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Correio Braziliense

Livro 'Os beneditinos' envolve o leitor desde a primeira fase

José Trajano mistura memória, futebol e reflexões sobre a velhice para compor um romance tocante, que envolve o leitor desde a primeira frase


postado em 12/05/2018 07:00

José Trajano: narrativa embaralha os gêneros e revela o autor de corpo inteiro(foto: Pablo Saborido/Divulgação)
José Trajano: narrativa embaralha os gêneros e revela o autor de corpo inteiro (foto: Pablo Saborido/Divulgação)

 
Os beneditinos é um livro de leitura escorreita. Começa-se a ler e, duas ou três horas depois, chega-se à última página. Porque é muito difícil largar no meio uma leitura que flui como uma acesa conversa de bar comandada por um grande contador de histórias. Esse é o caso de José Trajano, o narrador e personagem central do livro.

Tema da obra? São vários. Um deles, talvez não o principal, inevitável, é o futebol, porque já nas primeiras páginas o autor, que cobriu várias Copas de Futebol e Olimpíadas, nos diz que passou “56 anos ralando” em grandes e pequenos jornais, “revistas que só duraram uma ou duas edições”, no rádio e na televisão.

A memória é um segundo assunto, não menos importante, porque o narrador mergulha profundamente, amorosamente, no seu passado de menino da Tijuca, estudante por seis anos do Colégio São Bento.

Um terceiro tema é o da velhice solitária, porque já no primeiro capítulo o personagem, pessimista e turrão, nos informa que, aos 72 anos, está desempregado depois de ter saído “pela porta dos fundos” de “outro jornal que não deu certo”.

Comecemos pela velhice. É certo que o belo capítulo de abertura não agradará aos tolos que acreditam no estelionato desse noticiário palerma sobre a maravilhosa vida na terceira idade. Quando lhe perguntam o que faz da vida, o nosso Zé, aparentemente sem ironia ou tristeza, informa: “Agora, sou do lar”. E confessa que vai “empurrando a vida com a barriga” depois ter vendido um charmoso apartamento na Vila Madalena para ir morar de aluguel em modestos 55 metros quadrados na Mooca. Seu cotidiano é o mesmo dos aposentados do bairro cujo dia tem seu auge por volta das dez da manhã, quando se reúnem em uma banca para folhear, de graça, as revistas ali expostas.

Alguns certamente vão considerar que o melhor do livro está no quinto capítulo, que começa assim: “Cheguei ao colégio São Bento no quarto ano primário, em 1956, com nove anos de idade”.

Zé ou Zezinho, a partir dali, recriará, com paixão, os anos que na sua memória são seguramente os mais luminosos de uma vida muito movimentada. “Na época, a calça era curta e os sapatos,  engraxados. A jovem mãe, espavorida, providenciava para que nada faltasse: a pasta de couro com os cadernos encapados e etiquetados, Atlas, lápis pretos Fritz Johansen apontados e colocados no estojo com o escudo do América...”

Para amarrar a história do menino alegre — e da sua turma de moleques peladeiros que viviam livres pelas ruas de uma cidade maravilhosa — ao cinzento idoso paulistano, o narrador vai recorrer à mais antiga de suas paixões: o futebol.

Descobre que haverá um campeonato mundial de walking footbal em Londres. Trata-se de uma modalidade apropriada para decrépitos, já que basta andar com a bola. Nosso contador de causos sai, então, à procura de seus antigos companheiros de colégios e têm início os preparativos. Mas, no livro de Trajano,  a descrição dessas reuniões de velhos colegas, banalizadas hoje pelo “fêicibuque”, não é muito, digamos, divertida.

“A atmosfera foi aos poucos ficando melancólica. Era gostoso ver os amigos antigos, trocar ideias, falar do passado, mas eu sentia, com tristeza, que os encontros, em vez de nos aproximar, nos afastavam... Tinha de ser simpático a qualquer hora, discordar pouco de barbaridades proclamadas para não parecer sempre do contra, fingir intimidade que não havia... Tive que desempenhar, enfim, um papel”.

Quer ler um livro envolvente, tocante em muitas passagens, de um autor sem pose e competente? Vá de Os beneditinos, do Zé Trajano.

SERVIÇO
Os beneditinos
José Trajano, Alfaguara, 151 páginas.
 
 

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