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Correio Braziliense

Exposição celebra os 80 anos do gravador J. Borges

Mostra reúne trabalhos do xilogravurista na Caixa


postado em 07/06/2018 07:30 / atualizado em 06/06/2018 19:29

J.Borges: poeta do sertão e inventor de narrativas fantásticas(foto: Afonso Oliveira/Divulgacao)
J.Borges: poeta do sertão e inventor de narrativas fantásticas (foto: Afonso Oliveira/Divulgacao)

O xilogravurista J. Borges adora ambientes como feiras, festas populares e tudo que permite a celebração do estilo de vida sertanejo. Assim, a curadora Marcelle Farias não ficou surpresa quando recebeu do artista pernambucano o lote de dez xilogravuras encomendadas para a exposição J. Borges: 80 anos. Em cartaz na Caixa Cultural, com atraso de uma semana por conta da greve dos caminhoneiros ter impedido a chegada das obras ao Distrito Federal, a exposição comemora as oito décadas de vida do xilogravador mais produtivo de Pernambuco. Para marcar a data, ele produziu as dez gravuras nas quais retrata cenas mais significativas de sua produção. 

 

Nascido em Bezerros, cidade de 60 mil habitantes localizada a pouco mais de 100 Km de Recife, J. Borges tem, pelo menos, sete décadas de produção artística. Foi oleiro, criou brinquedos mas foi no encontro com a palavra que tudo começou. José Francisco Borges é, antes de tudo, um poeta do sertão, contador de histórias e inventor de causos fantásticos pescados na observação do cotidiano nordestino. Sabia desde cedo que sua missão e realização estavam na literatura de cordel. Seu Encontro de dois vaqueiros no sertão de Petrolina foi a prova: vendeu mais de cinco mil exemplares e colocou o nome do artista na cena dos mais importantes na produção de arte popular brasileira. Aos 21 anos, ele confirmava que o cordel era mesmo seu destino.

 

A ideia de entalhar a madeira para criar as xilogravuras veio depois. Naqueles anos 1950, boa parte da produção de cordel era ilustrada com fotos reproduzidas em clichês de zinco, procedimento caro e lento que obrigava os artistas a tomar o rumo do Recife para voltar com uma ou duas ilustrações. J. Borges decidiu que fazer xilogravura era mais barato e mais prático. Colocou as mãos a serviço da madeira e da imaginação e, de autor, passou também a ilustrador. Funcionou de maneira surpreendente. 

 

No entanto, não é de nada disso que ele fala nas 10 xilos produzidas para comemorar os 80 anos. A infância, as memórias anteriores à decisão de se tornar artista, o carnaval e a vida sertaneja é que aparecem nas gravuras. São temas que vêm da região, do dia-a-dia, das histórias do povo, como ele costuma explicar toda vez que é questionado sobre a origem da inspiração. “O recorte que a gente fez foi tentar falar das diversas facetas dele”, avisa Marcelle Farias, curadora da exposição. “E nessas facetas tem o lado festeiro e o lado profano.”

 

A combinação entre o sagrado e o profano é, aliás, uma marca da produção de J. Borges. Um de seus cordéis mais conhecidos, A chegada da prostituta no céu, é um exemplo de como o artista une os dois mundos. Quando a meretriz chega ao céu, começa namorar os anjos e a confusão se instala. Nesse universo no qual a vida parece fantástica tem ainda vaquejada, sincretismo religioso e muita ironia. O cordel ocupa uma parte da exposição, que traz um mural com vários folhetos responsáveis pela notoriedade do autor. “Alguns são escritos e ilustrados por ele, outros são de companheiros e amigos”, avisa Marcelle. Um minidocumentário também acompanha a exposição. J. Borges aparece na feira e de lá explica ao entrevistador como se dá o processo criativo. “Ele é um grande contador de histórias”, repara a curadora. 

 

J. Borges 80 anos

Curadoria: Marcelle Farias. Visitação até 22 de julho, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural (SBS Quadra 4, Lotes 3/4, Edifício Anexo da Matriz) 

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