressane, e Veneno da madrugada, de Ruy Guerra, baseado em obra de Gabriel García Marquez. Mineiro de Araguari, viveu intensamente o projeto original da UnB: “Não era só uma universidade; era um projeto de civilização”, dizia Guilherme. Ele morreu aos 70 anos, no Rio de Janeiro, na semana passada, depois de permanecer internado por causa de uma pneumonia.

Viveu em Paris e morou com os índios em Roraima. Nestes fragmentos inéditos, Guilherme esgrime a inteligência e o espírito de polêmica ao tecer comentários sobre temas e personagens essenciais de Brasília.

O rock de Brasília

Houve um tempo em que não se aceitava a energia elétrica, mas eu tive a oportunidade de dizer que sem a força de amplificação elétrica não se consegue preencher os enormes vazios de Brasília. O país tinha de ser elétrico um dia, não é isso que o torna menos brasileiro. Pelo contrário: adianta a complexa civilização dos cafuzos para passos maiores. Brasília é diretamente ligada à ideia do elétrico, do abstrato energético, da energia difusa no éter, no ar. Essa capital de altitude a mil metros do mar é de crítica importância para o Brasil, acostumado a se remexer nos pântanos e mangues conceituais e ideativos do litoral. É uma mudança radical de ideação e organização do pensamento. A música elétrica tem a ver com tudo isso.


Punk do cerrado

O bacana do Renato Russo é que ele não se tornou “um tropicalista de litoral”. Não fez sambinhas para agradar aos malandros do litoral, mas permaneceu “candango” elétrico e “cantando desafinado” e dançando de forma desajeitada no palco. Ele permaneceu “punk do cerrado”, fiel a Brasília. Esse valor é muito claro nele. Não negou a sua origem candanga.

Sinfonia da Alvorada 1

Sem nenhum demérito ao Tom, mas a Sinfonia da Alvorada poderia ser tocada na Mata Atlântica, ou mesmo perto do pantanal, embora ela seja um documento de certa qualidade e ordem. Mas não de Brasília. Não se pode imaginar uma “sinfonia de Brasília” que não seja absolutamente galaxial, permeada de música concreta, ruídos de todos os tipos e formas. E mais antiga pré-história do mundo ao mesmo tempo, além das pulsações da Festa do Divino, já presentes aqui desde 300 anos atrás. Isso só para imaginar o começo da questão de uma sinfonia ou de sua concepção plasmática, de como plasmar esse teatro de lutas entre mitos e gigantes. Esse é o meu desenho de autor.


Sinfonia da Alvorada 2

É uma obra desajeitada, como tudo que é novo. Considero os textos que o Tom Jobim e o Vinicius de Moraes escreveram para a contracapa do disco magníficos e talvez superiores à própria Sinfonia da Alvorada. Faltou o silêncio do planalto. Naquela época, a região era desconhecida e Guimarães Rosa era um dos poucos que conheciam o cerrado. Mas a atitude do Tom de entrar na mata do Catetinho e conversar com as jaós por meio de apitos é um gesto de grandeza de um homem do Sudeste, quando muitos preferiam, como escreveu Vinicius, governar o Brasil a partir das boates de Copacabana.


Conversa com jaós

O jaó é uma ave rasteira brasileira rara e difícil de se ver nas matas por ser muito sensível e arisca, um belíssimo pássaro do chão. O Tom tinha uma coleção de “pios” de madeira. Eu vi a coleção nas mãos do Paulinho Jobim, um conjunto, uma orquestra imensa, cerca de uma centena de instrumentos de madeira que repetem os cantos da fauna brasileira. Quem fabricou aqueles instrumentos e seus sistemas sonoros beira a genialidade. Quero descobrir quem os fabricou, porque esse sujeito é um ser dotado de grande inteligência.


Guimarães Rosa

Talvez seja o autor do cerrado por excelência. O famoso Rio Urucuia, que ele cita em sua ficção, hoje está apenas a alguns quilômetros de Formosa. Sem contar a visão psicanalítica de Nelson Rodrigues, que iniciou a psicanálise do Oeste ao escrever que Brasília é a derrota dos cretinos. Isso é genial! E outra coisa importante, não se faz nada sem conhecimento, mas não é o conhecimento acadêmico, ou só ele. O conhecimento depende da soma das intuições, em muitas formas, e quanto mais a mente é clara ,mais clara é a obra.

O lugar de Brasília

O litoral se arrisca a estar “trezentos anos atrasados”, como na admirável afirmação de Euclides da Cunha, “trezentos anos nos separam”, quando pervagou pelos sertões da Bahia. Quando estou fora de Brasília, em qualquer outra capital do país, tenho a sensação de estar “trezentos anos atrasado”. A vasta complexidade brasileira se instalou. Ela estava em potência com Brasília, e o império da perplexidade está declarado, iluminando a lucidez e a inteligência dos que pensam e mesmo dos que não pensam.


Claudio Santoro

Claudio Santoro me passou uma excelência técnica que jamais eu teria com qualquer outro. E me passou, pessoalmente, isso não tem preço. A minha diferença metafísica com Claudio é que ele gostava de uísque bom e arte boa e eu, pessoalmente, gosto de jejum, de perplexidade e do Raso da Catarina, um deserto brasileiro. Nisso somos diferentes, digamos, em natureza.

O fim da história

O mais insensato contemporâneo (Francis Fukuyama) propôs o fim da história. Ora, ela é a mais revolucionária das ciências humanas, aquela que transforma a humanidade em algo mais do que uma aventura promovida por meia dúzia de comerciantes.

Cinema na UnB

Brasília foi cravejada pelo cinema e saturada por ele desde o início. Glauber Rocha, Godard e Kobayashi foram ensinados por Paulo Emílio, em aulas formadoras transcendentes. Glauber pela autoestima soberana, Godard pelo experimental, Kobayashi pelo asiático presente nos tupis e nos grupos indígenas protegidos pela Funai.


Tropicalismo e UnB

Esta evidência de que o tropicalismo nasceu em Brasília só é polêmica pela falta de estudo e vivência sobre a história brasileira recente. Eu sou testemunha de que foi a existência da Brasília original como projeto de vanguarda que fez Rogério Duprat acreditar na possibilidade de vida acústica inteligente no país. Duprat pode ter fundado o tropicalismo, mas foi Brasília quem fundou Duprat. O que se praticou de música experimental na UnB nunca mais vi em nenhuma outra, nem fora do país, não há similar conhecido no mundo naquela época. O ICA (Instituto Central de Artes) estava na frente. Duprat foi inventado ou se reinventou em Brasília. Foi de Brasília que ele percebeu e vivenciou a fala-canto “ no planalto central do país”, “sobre a cabeça os aviões”, depois colocada em música na Tropicália, por Caetano Veloso.

Vida com os índios

Morar com os índios me influenciou muito como artista e como pessoa. Os índios são ET’s reais, pressentimos que não estamos sozinhos, que há outras maneiras de olhar para o universo radicalmente diferentes. Esse encontro se deu prioritariamente entre os gavião-ykolem e os zoró-panganjej no chamado extremo oeste brasileiro. Para os índios, o instrumento é uma potência, uma forma que “está no ar” e que deve ser refeita a cada novo concerto. Foi Claude Levy-Straus que passou longo tempo no Brasil, quem disse, a partir das suas experiências entre os indígenas: “que eram as únicas sociedades capazes de passar por uma grande crise mundial e sobreviver “, uma guerra, por exemplo.

Cartão-postal

Acho que há um culto do cartão-postal, uma “cartopostalização” da arquitetura de Brasília. Grande parte do vazio da cabeça dos brasilienses se explica por esse vácuo dos valores. Contudo, espaços vazios não comandam o destino de uma cidade, mas sim o seu desenvolvimento intelectual, que se plasma na forma de pensar e nas práticas sociais transformadoras. Nenhuma arquitetura se justifica sem uma missão. A utopia tem muito mais a ver com Paulo Emílio Salles Gomes, Darcy Ribeiro e Rogério Duprat na UnB. A propaganda oficial nunca os cita. Mas não é culpa do Oscar Niemeyer e do Lúcio Costa, eles criaram novas formas e novos pensamentos e que foram esvaziados pelos regimes de exceção. Eles também foram vítimas desse processo histórico.

Solidão

“A imaginação brasileira nasce na solidão. Isso é perfeito e não é aqui a solidão pessoal, embora a englobe, mas a própria solidão das coisas e da civilização. O ermo e os sertões. É daí que nasce a civilização brasileira. Penso e uso sempre esse conceito, mas não é meu, é de um pesquisador do Ipea. Brasília é construída sobre o conceito de solidão, tanto nos vazios arquitetônicos quanto nos grandes espaços inabitados. Para mim, esse é o conceito da cidade. Começa assim: “Da solidão do planalto central antevejo o futuro de minha pátria. É o signo e a função transmetafísica que estão sempre presentes no conceito que funda Brasília.
 
 

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