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Correio Braziliense

Jessica Bennett publica livro de guerrilha contra o sexismo no trabalho

Em 'Clube da luta feminista', Jessica Bennett apresenta uma espécie de manual contra o machismo


postado em 13/05/2018 07:00 / atualizado em 11/05/2018 18:14

Jessica Bennett: assuntos antes escondidos, como assédio sexual, agora são expostos(foto: Sharon Attia/Divulgação)
Jessica Bennett: assuntos antes escondidos, como assédio sexual, agora são expostos (foto: Sharon Attia/Divulgação)

A regra número um era: não conte a ninguém que nos reunimos para falar disso. Corria 2009 e Jessica Bennett, então jovem repórter da revista Newsweek, se reunia regularmente com um grupo de mulheres para falar de assédio, machismo e dificuldades ligadas ao gênero no mercado de trabalho. Elas acreditavam que teriam problemas caso os homens descobrissem o que faziam, então mantinham em privado a entidade batizada de Clube da Luta Feminista. Hoje, a primeira regra é falar sobre o clube. Assim como a segunda. Está na página 15 do livro Clube da luta feminista, que chega às prateleiras brasileiras pela Fabrica 231 e se propõe a ser uma espécie de guia de sobrevivência ao machismo no trabalho.

Jessica Bennett é uma pequena celebridade no meio jornalístico desde que foi contratada pelo The New York Times para liderar uma nova editoria inteiramente dedicada a questões de gênero. Em um dos maiores jornais dos Estados Unidos, ela criou várias novidades. Uma delas diz respeito aos obituários. Incomodada com a quantidade de homens brancos que ganhavam um registro quando morriam — e os obituários do Times são famosos pela qualidade literária —, ela decidiu ir em busca de mulheres cujos feitos mereciam ser narrados. Criou o Projeto Overlooked, com obituários dedicados a personagens femininas. Também estabeleceu uma newsletter semanal sobre questões de gênero, além de chamar a atenção dos repórteres para a necessidade de mais olhares e personagens femininos na cobertura do dia a dia.

Em Clube da luta feminista, Bennett propõe um verdadeiro manual de guerrilha contra atitudes machistas. “O livro foi inspirado na minha vida real e nesse clube da luta, um grupo de mulheres com as quais tenho me reunido desde o início da minha carreira, há quase uma década”, conta a autora. “É o livro que eu gostaria de ter lido quando comecei. Eu queria pegar alguns desses desafios, fuçar as pesquisas de ciências sociais e fornecer instrumentos para outras mulheres que quisessem lutar contra o sexismo.”

Primeiro, ela sugere que se conheça o inimigo e, para isso, elenca vários tipos de comportamentos como o manterrupter, ou o homem que nunca deixa as mulheres falarem, o bropropriator, hábil em se apropriar das ideias alheias, o machocrata, capaz de tratar todas as mulheres de forma subalterna, o meia-boca, especialista em se esquivar do trabalho, e por aí vai. Para cada tipo, Bennett apresenta táticas de combate, estratégia que se repete por todo o livro.

Conhecer a si mesma é tema do segundo capítulo. São dicas para tentar reconhecer os papéis desempenhados no ambiente de trabalho cujas funções têm a ver com gênero. Para cada tipo de comportamento, a autora sugere uma cartilha de luta. Em seguida, ela trata de estereótipos e preconceitos ocultos. Apresenta perfis de cada ideia preconcebida em relação ao comportamento feminino e dá dicas de como identificá-los, além de apontar truques para desmontar os clichês. Prestar atenção na maneira como se fala ocupa um capítulo inteiro do livro. Na linguagem estão incutidos indicativos de autoconfiança, insegurança e temores. Eliminar esses vícios pode ajudar a criar um espaço de mais confiança. No fim, há um pequeno guia endereçado aos homens, uma a lista de 13 ações e comportamentos que podem reduzir a opressão do machismo no trabalho. Uma justa compilação de grupos feministas, alguns mais conhecidos que outros, caso do Guerrilla Girls, encerra o livro.

Clube da luta feminista soa bastante como um livro de autoajuda. E nada haveria de errado nisso, não fosse, eventualmente, a postura um pouco infantil empregada pela autora. Entre uma dica e um resultado sério de pesquisa, Bennett convida as leitoras a preencher, por exemplo, uma ficha na qual se comprometem em ter mais atitudes positivas em relação a si mesmas ou a assinar termos de compromisso para se expressar com mais ênfase no ambiente de trabalho. São bobagens que não fariam falta caso fossem retiradas da edição, ao contrário das ilustrações, mais engraçadinhas, e que ajudam a contar histórias que não entraram no texto.

Lançado originalmente em setembro de 2016, o livro ocupou a lista dos mais vendidos do The Wall Street Journal e foi eleito um dos melhores livros do ano por veículos como a Forbes e o Chicago Tribune. Acabou traduzido para 10 idiomas e transplantado para um podcast antes de começar a ser adaptado para a televisão. Ao lado, a autora conta como ainda é difícil falar de comportamentos enraizados e pensar questões de gênero em pleno século 21.

Três perguntas// Jessica Bennett

Você é muito clara sobre a necessidade de trazer os homens para a luta contra o sexismo e você até escreve um guia para eles no livro. Essa é uma parte difícil do trabalho?
Definitivamente, é muito difíci,l porque estamos falando de coisas muito enraizadas, comportamentos socialmente incrustados que remontam a milhares de anos. Mas igualdade de gênero não é uma equação de soma zero — precisamos dos homens ao nosso lado! Então, para os homens que estiverem lendo isso, por favor: juntem-se a nós, juntem-se a nossas conversas, não fiquem com medo de fazer perguntas e sejam apoiadores ativos. Você também pode se voltar para o PSA (Serviço de Anúncio do Pênis), no capítulo seis do livro. É uma lista de coisas supersimples que os homens podem fazer todos os dias em locais de trabalho para apoiar mulheres, coisas que vão de dar crédito a suas ideias a reclamar com os que as interrompem (e sim, as mulheres são interrompidas duas vezes mais que os homens quando elas falam!).


O que, na sua opinião, seria uma editoria de gênero e como deveria ser feita a cobertura de gênero?
Eu vejo gênero como uma lente através da qual observamos a história global. Isso pode querer dizer cobertura sobre mulheres na política e em economia, histórias sobre feminismo e o movimento #metoo, por exemplo. Pode significar escrever sobre identidade de gênero e mudar noções de masculinidade, mas também trazer uma perspectiva de gênero para toda a cobertura cotidiana que já fazemos naturalmente em editorias como economia, esportes, jornalismo investigativo e mais.


Você acredita que há muitas mudanças em relação ao machismo desde que você começou a carreira? E quais seriam as mudanças importantes ainda a serem feitas?
Eu penso muito que coisas que antigamente falávamos em sussurros — como, por exemplo, assédio sexual — estão sendo ditas em voz alta. Essa é a maior mudança. As mulheres estão dizendo #metoo, elas estão falando e estão sendo ouvidas. Quando meu clube da luta começou, a primeira regra era não falar sobre ele. As regras mudaram. Agora, você DEVE falar sobre o clube.
 
SERVIÇO

Clube da luta feminista  — Um manual de sobrevivência (para um ambiente de trabalho machista). De Jessica Bennett. Tradução: Simone Campos. Fabrica 231, 336 páginas. R$ 39,90.

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