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Correio Braziliense

Novo disco de Lenine, 'Em trânsito', fala de egos e intolerância

O álbum fala também da necessidade da criação coletiva para sobreviver aos tempos atuais


postado em 20/05/2018 07:31 / atualizado em 19/05/2018 15:56

Em trânsito, Lenine admite, é um disco meio cinzento e revela um pouco como o próprio músico se sente hoje no mundo(foto: Flora Pimentel/Divulgacao)
Em trânsito, Lenine admite, é um disco meio cinzento e revela um pouco como o próprio músico se sente hoje no mundo (foto: Flora Pimentel/Divulgacao)

 
Trata de intolerância a música escolhida por Lenine para ser a bandeira de seu novo disco, Em trânsito. O cantor e compositor conta que se sente meio cronista e, por isso, não podia ficar indiferente ao momento contemporâneo. “Nesse sentido, o que me move, o que me incomoda termina sendo a matéria que faço as canções”, avisa. “O fato de a canção single do projeto ser Intolerância não é gratuito. Ela está sendo a vedete do momento, em todos os universos você vê a intolerância como porta-voz de tudo.”

Em trânsito, Lenine admite, é um disco meio cinzento e revela um pouco como o próprio músico se sente hoje no mundo. “É o transitório, o transitivo, o fato de estar aqui no caminho, sem a menor ideia do que há à frente. Também não tou olhando pra trás, e tem essa coisa da urgência, da violência”, explica. Como ele avisa em Sublinhe e revele: “o tom é grave e o tempo é breve”. Há, segundo o músico, uma urgência no ar quando se trata de falar de certas coisas e, conforme pede na letra da canção, não podemos nos dar o luxo de relevar.
 

Um certo ar de desesperança pairou sobre toda a concepção de Em trânsito, mas há momentos de muita ternura e afeto. São como pequenos respiros soltados por músicas como Leve e suave, que abre o disco e o show, em um anúncio enganoso de que a leveza está no ar, e Lua candeia, parceria com Paulo César Pinheiro e tocada com Amaro Freitas ao piano. Mas o ouvinte não deve se iludir, porque logo em seguida há Umbigo, com versos como “Gosto muito de conversar comigo/Umbigo meu nome é espelho/Não dou ouvidos nem peço conselhos/Umbigo meu nome é certeza”. Sinal dos tempos.

Em trânsito fez um percurso inverso do tradicional no mercado da música. Lenine montou primeiro o show, apresentado em janeiro para um grupo pequeno de amigos e patrocinadores no Imperator, no Rio de Janeiro. A apresentação foi gravada para dar origem a um DVD e, graças a uma parceria com o Canal Brasil, haverá também um documentário. Os singles, o clipe de Intolerância e o disco vieram na sequência.
 
 

Foi uma maneira de evitar o sentimento de repetição que vinha atormentando o compositor. “Eu sofria com o lance da mecânica do fazer. Isso passava forçosamente por essa sensação de estar repetindo formas. E o Em trânsito carrega um pouco dessa novidade que foi subverter a ordem das coisas”, diz. Também carrega uma pegada rock mais acentuada que em discos anteriores e uma noção de banda fundamental para o projeto.

Na verdade, um processo, como o pernambucano gosta de frisar. O foco na assinatura coletiva que tem o filho do músico, Bruno Giorgi, e JR Tostoi nas guitarras, Guila no baixo, Pantico Rocha no sintetizador e participações de Amaro Freitas (piano), Carlos Malta (saxofone) e Gabriel Ventura (guitarra), Lenine acredita, deu liga à ideia de projeto coletivo. “Tenho certeza que é o meu projeto mais de banda. E só pudemos fazer isso por causa da intimidade, por causa do afeto”, garante.

Outro detalhe na confecção de Em trânsito foi a maneira como Lenine apresentou as músicas para a banda, sem o violão, apenas com as letras e melodias. O músico nunca havia experimentado essa fórmula e gostou do resultado. O violão está sempre muito associado à produção do pernambucano e ele achou que os músicos ficariam mais livres se deixasse o instrumento de lado num primeiro momento. “Eu queria procurar outro caminho. E pra mim era novidade. Era uma maneira de exorcizar`´ um pouquinho”, brinca.

Entre as 10 faixas do disco, três não são inéditas  — Virou areia, Lá vem a cidade e De onde vem a canção —, mas ganharam novos arranjos e novos significados na sequência escolhida por Lenine. Essas faixas dialogam com o sentimento que motiva Em trânsito, especialmente De onde vem a canção, na qual o pernambucano reflete sobre a criação e o destino das músicas, e Lá vem a cidade, pautada por versos carregados de tragédias anunciadas.

Se discos como O dia em que faremos contato, Falange canibal e Na pressão, assim como Labiata, Chão e Carbono, como aponta João Cavalcanti, filho do compositor, no texto de apresentação do disco, Em trânsito é como se fosse uma síntese. “Fazendo uma analogia com literatura, eu diria que a primeira trilogia são coletâneas de contos. A partir do Labiata, mudei esse foco e não mais frequentei o baú das canções que havia composto. Passei a procurar um romance sonoro, isso significava primeiro um título, um relevo sonoro, e só então, como capítulos de um livro, eu ia criando canção por canção”, conta. Pois o romance sonoro de Lenine é também uma boa crônica contemporânea.
 
Quatro perguntas / Lenine 
 
Em Sublinhe e revele você fala em não relevar. Além disso, você mesmo atribui o tom cinza a esse disco. É importante no Brasil de hoje não relevar?
Claro! A gente está carecendo disso, acho que essa é a grande questão. O descaramento de todos, você dizer uma coisa e fazer outra. Essa distopia que vivemos aí é uma coisa desesperançosa. Muito desesperançosa. Mas quando falei do tom cinza é porque acho que revela, nas canções, o caos que a gente vive. Essa mesma vontade de não olhar pra trás nem pra frente, você tá focado no que está pisando agora e não tem a mínima noção de direção, nem de onde vai dar. Não existe ninguém que me mostre um futuro possível a curto prazo. A gente está beirando aí as eleições e os nomes são os mesmos. Sofremos com essa distopia.



Você diz que sofria com a mecânica de fazer um disco, com a sensação de repetição, por isso fez primeiro o show. Como foi isso? 
Em vez de fazer um disco e isso gerar um show e ser gravado e virar um DVD, resolvi fazer um show mesmo. Com tudo que compreende a equação “fazer um novo show”: músicas inéditas, um relevo, uma narrativa que você cria com esse somatório de canções que vão além das músicas inéditas, com canções do repertório que dialogam com esse sentimento que permeia todo o projeto. O CD é o primeiro produto e o clipe seria o símbolo do projeto. Mas o projeto é um show e o CD, assim como o single, foram extraídos desse show. E esse show tem uma narrativa, ele foi o objetivo. Foi a descoberta de uma nova maneira de fazer, que foi mais atraente. E cada canção surgiu como um capítulo de um romance sonoro, que é um show.



O disco tem um tom cinza, mas ele também tem passagens afetuosas….
Você levantou uma questão fundamental. A palavra afeto. É fundamental, em tudo que eu faço tem que ter isso aí. Acho, inclusive, que essa foi a maior tecnologia que o homem já inventou, a tecnologia do afeto. E um projeto como esse, com o tipo de urgência que teve, o tipo de velocidade que teve, só pôde ser feito por causa do afeto, por causa da intimidade. Foi muito pouco tempo para resolver e, para fazer dessa maneira, só a família. Não só a família sanguínea, mas a família que você escolhe.



No meio de tudo isso você insere uma música — De onde vem a canção — que reflete sobre o próprio processo de criação. O processo é importante?
Sim, a questão do processo é fundamental para mim, porque acho que o melhor de tudo, o mais importante, não é chegar, é o percurso, a escolha do caminho. E isso define tudo. Então, essa sensação de um certo sentimento de repetição que a gente sente às vezes, quando sinto, isso me transforma e quero procurar outras maneiras. Em trânsito foi muito fruto dessa procura de outros mecanismos para fazer o que faço.
 
 

Em trânsito
De Lenine. 10 faixas. Direção: Bruno Giorgi


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