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Correio Braziliense

Diversidade toma conta do Festival de Cannes nas telonas

Na briga pela Palma, entram em campo vozes cheias de frescor como a libanesa Nadine Labaki e a francesa Eva Husson


postado em 12/05/2018 07:31

Cannes (França) — O Festival de Cannes já não é mais o mesmo, como comprovam a realidade social e certas peculiaridades estéticas do balneário neste momento. Há 21 filmes no páreo da Palma de Ouro, cujos favoritos até agora são o polonês Cold war e o russo L'Été, ambos exibidos na orla de uma cidade praieira afetada pela crise econômica da Europa em múltiplos e indisfarçáveis níveis. 

O polêmico Spike Lee está de volta com BlakKklansman(foto: JOHN MACDOUGALL)
O polêmico Spike Lee está de volta com BlakKklansman (foto: JOHN MACDOUGALL)

 
Na telona do Palais des Festivals — que vê neste sábado, em projeção hors-concours, o novo filme de Cacá Diegues, O grande circo místico — houve mudanças também. Para dar mais pompa às premières com convidados famosos, o festival alterou o cronograma das exibições para a imprensa, que passa a ver os longas por vezes horas depois da plateia.

“Na França, temos uma preocupação cultural estratégica com o cinema, que foi alimentada pela tradição de uma imprensa cinematográfica analítica, crítica”, disse o diretor artístico do evento, Thierry Frémaux. “Vale mais o prazer de ler uma crítica escrita com calma do que a satisfação de se contentar com duas ou três linhas de uma reportagem relatorial feita às pressas”.

Para Frémaux, a mesma lógica dita sobre a imprensa vale para as mídias digitais do presente, em especial a Netflix. Em 2017, a plataforma de exibição da web teve filmes em concurso aqui, mas recusou-se a lançá-los em salas de exibição, o que fez Cannes recusar seus títulos caso ela não venha a projetá-los em circuito, no mínimo o francês.
 

“Eles estão fazendo o filme novo de Martin Scorsese, The irishman. Ele é um cinéfilo, que sabe o valor de ter um filme projetado na tela grande. Valorizamos esse prazer também. Há vários formatos de audiovisual e todos merecem respeito. Mas é um ponto estratégico para a França dar valor a uma ideia de cinema com toda uma liturgia de consumo, em sala escura, numa tela grande”, diz Frémaux.

Na briga pela Palma, entram em campo vozes cheias de frescor como a libanesa Nadine Labaki (com Capharnaüm) e a francesa Eva Husson (com Les filles du Soleil). 

Polemista há décadas sumidos, como Spike Lee, está de volta: o americano concorre com BlakKklansman. Na seara dos medalhões, só veio um: Jean-Luc Godard.  Pilar vivo da Nouvelle Vague, o suíço que nos deu cults como Acossado (1960) vem agora com Le Livre d'Image. Mas é um medalhão que se reinventa a cada novo trabalho, como bem frisou a presidente do júri da Palma dourada de 2018, a atriz Cate Blanchett. 

Mas com seu misto de documentário, ficção e aula de semiologia sobre fake news, Godard usa, criticamente, todas as ferramentas das mídias eletrônicas (YouTube, Vimeo, Facebook) em seu novo longa, num uso celebrativo dos meios digitais que contrasta com a postura de Cannes.

“Vivemos tempos em que as distrações digitais tiram nosso foco de coisas essenciais, como o amor”, disse o polonês Pawel Pawlikowski, ganhador do Oscar por Ida, em 2015, no páreo agora com  Cold war. O longa, em preto e branco, é uma love story sobre a paixão entre maestro e  cantora.
 

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