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Correio Braziliense

Espaço para atores negros na tevê brasileira é muito pequeno

Falta de personagens negros em novelas como 'Segundo sol' reacende discussão sobre a representatividade em produções na telinha


postado em 04/06/2018 06:30 / atualizado em 04/06/2018 12:48

Ator Sérgio Malheiros:
Ator Sérgio Malheiros: "É evidente que temos poucos negros em papéis principais no meio artístico, assim como em cargos de liderança, mas é algo que estamos lutando muito para mudar" (foto: Jeff Segenreich/Divulgação)
A estreia da novela Segundo sol, no horário nobre da Globo, reacendeu uma polêmica antiga na tevê brasileira: a representatividade negra nas telinhas, ou melhor, a falta dela. Parte do público acusou a emissora de não representar a população negra na trama que se passa na Bahia (estado com maior percentual de população negra do país) e até o Ministério Público aconselhou a empresa carioca a trabalhar com mais cuidado a questão da representação social.

Em nota enviada ao Correio, a Globo alegou que a segunda fase de Segundo sol tem mais personagens negros. Mas a emissora admite que a representatividade de negros na grade de programação é “menor do que gostaríamos”, e afirmou ainda que a representatividade é importante em seu trabalho e que ganhará ainda mais destaque.

"As manifestações críticas que vimos até agora estão baseadas, sobretudo, na divulgação da primeira fase da novela (Segundo sol), que se concentra na trama que vai desencadear as demais. Estamos atentos, ouvindo e acompanhando esses comentários, seguros de que ainda temos muita história pela frente. De fato, ainda temos uma representatividade menor do que gostaríamos e vamos trabalhar para evoluir com essa questão".

Superintendente da TV Brasil, Caique Novis diz que mostrar a diversidade cultural, social e étnica do país é uma preocupação diária. “Para formar nossa grade de programação sempre levamos em conta essa premissa. Se o nosso país tem mudado, tem se questionado sobre isso, é missão da programação da TV Brasil refletir e lutar pela mudança desse cenário de ainda muita invisibilidade do negro em todos os campos”, completa.


Racismo


Geovanny Silva, coordenador-geral do Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNU-DF) classifica a falta de representatividade na programação da televisão como um ato de racismo. “A televisão é uma grande forma de visibilidade e, infelizmente, o negro é frequentemente deixado em segundo plano. Nunca é o protagonista, é alguém sem importância. Percebemos isso e queremos denunciar, porque é racismo”, afirma.

Em tom de desabafo, o ator André Luiz Miranda, o Vinícius da atual temporada de Malhação dispara: “Só fazemos papéis escritos para negros”. Com quase 20 anos de carreira, André Luiz reconhece que o cenário está mudando, mas é "a passos bem lentos. Na maioria das vezes fazemos personagens que não são bem-sucedidos e carregamos o estereótipo que a tevê delimita. Mas ainda tenho esperança".

Fora das telas, o ator também vê que há avanços, mas que o país está longe de deixar de ser racista. "O movimento negro está se unindo graças à internet. Hoje, com as redes sociais, qualquer ato racista toma uma proporção gigante. O simples fato de falar que o cabelo é ruim, atravessar a rua quando te vê, o segurança te seguir na loja… isso é racismo", continua.

Prevista para estrear no ano que vem, a novela das 19h da Globo, 90 graus, tratará do racismo por meio do surfista vivido por Sergio Malheiros. O personagem será um ativista pelas causas raciais. Sergio concorda com André Luiz sobre a força da internet nessa luta: "A maior democratização das mídias nos ajudou a ganhar espaço em atividades criativas e artísticas, mas ainda existe uma enorme carência de profissionais negros em cargos de liderança".

"O cenário que eu vejo é um todo, não só no nosso país. É evidente que temos poucos negros em papéis principais no meio artístico, assim como em cargos de liderança, mas é algo que estamos lutando muito para mudar. No âmbito artístico, tivemos recente o movimento em Hollywood pedindo essa inclusão e, nas últimas premiações notamos uma mudança nas indicações. O Brasil —  assim como na abolição da escravatura —segue atrasado nessa evolução, mas aos poucos vamos conseguir conquistar nosso espaço", completa.

Crescimento pequeno

O professor de ciências políticas da UERJ e da UNIRIO João Feres Júnior, que também é um dos coordenadores do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), ajudou a escrever o estudo Globo, a gente se vê por aqui? Diversidade racial nas telenovelas das últimas três décadas, em 2016.  O trabalho traça um panorama sobre a representatividade negra nas novelas da Globo, de 1985 até 2014. De acordo com os dados de Feres, o percentual médio de atores declarados como negros em cada novela, por este período de tempo, foi de apenas 8,8%.

"A gente pode tirar desses dados que não existe preocupação nenhuma com a questão da representatividade, que não é um foco de ação para a emissora", acredita Feres. O estudo também apontou que as novelas têm  46,2% de presença de homens brancos, 45,2% de mulheres brancas, 4,4% de homens não-brancos e 3,8% de mulheres não-brancas.

Ainda segundo o professor, "existe uma coisa que a gente chama na academia de ‘branquidade’, que é tratar o mundo como se a ausência do negro fosse natural, excluir mesmo. Óbvio que existem muitas consequências sociais porque a população brasileira tem uma grande predominância de negro”. O estudo também aponta um leve aumento da representação negra nas novelas da Globo neste período de tempo, de 6% entre 1985 e 1990 para 12% entre 2009 e 2014.

Geovanny Silva lembra que existe uma legislação específica no Brasil que versa sobre igualdade racial, e que a falta de representatividade da população negra vai diretamente contra a lei. “A falta de representatividade é especialmente ruim porque existe a lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010 garante um estatuo de igualdade racial e tem pontos específicos sobre a comunicação que prevê a representação da cultura negra, uma coisa que simplesmente não acontece”, reclama.

Sobre uma possível solução ao problema, Silva constata: “Acho que a primeira questão é simplesmente cumprir as leis do país. Existe um estatuo da igualdade racial que é muito importante para o acesso da população negra em vários âmbitos da sociedade, inclusive na comunicação, e se cumprissem a lei já teríamos dado um passo muito grande. O segundo ponto é respeitar a cultura negra de uma forma integral, que é o que vai fazer a população negra ser inserida dentro da sociedade”.


* Estagiário sob a supervisão de Vinicius Nader

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