Publicidade

Correio Braziliense

Poesia, teatro e cinema se encontram em festival no Museu Nacional

Arnaldo Antunes e NIcolas Behr são algumas das atrações do Transepoesias


postado em 07/06/2018 07:30 / atualizado em 06/06/2018 19:25

O divertido projeto Pipocando poesia é uma das atrações do festival(foto: Thiago Sabino/Divulgação)
O divertido projeto Pipocando poesia é uma das atrações do festival (foto: Thiago Sabino/Divulgação)

 

Poesia, música, cinema, oficinas, performances e lançamentos se misturam no Museu Nacional da República durante o 1º Festival de Brasília da Poesia Brasileira — Transepoéticas. Idealizado por Adeilton Lima, a primeira edição do projeto reúne uma mostra da produção literária da capital e, para enriquecer a programação, leva ao palco cantores como  Arnaldo Antunes e Eduardo Rangel.

Grandes e novos poetas têm seu espaço garantido para recitar e levar o trabalho ao público. A ideia é movimentar a criação do Distrito Federal e mostrar que a poesia dialoga com múltiplas linguagens.

Adeilton Lima conta que realizar um evento de grande porte em torno da poesia da cidade é um sonho antigo. Ele lembra que o DF é um lugar múltiplo, recheado de várias culturas, sotaques e linguagens, para além do Plano Piloto e tudo isso se reflete na arte produzida na região.

“O bom é também podermos nos abrir para o Brasil e para o mundo. Daí o nome Transepoéticas —  Poéticas em Transe! A semente está plantada e já dando frutos”, destaca o idealizador e poeta. Para ele, a mistura artística pode contribuir para a construção de uma cultura de paz, promovendo o acesso cultural a um público amplo e diverso.

“Essa política de ódio e preconceitos que temos testemunhado recentemente pode ser combatida por intermédio da poesia e com poesia. Precisamos, como sociedade, construir e viabilizar os acessos”, destaca. A ideia é mostrar que fazer poesia é também uma ação social e política.

O festival movimenta a cultura da capital justamente por sua variedade e qualidade dos artistas presentes. Do rap ao texto conhecido como mais tradicional, do olhar matuto à poesia concreta, dos diálogos à experimentação, do barroco ao tecnológico, Gog, Sids, Artur Gomes e Mano Melo, além da performance, do teatro, da música e do cinema.

Discursos poéticos combativos, como os de Jorge Amâncio e Cristiane Sobral, se misturam às irreverências de Vanderlei Costa e Wélcio de Toledo.

Compartilhar e criar 

“A poesia é uma arte grandiosa e Brasília tem desenvolvido uma cultura de saraus muito bacana. Esse evento pretende mostrar que a poesia é uma arte acessível, que dialoga com a vida que corre diante de nós”, lembra Adeilton. Enquanto isso, entre oficinas e debates, o festival busca estimular a produção artística e o acesso, desconstruindo velhos preconceitos ou olhares ingênuos sobre a arte da poesia.



“ Nesse festival a gente pode quebrar essa imagem do senso comum do poeta e da poesia, de que é algo inatingível. Quanto mais você desmistifica, mais você aproxima. A poesia é inútil, mas nada é mais necessário”
Nicolas Behr, poeta



É o caso da oficina poética de Nicolas Behr, que ocorre no último dia do festival, no domingo. Para o escritor, essa é uma boa oportunidade de compartilhar processos criativos e aprender novos caminhos com os participantes. Nicolas conta que a ideia é que os alunos saiam ainda mais confusos do que chegaram, já que o conflito e a incerteza são terrenos férteis para a poesia. “A certeza é limitadora, reducionista, se o cara tem certeza, que nem vá. Espero que a gente possa dividir uma criação poética envolta por uma tensão positiva, que é sempre muito bem-vinda”, destaca.

Durante o encontro, é possível, por exemplo, aprender a tirar do poema palavras que não funcionam e treinar algumas habilidades que tornam a linguagem mais eficiente. O objetivo é aumentar o espanto e o impacto dos poemas, permitir que eles criem um diálogo ainda mais amplo. “O que importa no poema é a não repetição, a densidade, a linguagem, a invenção. Queremos que o poema, que é um texto com linguagem, possa aderir, colar na memória do leitor”, enfatiza Nicolas.


Interação

A poeta Manuela Castelo Branco, ao lado de seu colorido e divertido carrinho do Pipocando Poesia, também está no evento. O projeto de Manuela, que começou em 2009, troca saquinhos de pipoca por poemas levados pelo público. Para participar, vale ler no celular, recitar versos decorados e até mesmo criar na hora. “A ideia do projeto é espalhar a poesia entre todos e mostrar que ela está no cotidiano. Adultos, jovens e muitas crianças costumam participar”, conta Manuela. O carrinho de pipocas se transforma em uma vitrine literária poética e um sarau ambulante.

Para completar a programação, o festival conta com debates com nomes conhecidos do DF, como no Escritas femininas, feministas e outras fêmeas, com Paulliny Gualberto (mediadora), Meimei Bastos, Cristiane Sobral, Ilka Teodoro e Cynthia Kriemler.

As rodas de leitura criam espaços múltiplos para a produção e interação entre a criação poética, público e poetas de diferentes regiões. A cidade que se construiu sob o signo da poesia mostra sua força criativa e conquista mais um importante espaço de criação e circulação de ideias.
 
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
 
 
O poeta-diplomata indiano Abhay Kumar enriquece a diversidade cultural do 1º festival de Brasília da poesia brasileira — Transepoéticas com o lançamento do livro Profecia de Brasília. Em sua trajetória literária se inserem duas memórias e oito coleções de poemas, como A sedução de Delhi.

O escritor indiano conta que seu novo livro é uma coleção de poemas delirantes sobre os principais marcos, pessoas, pássaros e árvores associados a Brasília. “Escrevo quando recebo inspiração. Na maioria das vezes sou inspirado por lugares, monumentos que visito, pessoas interessantes que conheço”, destaca o autor.

As poesias transitam por diferentes regiões de Brasília e incluem também inspirações de cidades próximas, como Pirenópolis. Abhay mora há dois anos na capital e conta ter se apaixonado pelo Plano Piloto. “É uma cidade única e eu queria dar a Brasília sua própria literatura, criar uma mitologia moderna, uma lenda urbana para a cidade, escrevendo poemas sobre ela”, conta.

Para ele, A profecia de Brasília é, de certa forma, uma resposta ao Poemas escritos na Índia, de Cecilia Meireles. “É uma espécie de diálogo literário com ela e também com Clarice Lispector, cujo ensaio sobre Brasília me inspirou a escrever meu primeiro poema sobre essa cidade. Meu livro é como uma pedrinha jogada no lago Paranoá para criar uma onda”, destaca.

A ideia é que seu livro colabore para que mais autores se inspirem em escrever sobre a jovem capital. Abhay lembra que o que mais lhe encanta em Brasília são os espaços abertos, o amplo céu azul e o clima do cerrado.

“Adoro ir à Ceasa todos os sábados. Viver em Brasília é como morar no céu com estrelas”. A cidade serve de inspiração poética para criar versos e histórias. Entre as linhas, o poeta marca o amor pela capital e demonstra a vontade de deixar algo de si entre as ruas que tanto lhe despertam inspiração. 



Lançamento do livro A profecia de Brasília
De Abhay Kumar, no festival Transepoéticas Sábado (09/06), às 15h.

O 1º Festival de Brasília da Poesia Brasileira —  Transepoéticas
No Museu Nacional da República, de 8 a 10 de junho (sexta a domingo), a partir das 14h. A entrada é franca e a classificação indicativa, livre.
 
 

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade