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Correio Braziliense

Comédias nacionais, que estão em cartaz nos cinemas, têm apelo familiar

Emotivas e ancoradas nos risos são os longas 'Alguém como eu', 'Antes que eu me esqueça' e 'Não se aceitam devoluções'


postado em 06/06/2018 07:20 / atualizado em 07/06/2018 10:22

Alguém como eu: filão de cinema ainda pouco explorado(foto: Paris Filmes/Divulgação)
Alguém como eu: filão de cinema ainda pouco explorado (foto: Paris Filmes/Divulgação)

Com mais de 50 anos de carreira e dezenas de participações em cinema, o ator José de Abreu, pelo mais recente papel (o juiz aposentado Polidoro, de Antes que eu me esqueça) segue as coordenadas de um desbravamento de carreira — nestes anos todos, Abreu tinha participado de uma comédia, O casamento dos Trapalhões. Na telona, o papel é o de um homem com Alzheimer, equilibrado numa fita cômica. O desafio do ator casa perfeitamente com o de um filão de cinema, ainda pouco explorado, mas que começa a despontar nos filmes brasileiros: comédias em família. Antes que eu me esqueça divide as telas com outras fitas nacionais de fundo similar: Não se aceitam devoluções e Alguém como eu. Num comparativo, no último ano, os filmes com apelo de comédia sobre família foram poucos: Os farofeiros, Bingo, Divórcio e Fala sério, mãe.

“Velho, louco e bêbado são os personagens-armadilha, é muito difícil manter a linha entre a verdade na interpretação — que tem que ser honesta para convencer o público — e o risco de cair na galhofa, na imitação barata”, explica José de Abreu, a razão de ser de Antes que eu me esqueça. O filme, para além de fazer rir, gera outra expectativa de reação idealizada pelo ator. “Espero que os filhos considerem mais a opção de cuidar dos pais velhos e descubram neles um novo ser humano, digno de amor”, afirma. “Também tive essa preocupação de ser um drama, um filme pesado, né?! Hoje, as pessoas não querem ir ao cinema para sofrer (risos). O público acaba se divertindo e tendo uma visão mais leve sobre um tema tão sério. Acho que o filme cai muito bem como um drama cômico”, observa o ator Danton Mello, que interpreta o filho de Polidoro e gosta do tom de emoção e felicidade trazido pelo roteiro.

Antes que eu me esqueça: história de um homem com Alzheimer(foto: James Patrick O'Malley/Divulgação)
Antes que eu me esqueça: história de um homem com Alzheimer (foto: James Patrick O'Malley/Divulgação)


Ciente de que há temas que crianças podem não entender, ainda, a roteirista Luisa Parnes encoraja que a comédia com Danton Mello seja um filme “para ir com a família: pais, avós e tios”. Independentemente do tema, a roteirista enfatiza que não vê um limite para o humor. “Entendi que o humor do diretor de Antes que eu me esqueça é mais sofisticado; foge do escracho esperado quando se pensa na combinação “comédia mais club de striptease’’”, argumenta. Houve fuga de estereótipos que envolvem profissionais do sexo que estão retratados nas telas. “Acho que existe, na atualidade, um exagero quando se trata do politicamente correto. Vira quase uma censura: “Não pode falar isso, não pode falar aquilo””, ressalta.


Perspectivas de pai


Presente nas salas de cinema, com a comédia Não se aceitam devoluções, Leandro Hassum vive o papel de um pai que assume a filha, largada à própria sorte. “Acho que no cinema cada vez mais temos filmes para a família. Sou um comediante que busca fazer os meus filmes voltados para o público familiar para que possam todos ir para o cinema”, assume. Essa disposição nem sempre vem recompensada, pelo que conta o comediante. “Às vezes, isso até é fonte de crítica: dizem que meus filmes não são profundos”, observa, ao enfatizar o compromisso com comédias populares, feitas “para o povo”.

“Acho que existem muitos filmes de família, e de comédia. Em termos de filmes estrangeiros, a gente tem uma penca de títulos. Não costumo usar generalizações de que, no Brasil, falta isso ou sobra aquilo. Costumo dizer que falta cinema para o Brasil: a gente ainda filma muito pouco”, avalia o diretor do filme, o brasiliense André Moraes. Ele enfatiza que o longa retoma relações familiares, hoje em dia um tanto defasadas pela tecnologia e avanços das redes sociais. “Quero levar essa história linda para as famílias brasileiras para que se dê valor para a família que cada um tem. Quero reaproximar filhos que estejam algo distantes”, enfatiza.

Paternidade (o tema da comédia Não se aceitam devoluções) e cinema sempre combinaram à perfeição, na vida de André Moraes, que é filho do cineasta Geraldo Moraes (morto ano passado), que viveu em Brasília desde os anos de 1960. “Ele nos levava em todos os sets de filmagens. Daí, o cinema fazer parte da minha vida. Graças ao Geraldo e à Malu (produtora, atriz), minha mãe, via toda a engenharia do cinema. Aprendi horrores com eles. Era lindo: eu voltava da escola e a gente passava numa locadora de vídeo, na 215 Norte. Com meu pai, assistia a filmes de Woody Allen, Stanley Kubrick; depois, via filmes de fantasia como História sem fim e Labirinto. Meu pai sempre me trouxe o amor pelo cinema”, comenta.

Sumiu a dona de casa


Na onda de comédias sobre a constituição de famílias, o diretor português Leonel Vieira traz como protagonista de Alguém como eu a atriz Paolla Oliveira. “No filme, a protagonista tem por espelho o homem (Ricardo Pereira), mas nele ela passa a projetar a visão de outra mulher, e isso serve como reflexo para que ela se veja como mulher. Helena (Paolla) mostra como a mulher é um pilar fundamental da sociedade, que fica muito melhor quando ela controla as circunstâncias. Ainda não são tantas representações disso em cinema. Quando elas são as matriarcas, se gera um equilíbrio, pela grande sabedoria trazida — isso é algo histórico”, comenta o cineasta.

Não se aceitam devoluções: versão brasileira de comédia mexicana (foto: Reprodução/Internet)
Não se aceitam devoluções: versão brasileira de comédia mexicana (foto: Reprodução/Internet)


Lançado em 50 cópias, em Portugal, o filme, que é uma coprodução com o Brasil, chegou ao país em 124 cópias, considerado um lançamento grande. “Busquei uma comédia popular: romance com humor abraça um tom mais universal. Encontrar uma relação estável é problema em Paris, em Londres, em Lisboa. Reforcei aspectos psicológicos, sempre comuns a todos os povos. Humor tem muito a ver com cultura. Mas não apostei em autenticidade e traços momentâneos da cultura lusitana, saindo do que fosse específico. Ancorei o filme em problemas atuais das mulheres emancipadas e bem-sucedidas”, conclui.


Sucesso tamanho família 


Cinco das comédias com temática relacionada a núcleos familiares mais assistidas no cinema brasileiro, desde 1970

Dona Flor e seus 2 maridos (1976) 
10,7 milhões

Minha mãe é uma peça 2 (2016)
9,2 milhões

O casamento dos Trapalhões (1988) 
4,7 milhões

Minha mãe é uma peça (2013) 
4,6 milhões

Até que a sorte nos separe 2 (2013) 
3,9 milhões

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