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Correio Braziliense

Danças charme e voguing conquistam espaço no cotidiano brasiliense

Ambas as danças contribuem para empoderamento de minorias; oficinas gratuitas são oferecidas na cidade


postado em 16/05/2018 07:30 / atualizado em 15/05/2018 20:18

Gabriel Macedo oferece oficinas gratuitas da dança na UnB(foto: Webert da Cruz)
Gabriel Macedo oferece oficinas gratuitas da dança na UnB (foto: Webert da Cruz)


Duas danças surgidas na segunda metade do último século ganham espaço na cena brasiliense: o voguing e o charme. Além de arte e entretenimento, são instrumentos de autoafirmação nas mãos de grupos minoritários. Há  poucos anos, passaram a ganhar público e conquistam cenários mainstream com apresentações que não fogem à militância.

Nas apresentações de voguing, LGBTs se desamarram da opressão, confiantes para expressar e brincar com a própria identidade, reproduzindo movimentos que exalam “feminilidade”. Com pouco mais de tempo se destacando em Brasília, o baile charme move no mesmo passo a diversidade, em apresentações que exaltam a música negra e a arte suburbana.

Voguing
 
Sophia Albuquerque, 20 anos, da House of Hand Up, pretende abrir oficinas de voguing para mulheres. Ela saiu vencedora da competição de Voguing Excaliótipo ball.
Sophia Albuquerque, 20 anos, da House of Hand Up, pretende abrir oficinas de voguing para mulheres. Ela saiu vencedora da competição de Voguing Excaliótipo ball. "A maioria das danças urbanas são muito machistas, tem pouca representatividade feminina na cena. Apesar de o voguing ter mais homens do que mulheres, traz muita visibilidade LGBT. Mais do que uma dança, é uma militância". (foto: Arquivo/Pessoal)
 
 
Cada movimento é digno de um clique na dança inspirada pela famosa revista de moda norte-americana. O voguing, ou apenas vogue, surgiu na década de 1980 em clubes undergrounds nova-iorquinos frequentados majoritariamente por LGBTs negros. Eles subverteram os ideais de masculinidade e feminilidade pelos quais eram — e continuam sendo — inibidos de se expressar livremente.

A dança ganhou espaço no mainstream a partir dos anos 1990, quando foi apresentada por Madonna na canção Vogue e pelo premiado documentário Paris is burning (1991). De lá para cá, angariou público de várias partes do mundo, mas ainda é pouco conhecida fora de grupos LGBTs. Com empuxo do galopante movimento drag queen, o voguing conta com campeonatos profissionais em diferentes modalidades e representações na cultura pop.

“O voguing empodera LGBTs, permite que eles brinquem com a própria figura, transformando-a”, observa o estudante e performer Gabriel Macedo, 21 anos, para quem a dança tomou força há apenas meses em Brasília. Quando está se apresentado, Gabriel encarna a drag Demo Queen, “mãe” da Kiki House of Caliandra. As alianças entre performers são chamadas de casas (do inglês, houses) e servem de famílias alternativas aos membros, unidos pela prática comum de atividades artísticas.

A Universidade de Brasília (UnB) foi, em abril, palco da segunda batalha de vogue oferecida pela House of Caliandra, a Excaliótipo ball, que premiou competidores em diversas categorias. A casa também promove oficinas da dança gratuitamente na instituição há cerca de um ano.

O brasiliense conta que teve o primeiro contato com a dança assistindo ao reality show Rupaul’s drag race e resolveu entrar de cabeça na arte performática. “Somos o que queremos ser e lutamos para que isso seja reconhecido como algo bonito e respeitado dentro da sociedade“, avisa.
 
Iago Gabriel Melo, 25, da House of Hands Up, venceu numa das categorias da competição de voguing Excaliótipo ball promovida na UnB.
Iago Gabriel Melo, 25, da House of Hands Up, venceu numa das categorias da competição de voguing Excaliótipo ball promovida na UnB. "Com o voguing, discursamos com a ação do movimento. E o corpo fala muita coisa de que a voz é incapaz. Eu quero mover alguma coisa dentro das pessoas com a dança, mesmo que seja raiva. Assim, elas podem refletir sobre esse ódio, manifestado pelo machismo, pela homofobia" (foto: Gabriela Gusmão)

 
Charme
 
Petrônio Paixão é fundador do coletivo Dançar charme é bom d , que promove oficinas gratuitas na Feira da Torre(foto: Jheimes Ferreira da Silva Martins)
Petrônio Paixão é fundador do coletivo Dançar charme é bom d , que promove oficinas gratuitas na Feira da Torre (foto: Jheimes Ferreira da Silva Martins)
 

Lado a lado, dançarinos de charme chamam a atenção no baile pela sincronia e pelo visual caprichado com que interpretam sucessos do R&B e da black music brasileira. A sintonia convida espectadores a se arriscarem nas coreografias, imitando os passos de quem é experiente. O embalo da dança fisgou o público carioca ainda na década de 1980. Em Brasília, Petrônio Paixão era um dos poucos adeptos até 2015, conta.

Aos poucos, com seu projeto Dançar charme é bom d+, Petrônio, 41 anos, conquistou espaço em festivais e contribuiu para que a dança fosse notada na capital. “O charme tem esse poder de unir pessoas de diferentes religiões, raças, gerações; essa massa levada no mesmo ritmo”, comenta ele, que também é diretor da companhia de dança Pegada Black.

A arte surgida em favelas cariocas é celebrada pelo grupo bem pertinho do centro do poder brasileiro. Em um domingo ao mês, o projeto Dançar charme é bom d promove gratuitamente bailes e oficinas de charme na Feira de Artesanato da Torre de TV de Brasília. “Com o charme, reforçamos a cultura negra vinda da periferia brasileira”, acredita.

“Diferentemente do hip hop, que pode motivar rixas, o charme chegou para unir isso tudo, quando nós dançamos, é juntos, com mesmo passinho”, completa Petrônio, que levou o baile para a festa do último aniversário de Brasília na Esplanada.

 
"O charme tem esse poder de unir pessoas de diferentes religiões, raças, gerações", diz Petrônio Paixão (foto: Jheimes Ferreira da Silva Martins)
 
*Estagiário sob supervisão de Severino Francisco.

 

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