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Correio Braziliense

Walter Franco ganha tributo de bandas da América Latina em álbum

De Brasília, Joe Silhueta e Consuelo participam das homenagens


postado em 08/05/2018 07:00

O cantor e compositor Walter Franco nos anos 1970(foto: Reprodução/Internet)
O cantor e compositor Walter Franco nos anos 1970 (foto: Reprodução/Internet)

O cantor e compositor Walter Franco, 73 anos, nunca esteve ligado a nenhum movimento musical brasileiro. A obra original e personalíssima do artista se recusa a banalidades (seja nas letras, seja na estrutura das canções). Talvez por isso mesmo o paulistano não seja tão lembrado quanto outros compositores da música nacional.

Franco causou rebuliço em passagens por festivais com canções como Cabeça, recebeu o rótulo de polêmico e gravou seis elogiados discos (cinco entre 1973 e 1982, e o mais recente em 2001). A obra enxuta do compositor, porém, permaneceu quase que restrita ao underground, apesar de alguns sucessos, como a própria Cabeça, Canalha e Serra do luar. Mesmo assim, Franco influenciou e inspirou novos músicos e compositores que beberam da poesia vanguardista do paulistano.

Organizado e idealizado por Leonardo Vinhas, o tributo Um grito que se espalha (o título foi retirado da clássica Canalha) homenageia agora, de maneira inventiva e corajosa, Walter Franco, com versões feitas por bandas e artistas do cenário indie. Além de brasileiros, grupos do Chile, do Uruguai e da Colômbia participam do projeto. Brasília tem dois representantes na iniciativa: o grupo Joe Silhueta e a banda Consuelo.

Ousadia 


“Organizar um tributo a uma obra desse porte, revisitando-a sob outras óticas, é um risco e um atrevimento. Quase uma sandice. Por outro lado, o criador dessa obra nunca foi reverente às formas musicais estabelecidas”, escreve Vinhas no texto de apresentação do projeto. “Aliás, essa é uma de suas mais valiosas lições: se perguntar ‘o que é que tem nessa cabeça, irmão?’, e procurar constantemente a resposta. Quinze artistas toparam o desafio de se perguntar isso, e responder em forma de uma versão para uma composição de Walter Franco”, completa.

A ideia era recriar as canções de Walter Franco, com toda a ousadia que isso exige. As 15 faixas do tributo, por isso mesmo, passam longe de soar como versões requentadas ou reverentes demais às gravações originais. Cada grupo imprimiu o próprio estilo e pegada na versão feita para o álbum. Da psicodelia ao minimalismo, Walter Franco surge reinventado no tributo.

Destaque da atual cena musical brasiliense, o grupo Joe Silhueta foi um dos convidados a recriar canções de Walter Franco. “A gente tem uma grande admiração pela obra do Walter. Gosto muito das letras dele, a síntese que ele alcança, o sabor que ele dá pra cada palavra, os vários sentidos que vão surgindo a cada repetição”, comenta o vocalista Guilherme Cobelo.

Walter Franco influenciou artistas da nova geração da música brasileira(foto: Reprodução/Internet)
Walter Franco influenciou artistas da nova geração da música brasileira (foto: Reprodução/Internet)


O grupo foi buscar no álbum Revolver (1975) a canção escolhida para a versão da banda. “A ideia era escolher uma música que tivesse potencial de soar com todo o corpo instrumental que o Joe tem — somos sete pessoas — e Cena maravilhosa, esse folk mântrico minimalista, acabou sendo a faixa da vez, como se nela estivesse contida a semente de uma sinfonia”, diz Cobelo.
 
Durante o processo de gravação e de criação do arranjo, a faixa ganhou novos ares e levou a outra música do mesmo álbum. “Acabou surgindo espontaneamente uma citação de Eternamente”, lembra.

 
Versão aprovada

Foi por meio do próprio Guilherme Cobelo que outro grupo brasiliense  participou do tributo. Quando ele contou à amiga Claudia Daibert, vocalista da banda Consuelo, sobre o projeto, ela falou sobre a paixão por O dia do criador, composição de Franco. Cobelo sugeriu a versão ao produtor Leonardo Vinhas e a banda Consuelo entrou para o projeto.

“Eu conheci o Walter Franco por essa música (em uma versão da Elba Ramalho, que até influencia a nossa). Quando ouvi O dia do criador, há muito tempo, fiquei supercuriosa com o trabalho dele e me apaixonei. É, sem dúvida, um compositor que todos nós da banda admiramos muito”, conta.

Versão de Consuelo para O dia da criação foi aplaudida pelo próprio Walter Franco(foto: Arquivo Pessoal)
Versão de Consuelo para O dia da criação foi aplaudida pelo próprio Walter Franco (foto: Arquivo Pessoal)


A versão de Elba serviu de inspiração para a gravação da banda, que inseriu o estilo do grupo na faixa. “Colocamos a cara da Consuelo com esse violão meio latino e ficou com uma pegada meio árabe, até. É um arranjo com o nosso jeito, mas as quebradas da música são referências à versão da Elba”, diz Claudia. O trabalho do grupo foi aprovado pelo autor. Walter Franco, na primeira audição do tributo, aplaudiu a versão, segundo Leonardo Vinhas.  

Claudia destaca a importância de celebrar a obra de Franco como compositor vivo. “É um projeto de extrema importância porque ele é um cara meio lado b, e também porque ele está aí. É muito legal a gente celebrar e prestar homenagem a quem está aqui, está vivo.”


Duas perguntas/  Guilherme Cobelo 


Como foi processo de criação para o tributo?
A música original tem dois acordes apenas, e tocando ela repetidas vezes, a canção foi querendo se desdobrar, e eu fui sendo levado para outros caminhos harmônicos e rítmicos por meio de uma melodia que não saía da minha cabeça e que acabou virando a linha de trompete. Então, chega um momento em que a gente se desprende da estrutura original e parte pra outra parada. E o massa disso tudo é que acabou surgindo espontaneamente uma citação de Eternamente, outra música do disco. O arranjo final foi um processo coletivo, o Beleza surgiu com umas boas linhas de baixo, o Sombrio abriu todo o leque dos sopros, cada um contribuindo com boas ideias, e a música foi tomando uma cara cada vez mais nossa.

Qual a importância de celebrar a obra de Walter Franco nesse projeto?
A música brasileira, de maneira geral, sempre acaba se referenciando pelas mesmas figuras do passado, lançando luzes sobre os mesmos artistas, os mesmos grupos, e, nesse processo de sacralização, muita gente boa acaba ficando na sombra, como é o caso de Lula Côrtes, Perfume Azul do Sol, Flaviola, Liga Tripa. Então, uma iniciativa como essa é fundamental para que nossa história musical se mostre cada vez mais vasta, para que novas pontes se ergam entre os criadores, para que o público conheça melhor a obra desses compositores sem ser necessariamente pelo viés do hit.

FAIXAS

1) Pátio dos loucos, Dado
2) Canalha, André Prando
3 ) O dia do criador, Consuelo
4) Mixturação, BIKE
5) Cena maravilhosa/ Eternamente, Joe Silhueta
6) Serra do luar, Tamy
7) Revolver, Juliano Gauche
8) Lindo blue, Seamus
9) Quem puxa aos seus não degenera, Os Gianoukas Papoulas
10) Vela aberta, Pão de Hambúrguer
11) Coração tranquilo, Dadalú
12) Me deixe mudo, Marcelo Callado
13) Feito gente, La Carne
14) Respire fundo, Buenos Muchachos
15) Desprendáte, Sérgio González (faixa-bônus composta pelo colombiano) 
 
Um grito que se espalha
Vários artistas. Scream & Yell. 15 faixas. Disponível nas plataformas digitais. 

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