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Correio Braziliense

Quase 60 anos depois, diretores do cinema novo ainda influenciam cineastas

Símbolos de uma sétima arte contestadora, Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha nunca deixam a memória de amigos e artistas influenciados pela obra de ambos


postado em 12/05/2018 07:25 / atualizado em 12/05/2018 11:51

"Filmar fora de estúdio, nos anos 1950, abriu uma opção de realização, sem a qual não poderíamos fazer nossos filmes" Nelson Pereira dos Santos, em entrevista ao Correio, em 2017 (foto: Reprodução)

 
Às vésperas das sete décadas de realização do primeiro curta do precursor do Cinema Novo, Nelson Pereira dos Santos, a recente morte do diretor, com quase 90 anos, seguramente, tira parte do brilho da celebração do movimento que, em 2019, completará 60 anos, se considerados os marcos de Arraial do cabo (1959) e Couro de gato (1960). Comparando o Cinema Novo, em importância, aos frutos da Nouvelle Vague (França) e do Neorrealismo (Itália), o produtor de mais de 50 fitas nacionais — que trabalhou, em diversas ocasiões, com Glauber Rocha (morto em 1981) e Nelson Pereira —, Luiz Carlos Barreto observa a perenidade daquele movimento. E traça um paralelo entre a magnitude da Semana de Arte Moderna, em termos de artes plásticas, e o legado do Cinema Novo para a sétima arte.

Qualificado pelo inaugural impacto do longa Rio, 40 graus (1955), Nelson Pereira, na visão de Barretão, não se limitou a romper com os padrões narrativos e estéticos da época. “Ele criou novas formas de produzir cinema no Brasil, evitando que o modelo econômico de empresas como Vera Cruz e Maristela (São Paulo) e a carioca Atlântida predominassem”, completa. Forjada, como espectadora, pelos desdobramentos do cinema de Nelson, a diretora Lúcia Murat (que focaliza excluídos em Praça Paris) explica o perdurar do cinema do grande mestre. “Nelson impulsionou todo o cinema moderno brasileiro, ele trouxe a primeira grande janela, ao lado da Nouvelle Vague. Ele foi o primeiro a subir o morro, a mostrar a realidade nacional de uma forma tão impactante”, observa.

Íntimo da obra de Glauber Rocha, o diretor e pesquisador de cinema Joel Pizzini desfia teia de nomes que circundam o desenvolvimento do Cinema Novo. “O Nelson foi figura primordial, atualizando o Neorrealismo entre nós, e como autor do revolucionário Vidas Secas, o filme brasileiro preferido de Godard. Na proa do Cinema Novo, vem Glauber, a quem o próprio Nelson atribuía a liderança do movimento, afirmando que o movimento só acontecia quando o cineasta baiano vinha para o Rio. No mesmo barco, há o intimista diretor Joaquim Pedro de Andrade, Paulo Cesar Saraceni (com ares de Roberto Rosselini), Leon Hirszman (eisensteiniano) e diretores do porte de Ruy Guerra, Cacá Diegues, David Neves, Arnaldo Jabor e Gustavo Dahl”, sublinha Pizzini.


Na linhagem desses cineastas autorais, com antropológico olhar de vanguarda e imersos num Brasil precário em expectativas, mas profuso em artes e cineclubes, o diretor Luiz Rosemberg Filho (Assuntina das Amérikas) lança destaque para a importância de obras revolucionárias que refletiram no movimento do Cinema Novo, como O descobrimento do Brasil (1936), de Humberto Mauro. Inventivo e nada comercial, Rosemberg Filho acredita que o “grande feito de cada cineasta foi descobrir a verdadeira cara do país, sem a mistificação enganosa do capital que serviu as chanchadas, donas de público sim, mas não de Brasil real”. O respeito aos primeiros filmes do Cinema Novo é gritante em Rosemberg. “Eram solares, profundos e estimulantes do ponto de vista da criação. Vi muitas vezes o Terra em transe — era, e continua sendo, um retrato fiel da nossa politicagem de galinheiro que não valoriza o povo que, sofrido, é criativo”, observa.


Cinema contracorrente


“O grande estímulo para o Cinema Novo era a vontade de fazer cinema e mudar a realidade que vivíamos”, comenta o produtor executivo de O dragão da maldade contra o santo guerreiro e Terra em transe, Zelito Viana. O documentarista Vladimir Carvalho (O país de São Saruê) cita o advento da morte de Getúlio Vargas, historicamente, como determinante para a eclosão do Cinema Novo. “O Brasil deu uma respirada — em condições políticas e econômicas. Levamos uma sacudida, positivamente. A eleição de Juscelino Kubitschek, em 1955, levou a ventos novos para a mentalidade do país, em relação a tempos passados. Há coincidência de datas, de feitura do Rio, 40 graus — e, quase simultaneamente, de O grande momento (de Roberto Santos) — com a construção de Brasília. No Planalto, se idealizava a integração do país, com visibilidade para a classe média e também para a cultura popular. Tivemos meios para prosperar nas artes, e o Brasil foi novamente desbravado”, demarca Vladimir.


“O grupo do Cinema Novo trouxe para o primeiro plano a discussão social. Veio, com eles, a ilusão de que o cinema ia mudar o mundo”, avalia o cineasta Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, que foi assistente de Nelson Pereira dos Santos, em seis produções. Entre os feitos do amigo falecido em abril passado, Luiz Carlos detecta “a liberação” para o cinema, com Boca de Ouro (1962), daquele considerado, por vezes, “facínora” — o dramaturgo Nelson Rodrigues, “crítico, ao extremo, com seu teatro”. “Nelson esteve, sem dúvida, ao lado do Glauber Rocha, como maior nome do Cinema Novo, e o que fez Glauber se tornar um símbolo foi seu talento! Isso, como poeta, pensador, artista e cineasta”, conclui Zelito Viana.
 
Helena Ignez foi uma das atrizes mais destacadas do cinema novo e do movimento do cinema marginal(foto: Reprodução)
Helena Ignez foi uma das atrizes mais destacadas do cinema novo e do movimento do cinema marginal (foto: Reprodução)
 

Pioneiras no movimento

Verdadeiro ícone do cinema novo, à frente de personagem de O padre e a moça (1965), assinado por Joaquim Pedro de Andrade, a premiada atriz Helena Ignez não tem muitas dúvidas sobre a porteira da visibilidade do cinema novo: “determinante foi a boa qualidade que o movimento teve, com seus primeiros filmes e o impacto que causaram”. O primeiro filme da vida da atriz, hoje com 78 anos, foi justamente Pátio (1959), o filme inaugural da carreira de Glauber Rocha, com quem foi casada até 1961. “A supremacia do cinema novo foi mesmo Glauber Rocha, mas vários nomes foram muito fortes. A maior qualidade que via em Glauber foram a invenção e a energia política dos filmes dele — um grande cineasta”, observa a também diretora de longas como A canção de Baal e A moça do calendário.

O heroísmo de Helena Ignez, em viver personagens femininos “transgressores” como os propostos pelos filmes de Rogério Sganzerla (seguidor da vertente do cinema marginal), não passou despercebido por outra Helena pioneira do cinema nacional: a diretora Helena Solberg. “No cinema novo, acho que os personagens femininos não eram tão libertários. Acho que a Leila Diniz, veio 10 anos depois de deflagrado o movimento inicial do cinema novo, quando já tínhamos ganhos como o da evolução da psicanálise e da adoção da pílula”, comenta Solberg.

Primeira diretora a centrar foco na condição feminina, durante a eclosão do cinema novo, Solberg brinca que se vê como “sobrevivente”, ao lado da colega Helena Ignez. “Acho que, sim, o cinema novo era um clube do Bolinha, mas não sei até que ponto os diretores se davam conta disso. Estávamos num período em que o machismo era aceito pela sociedade. Era comum o homem produto da criação de mães sem uma consciência forte do feminismo. Mas, eu tinha a minha agenda, meus ideais e corria atrás — não me vitimizo, com relação aquele período”, observa a diretora de filmes como A entrevista (1966) e A nova mulher (1974).

Ao adentrar o cinema na posição de continuidade para o cineasta marco do cinema novo, Paulo Cesar Saraceni (de Porto das caixas), Helena Solberg topou, profissionalmente com, ao menos duas figuras marcantes: “O Joaquim Pedro de Andrade foi das pessoas que me impressionou — engraçado, irônico, mas sério e coerente com ele mesmo; já o Mário Carneiro (diretor de fotografia de Porto das Caixas e O padre e a moça) era um irmão — ele era também um pintor, e tinha um rigor com a câmera, que nem era tão solta, aliás, achava o registro dele mais clássico”, conclui. 
 

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